A desinformação pode ser tão letal quanto um vírus. Foi o que o jornalista e pesquisador Neyson Freire testemunhou de perto ao comandar a comunicação do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) durante a maior crise sanitária do século: a pandemia de covid-19. O colapso dos hospitais, o medo de perder entes queridos e a enxurrada de informações distorcidas que se espalhavam sem controle pelas redes sociais tornaram-se a matéria-prima de seu livro “No Reino da Mentira – A (des)informação na linha de frente” (Ed. Jaguatirica, 126 págs.). Lançada no último dia 9 de setembro, durante o 27º Congresso Brasileiro dos Conselhos de Enfermagem, e com nova apresentação prevista para dezembro, em Portugal, a obra de estreia é um mergulho nas consequências devastadoras da desinformação na saúde — e um alerta sobre os desafios que ainda estão por vir.
o início do livro retrata os dias mais difíceis da pandemia | Foto: Cedida
“Na área da saúde, a desinformação é capaz de matar”, resume o autor, que há quase duas décadas atua na linha de frente da comunicação em saúde pública, como assessor de comunicação e da Presidência do Cofen. O livro nasceu de sua experiência durante a pandemia, mas também do percurso acadêmico que o levou a investigar o fenômeno das fake news no mestrado e doutorado. “Minha intenção inicial era puramente acadêmica. Mas quando veio covid-19, percebi que havia um chamado mais urgente. Tive que lidar com a avalanche de informação e desinformação, conviver com perdas pessoais e profissionais e, ao mesmo tempo, seguir trabalhando para manter a sociedade informada. Escrever foi uma forma de organizar essa experiência e transformá-la em algo útil”, diz Freire.
O livro nasceu de sua experiência durante a pandemia | Foto: Cedida
Dividido em cinco capítulos, intercalados por artigos de colaboradores renomados da área da saúde, o início do livro retrata os dias mais difíceis da pandemia. Freire lembra que sua rotina mudou de forma abrupta em março de 2020, quando o Cofen passou a ser fonte prioritária de informações para a imprensa nacional e internacional. “Cheguei a passar 41 dias seguidos em Brasília, sem ver minha família, atendendo jornalistas e tentando organizar uma comunicação clara em meio ao caos. E, no meio disso tudo, eu também tinha medo. Minha filha mais nova tinha 5 anos e não entendia por que toda a família estava em casa e eu não.”
Noites sem dormir e perdas pessoais
Essas passagens pessoais dão ao livro a densidade de um testemunho de época, aproximando o leitor não apenas das estatísticas da pandemia, mas do impacto humano da desinformação em meio a agonia e o descontrole do sistema de saúde. O livro traz relatos de viagens do autor a estados em colapso, como Amazonas e Rondônia. Em Manaus, Freire testemunhou a crise do oxigênio e a exaustão de profissionais de saúde. “Lembro da gerente de enfermagem, Adriana, que estava doente, debilitada, mas não abandonava sua equipe. No crachá dela lia-se: ‘tudo ficará bem’. Jamais esquecerei aquilo”, conta. Em Porto Velho, uma cena marcou de forma ainda mais pessoal: no meio do corredor, ele reconheceu seu ex-sogro internado em estado grave. “Foi um encontro do acaso. Fiz uma chamada de vídeo com a mãe do meu filho, mas poucos dias depois ele não resistiu. Fui a última pessoa a vê-lo.”
Entre os personagens que se destacam no livro está Anthony Ferrari Penza, conhecido como “Enfermeiro Anthony”, que ganhou notoriedade ao difundir teorias conspiratórias sobre a pandemia. Vestindo jaleco e estetoscópio, ele gravou dezenas de vídeos minimizando os riscos do vírus, questionando vacinas e defendendo tratamentos sem comprovação. Sua trajetória terminou de forma trágica, quando ele próprio foi infectado e morreu de covid-19. “O Anthony ilustra como alguém pode se tornar vítima da própria desinformação que compartilha. Reconstruí sua história ouvindo também familiares, o que a torna ainda mais emblemática. É um exemplo do quanto é urgente promover uma comunicação responsável em saúde”, diz o autor.
