Quando as luzes se acenderem no estúdio da TV Nova Aldeia, mais do que câmeras começarão a funcionar: voltará a ecoar no Acre a sensação de pertencimento, de que “somos nós”, vozes, rostos e histórias que refletem o cotidiano e a identidade acreana.
Em uma era em que a informação circula em múltiplas telas, a reativação da TV Nova Aldeia ganha um significado profundo. Trata-se de uma emissora pública e local, feita por acreanos e para acreanos, com o compromisso de aproximar, humanizar e dar visibilidade ao que, por muito tempo, ficou fora do foco da grande mídia.

Mais do que programas de entretenimento, a emissora retorna com a missão de promover o papel social da TV pública/Foto: Arquivo
Por anos, a antiga emissora cumpriu papel essencial como porta-voz das comunidades, dos bairros e das cidades do interior, enfrentando desafios como quedas de sinal e estrutura precária. Agora, com novos investimentos, parcerias e uma gestão voltada à população, a TV Nova Aldeia inicia um novo capítulo: equipamentos modernizados, sinal digital ampliado e um olhar renovado sobre comunicação pública, cidadania e cultura.
Mais do que programas de entretenimento, a emissora retorna com a missão de promover o papel social da TV pública: alcançar municípios, comunidades indígenas e jovens, com uma linguagem que traduza o jeito acreano de ser e de viver.
O renascimento da TV Nova Aldeia é fruto de uma parceria entre o Governo do Estado do Acre e a Universidade Federal do Acre (Ufac), com apoio da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). O investimento da EBC, de R$ 1,25 milhão, possibilitou a aquisição de um transmissor de 3 mil watts, garantindo que o sinal digital alcance cerca de 347 mil pessoas em Rio Branco, Senador Guiomard e municípios vizinhos. A Ufac será responsável pela geração de conteúdo local, abrindo espaço para a produção acadêmica e comunitária, com foco na realidade acreana.
Durante a assinatura da ordem de reforma do prédio histórico da antiga emissora, a secretária de Comunicação, Nayara Lessa, destacou o momento como um marco da comunicação pública no estado.
“É um momento de emoção. Eu era telespectadora quando criança e, hoje, como profissional, vejo a TV Nova Aldeia como uma conquista para a população, para os profissionais de imprensa e para os alunos do curso de Jornalismo da Ufac”, afirmou, ressaltando que o projeto é “uma vitória construída por várias mãos”.
Em entrevista exclusiva, Nayara explicou que a principal motivação para retomar o projeto foi garantir que o Acre voltasse a ter uma comunicação pública de verdade.
“Em 2018, o Estado perdeu a concessão da TV por não avançar na transição digital. Agora, o governo retomou o projeto e recolocou no ar uma emissora que é símbolo da nossa identidade e do direito do cidadão à informação”, disse.
A secretária reforçou que a nova TV nasce com autonomia e compromisso social.
“As informações veiculadas seguem os princípios da comunicação pública — corretas, de interesse coletivo e sem viés político. Queremos que o cidadão tenha acesso ao que realmente importa — concursos, campanhas e conteúdos culturais — de forma transparente”, destacou.
Nayara também enfatizou que a TV Nova Aldeia é um instrumento de valorização da identidade acreana.
“Essa emissora vem para valorizar o que o Acre tem de melhor: nossa cultura, nossa culinária, nosso artesanato e, sobretudo, nossa gente”, completou.
O projeto prevê ainda a expansão do sinal para o interior do estado.
“Cruzeiro do Sul será o primeiro município a receber o sinal da TV Nova Aldeia. A partir daí, avançaremos gradualmente para outras regiões onde o Estado já possui estrutura de rádio. É um passo importante para que mais acreanos possam se ver e se reconhecer na tela”, anunciou.
Uma nova fase com raízes antigas
O assessor de Comunicação da Ufac, Gilberto Lobo, lembrou o papel histórico da antiga emissora como campo de estágio e formação de comunicadores acreanos.
“Anos atrás, a TV Aldeia era referência e um espaço de aprendizado. Antes, era comum ver características do Sul e Sudeste na TV, mas com a Aldeia começamos a ver a imagem do nosso povo”, contou.
“Agora, com essa nova parceria entre o governo e a Ufac, os estudantes voltam a ter um espaço para aprender na prática, mostrando o Acre de dentro pra fora”, completou.
Para Lobo, a retomada da emissora marca um dos momentos mais importantes da comunicação no estado.
