âImagine vocĂȘ assinar um contrato que vocĂȘ nĂŁo entende nada, que vocĂȘ nĂŁo sabe o que estĂĄ escrito e vocĂȘ perder a sua terra por causa dissoâ. Ă assim que NatĂĄlia Nascimento, representante da Associação dos Moradores do Baixo Riozinho (Asmobri), descreve o que ocorreu com ribeirinhos na regiĂŁo do MĂ©dio Rio JuruĂĄ, no Amazonas.

A população, segundo Natålia, é assediada por conta do mercado de carbono, um ativo cada vez mais valioso no comércio da transição energética.
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De forma simplificada, para reduzir as emissĂ”es globais de gases poluentes na atmosfera, que levam, entre outras consequĂȘncias, ao aquecimento do planeta, empresas recorrem Ă queles que emitem menos ou mesmo reduzem as emissĂ”es para atmosfera.
Por meio de acordos, as empresas garantem a preservação de territórios e compram créditos de emissão de carbono, o que permite que emitam mais gases poluentes, sem desequilibrar a emissão total global.
Um dos problemas é que, como ressalta Natålia Nascimento, esses acordos são feitos com populaçÔes tradicionais, sem que elas sequer entendam o que realmente estå em jogo e o que podem perder; além de não ter a garantia de que a empresa tem condiçÔes de cumprir com o que estå se comprometendo a fazer.
No caso dos acordos assinados com a Asmobri, NatĂĄlia conta que a empresa prometia mais do que poderia dar e impactaria o modo de vida da população alĂ©m do que estava informando. O MinistĂ©rio PĂșblico Federal foi acionado e a comunidade aguarda decisĂŁo judicial.
âAs pessoas que assinaram esse contrato, a maioria da comunidade, sĂŁo leigas. Elas nĂŁo sabem nem o que elas assinaramâ, relata a representante. âVamos permanecer firmes e confiando na Justiçaâ, diz.
Conflitos do Clima
NatĂĄlia Nascimento relatou o caso nesta segunda-feira (20), no evento COP30 e os Conflitos do Clima: REDD+, Mineração e as Lutas por Justiça Racial e de GĂȘnero, promovido pelo Programa de PĂłs-Graduação de CiĂȘncias Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
O Baixo Riozinho é apenas um dos exemplos dos impactos das mudanças climåticas sobretudo nas populaçÔes e åreas mais vulneråveis.
De acordo com os debatedores, o tema deve ser considerado quando se discute transição energĂ©tica em espaços como o da 30ÂȘ ConferĂȘncia das NaçÔes Unidas sobre Mudanças ClimĂĄticas (COP30), que ocorre em novembro em BelĂ©m.
ExcluĂdos das decisĂ”es
A diretora de Programas da Anistia Internacional Brasil, Alexandra Montgomery, que tambĂ©m participou do debate, destacou que justamente as populaçÔes mais vulnerĂĄveis sĂŁo as excluĂdas dos espaços de tomada de decisĂŁo, como a prĂłpria COP30.
âQuando vocĂȘ olha quem sofreu de maneira desproporcional esses impactos [climĂĄticos], vocĂȘ vai ver que Ă© um determinado grupo da população. Ă um determinado conjunto populacional. EntĂŁo, a gente tĂĄ na mesma tempestade, mas a gente nĂŁo tĂĄ no mesmo barcoâ, enfatiza. “Essas pessoas sĂŁo colocadas de fora, elas sĂŁo intencionalmente colocadas do lado de fora das mesas de negociação.”
Alexandra ressalta que o Brasil possui 16.390 milhĂ”es de pessoas que moram em favelas e comunidades urbanas, o que representa 8,1% do total da população brasileira, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂstica (IBGE).
BelĂ©m, que sedia em novembro a 30ÂȘ ConferĂȘncia das NaçÔes Unidas sobre Mudanças ClimĂĄticas (COP30), lidera a lista de grandes concentraçÔes urbanas com maior proporção de habitantes morando em comunidades, com 57,1% da população nessas condiçÔes. Â
âQuando a gente tĂĄ falando de mudanças climĂĄticas, de eventos climĂĄticos extremos, de alagamento, de enchente, a gente tĂĄ falando que boa parte dessas pessoas, que moram nessas ĂĄreas de risco, nĂŁo participa ou nĂŁo Ă© escutada nas discussĂ”es sobre as cidadesâ, diz a diretora.
Impactos em Belém
Ăs vĂ©speras da COP30, Alexandra Montgomery chama atenção tambĂ©m para os impactos que serĂŁo deixados na prĂłpria cidade de BelĂ©m apenas por conta da realização desse grande evento na cidade.
âQuando um grande empreendimento entra num territĂłrio, o que ele faz Ă© aprofundar todos os problemas que aquele territĂłrio jĂĄ temâ, enfatiza ela.
Guilherme Carvalho, que é educador popular da organização nĂŁo governamental (ONG) Fase â Solidariedade e Educação, acompanha os preparativos para a COP e tambĂ©m demonstrou preocupação.
âBelĂ©m estĂĄ se transformando em uma cidade espetĂĄculo e uma cidade espetĂĄculo calcada no racismo ambiental, porque todos os dejetos estĂŁo sendo jogados na periferia, sem que haja qualquer indicação do governo do estado de que aqueles dejetos sofrerĂŁo algum tipo de tratamento no futuroâ, afirma.
Ele também falou sobre os impactos dos altos preços na capital paraense não apenas para aqueles que irão participar do evento, mas também para a população local, que jå estå sendo afetada.
âComo toda cidade espetĂĄculo, vocĂȘ tem a gourmetização dos conhecimentos tradicionais, porque agora estĂĄ cheio de cozinha utilizando os ingredientes, as ervas, falando do resgate da cultura amazĂŽnica, mas nĂŁo devolvendo nada para aqueles que realmente dependem desse conhecimento tradicionalâ, diz.
E acrescenta: âOs aluguĂ©is ficaram absurdos e nĂŁo sĂł os aluguĂ©is de quem vem para a COP, mas de quem vive na cidade. Os preços dos aluguĂ©is dispararam e os preços do serviço de um modo geral tambĂ©m dispararamâ.
O presidente Luiz Inåcio Lula da Silva justifica a escolha de Belém como uma oportunidade de mostrar ao mundo a AmazÎnia.
âEu sabia que BelĂ©m era uma cidade com problemas. TĂȘm os problemas de drenagem, tĂȘm os problemas da pobreza. Mas veja, por que nĂłs aceitamos do Brasil fazer a COP lĂĄ? Ă porque Ă© preciso mostrar para o mundo o que Ă© a AmazĂŽnia e o que Ă© o ParĂĄ. NĂŁo vai ser a COP do luxo, Ă© a COP da verdade”, afirmou no inĂcio do mĂȘs em visita ao ParĂĄ.Â
O presidente tambĂ©m afirmou que estĂŁo sendo feitos investimentos na cidade e que, apĂłs o fim do evento, as obras irĂŁo permanecer para a população local. Segundo ele, o governo federal estĂĄ fazendo um investimento de quase R$ 6 bilhĂ”es na cidade.Â
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