Desafios da IA na era da desinformação
Mas o livro não se limita ao passado da pandemia. Discute, principalmente, os novos desafios da chamada “infodemia”, marcada pela velocidade com que informações — verdadeiras ou falsas — circulam nas redes sociais. O autor dedica um capítulo ao impacto da inteligência artificial nesse cenário. “A IA desafia o mundo com sua dualidade. Deepfakes, bots e conteúdos fabricados já são usados para manipular opiniões e fomentar campanhas de desinformação. Detectar e diferenciar o que é humano do não-humano tornou-se um dos maiores desafios da comunicação contemporânea.”
Com pesquisas e vivências, o livro é leitura indispensável para quem deseja se informar sobre a desinformação | Foto: Cedida
Outro ponto abordado é a atuação das plataformas digitais. O autor lembra que, em janeiro de 2025, Mark Zuckerberg anunciou o fim dos programas de checagem de fatos no Facebook e no Instagram nos Estados Unidos, decisão que repercutiu mundialmente. “Isso lança uma sombra escura sobre a luta contra a desinformação. O papel das big techs é central, mas a ausência de transparência e de regulamentação coloca em risco o equilíbrio entre conter mentiras e preservar a liberdade de expressão.”
Apesar do tom de denúncia, “No Reino da Mentira” também aponta caminhos. O autor defende que a saída contra a infodemia passa pela educação midiática, desde cedo. “Mais do que uma questão de tecnologia ou regulação, trata-se de uma revolução pedagógica. Precisamos ensinar crianças e jovens a questionar, verificar e entender as nuances da informação. Esse aprendizado deve estar nas escolas, como já acontece na Finlândia, referência mundial no tema.”
No Brasil, ele cita iniciativas como o programa “Saúde sem Fake News”, que permite a checagem de mensagens suspeitas via WhatsApp, e o “Saúde com Ciência”, voltado a campanhas educativas e monitoramento de desinformação. Para o autor, é fundamental unir governos, plataformas digitais, agências de checagem e sociedade civil. “A comunicação em saúde deixou de ser apenas uma área de atuação para se tornar a minha missão. Acredito firmemente que é nesse ponto de encontro entre comunicação e ciência que podemos produzir conhecimento e transformar a sociedade.”
“Comunicação responsável salva vidas”
Com pesquisas e vivências, o livro é leitura indispensável para quem deseja se informar sobre a desinformação e seus impactos nos temas de saúde pública. Como aponta Manoel Neri, Presidente do Conselho Federal de Enfermagem do Brasil, que prefacia a obra, “Neyson Freire nos instiga a não desistir de buscar pela verdade em tempos de incerteza”. Em um mundo onde a desinformação se espalha mais rápido que qualquer vírus, a leitura se torna essencial para entender como as fake news impactam a saúde pública e como podemos enfrentá-las. “No Reino da Mentira” reúne ainda contribuições de especialistas como a socióloga Maria Helena Machado, da Fiocruz, o jornalista Flávio Liffeman, os professores e doutores em Enfermagem Isabel Cunha e Luciano Lourenção, que se somam às análises do autor para oferecer um panorama plural sobre os desafios da comunicação em saúde e da valorização da Enfermagem.
Nascido no seringal Repouso, no Acre, formado em escolas públicas e com trajetória marcada pela atuação em entidades de saúde, Neyson Freire vê em seu primeiro livro a realização de um antigo desejo: escrever além do dia a dia do jornalismo. “Quero contribuir com minha experiência nesse campo tão desafiador. Porque a comunicação responsável salva vidas.”
Ao reunir relatos pessoais, análises de especialistas e contribuições de colegas da área, o livro se consolida como um registro histórico e um guia reflexivo sobre como a desinformação molda o presente e ameaça o futuro. A leitura de “No Reino da Mentira” conduz o leitor a pensar sobre seu papel diante das informações que consome e compartilha. “Estamos todos dentro desse labirinto chamado desinformação. A saída está em construir uma sociedade mais crítica, consciente e preparada. Esse é o meu convite com este livro”, conclui Freire.