“Nessa era de redes sociais e fake news, a TV Nova Aldeia será um espaço de conteúdo de qualidade e credibilidade”, afirmou.
Lobo também fez questão de homenagear nomes que marcaram a história da antiga emissora, como Tainá Pires, uma das primeiras apresentadoras, Celis Fabrícia, que liderou produções desde 2004, e Carlos Renato, o “Catatau”, técnico que dedicou mais de 10 anos à TV.
Em entrevista, Catatau relembrou os desafios de fazer televisão no Acre nos anos 1990.
“Naquela época era tudo mais difícil. As pessoas que sabiam operar os equipamentos nem sempre ensinavam, por medo de perder espaço. Eu aprendi sozinho, estudando manuais em inglês e japonês da Sony, porque amava comunicação e queria entender como tudo funcionava”, recorda.
Ele lembra que a missão da antiga TV Aldeia era interligar o Acre quando as estradas ainda não chegavam.
“A gente mostrava o Acre para o próprio Acre. Íamos às cidades, registrávamos o modo simples de viver do nosso povo e exibíamos isso na tela. Era um sentimento de pertencimento muito forte”, disse.
Catatau também destacou o impacto da emissora na formação de novos profissionais.
“Muitos grandes nomes da comunicação acreana começaram lá. Era um verdadeiro laboratório, onde aprendíamos na prática e acreditávamos no poder da TV pública.”
Para ele, o retorno da emissora é mais do que um resgate histórico, é a continuidade de um legado. “A nova Aldeia não pode perder a alma da antiga. A TV precisa continuar mostrando o acreano como ele é: um povo que trabalha, que luta e que existe. O Acre existe, é lindo e tem muito a mostrar.”
A presença nacional e o olhar amazônico
Representando a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) na inauguração, realizada em outubro, Graziele Bitencourt ressaltou o valor simbólico da retomada da emissora na Amazônia.
“O mundo está com os olhos voltados para a Amazônia. É extraordinário retomarmos a presença da TV pública no Acre, com investimento superior a R$ 1 milhão. Onde chega a comunicação pública, chega informação de qualidade — e isso é um antídoto contra o mar de desinformação”, afirmou.
“Estava fazendo falta ter o Acre na nossa tela.”
Um novo ciclo da voz acreana
Para o governador Gladson Cameli, a reativação da TV Nova Aldeia representa mais do que a volta de uma emissora, é um passo estratégico para fortalecer a cidadania e a identidade acreana.
“Comunicar é essencial na vida de um gestor, porque, quando você comunica, leva saúde, educação e segurança pública. Isso diminui desigualdades e fortalece o desenvolvimento social e econômico do nosso Estado”, disse.
Ele destacou que o retorno da TV é resultado de uma construção coletiva.
“Diferentes instituições públicas se uniram em torno do mesmo objetivo: devolver essa emissora às famílias acreanas. Essa união começou ainda no meu primeiro mandato, com a jornalista Silvânia Pinheiro, então secretária de Comunicação, e a Ufac, esse diamante do Acre que representa o saber em todas as regiões”, afirmou.
Cameli também anunciou um investimento de cerca de R$ 400 mil em recursos próprios para a reforma do prédio histórico da emissora, garantindo estrutura adequada para o funcionamento da TV e da rádio.
“Quando assumimos o governo, em 2019, havia apenas a concessão — sem equipamentos e sem estrutura. Hoje, com o apoio da Ufac, da EBC e da Secretaria de Comunicação, estamos escrevendo novas páginas na história da comunicação acreana. Que a TV Nova Aldeia seja um laboratório para os alunos e uma produtora de conteúdos culturais e comunitários que promovam cidadania na Amazônia”, concluiu.
Mais do que reativar um canal, o projeto reacende um sentimento coletivo: o de que a comunicação pública ainda tem o poder de unir, educar e valorizar a cultura local.
A TV Nova Aldeia nasce, ou melhor, renasce para cumprir esse papel, com o sotaque, os rostos e as histórias que constroem o Acre.
O retorno da emissora marca o início de um novo ciclo da comunicação pública no estado, um ciclo que resgata o passado, celebra o presente e projeta o futuro.
Mais do que modernizar antenas e transmissores, a TV Nova Aldeia devolve ao povo acreano sua própria imagem refletida na tela, com identidade, orgulho e a certeza de que essa é, de fato, a nossa voz.








