Rio: encontro de escritores e artistas indĂ­genas completa 20 anos

Por AgĂȘncia Brasil 15/10/2025


Logo AgĂȘncia Brasil

O Encontro de Escritores e Artistas Indígenas completa em 2025 vinte anos, reunindo representantes de diversas etnias no Rio de Janeiro a partir desta quarta-feira (15) até a sexta (17) . Rio: encontro de escritores e artistas indígenas completa 20 anosRio: encontro de escritores e artistas indígenas completa 20 anos

Conforme os organizadores, a edição deste ano serå a maior de todas e contarå com a presença de mais de 30 escritores indígenas, além de artistas plåsticos e de audiovisual e personalidades indígenas. A programação gratuita inclui rodas de conversa, poesia, oficinas de pintura, programação infantil, atividades educativas voltadas para a formação de professores e apresentaçÔes musicais.

NotĂ­cias relacionadas:

Idealizador do evento, o escritor e educador Daniel Munduruku (foto de destaque) diz que celebra a ocasiĂŁo como tambĂ©m uma comprovação de resistĂȘncia, uma vez que celebrar vinte encontros no Brasil, “que normalmente perde a memĂłria das coisas”, Ă© uma vitĂłria. Segundo o escritor,  o encontro começou com 12 escritores, e hoje sĂŁo 150 autores indĂ­genas produzindo literatura. SĂŁo mais de 400 tĂ­tulos produzidos por esses autores ao longo dos vinte anos.

“Isso tambĂ©m comprova que a literatura indĂ­gena estĂĄ mais viva que nunca. Ela começou pequena vinte anos atrĂĄs e hoje se reafirma como uma escola literĂĄria. A gente falar dos vinte anos do Encontro de Escritores Ă© falar de resistĂȘncia, de resiliĂȘncia e de uma contribuição permanente dos indĂ­genas para pensar a identidade do povo brasileiro”, apontou Munduruku em entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil.

O escritor acrescentou que o trabalho dos autores indĂ­genas provoca influĂȘncia nas polĂ­ticas pĂșblicas. Como exemplo citou a aquisição de livros desses autores e da edição deles pelos governos federal, estadual e municipal.

“Tudo isso mostra que a literatura estĂĄ presente e mais do que isso estĂĄ influente dentro das polĂ­ticas pĂșblicas que sĂŁo geradas pelo Brasil. O prĂłprio MinistĂ©rio da Cultura acabou de lançar um edital em que traz um requisito da criação de livros e material para escolas, escritos por autores indĂ­genas para ter uma certa equidade com a compra de outros autores. Isso mostra que a literatura estĂĄ presente, continua viva e atuante”, relatou.

Outra condição que reforça esse pensamento é a renovação de geraçÔes, uma vez que aumenta o interesse dos indígenas mais jovens pela produção cultural.

“Se a gente levar em consideração que os povos indĂ­genas sĂł foram considerados brasileiros legĂ­timos em 1988 e olhar a participação que os indĂ­genas exercem hoje na sociedade, a gente fica pensando como a sociedade brasileira deixou as populaçÔes indĂ­genas de fora ao longo da sua histĂłria”, reflete. 

“O indĂ­gena estĂĄ presente hoje em todas as linguagens da arte, que vai desde as artes plĂĄsticas atĂ© a universidade na produção acadĂȘmica, passando pela mĂșsica pelo teatro, pela televisĂŁo com atores atuando em horĂĄrios nobres, tudo isso Ă© uma demonstração que sociedade estĂĄ mudando e, com certeza, hĂĄ uma contribuição que a literatura estĂĄ fazendo para que isso aconteça”, ressaltou, lembrando que atualmente o escritor indĂ­gena Ailton Krenak Ă© imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Mineira de Letras e ele mesmo Ă© membro da Academia Paulista de Letras.

Encontro

O encontro vai até sexta-feira, com atividades no Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauå, região portuåria da cidade. No encerramento, såbado (18) na Fundação Casa de Rui Barbosa, em Botafogo, os visitantes poderão se divertir com apresentaçÔes musicais, oficinas de ilustração, atividades para crianças, contação de histórias, roda de poesia e feira de artesanato e de livros indígenas.

Os ingressos para toda a programação da 20ÂȘ edição podem ser solicitados gratuitamente pelo site do Sympla.

A coordenação do evento é feita pela professora de literatura da Universidade Federal Fluminense (UFF), Claudete Daflon, em parceria com a Coordenação de Pesquisa e Políticas Culturais do Museu Nacional dos Povos Indígenas (MNPI), em uma realização da Secretaria de Formação Artística e Cultural, Livro e Leitura (Sefli), do Ministério da Cultura (MinC), e apoio da Fundação Casa de Rui Barbosa, do Museu Nacional dos Povos Indígenas, órgão científico-cultural da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), vinculados ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI).


Rio de Janeiro (RJ), 15/10/2025 - 20Âș Encontro de escritores e artistas indĂ­genas. Foto: Gabriel Ferreira/Divulgação

Abertura do 20Âș Encontro de escritores e artistas indĂ­genas.- Gabriel Ferreira/Divulgação

“Por muitas dĂ©cadas a questĂŁo do ser indĂ­gena e da pauta foi invisibilizada pela sociedade brasileira. Apoiar encontros de escritores, que estĂŁo trazendo atravĂ©s da sua escrita a memĂłria, a cultura e tradição dos seus povos Ă© trazer o fortalecimento dessa diversidade que temos em relação aos povos indĂ­genas. É necessĂĄrio tambĂ©m entender o encontro enquanto um momento de reparação e valorização da memĂłria indĂ­gena”, disse a diretora do Museu Nacional dos Povos IndĂ­genas, Juliana TupinambĂĄ, em entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil.

“A gente tambĂ©m pode pensar que instituiçÔes que apoiam eventos como esse estĂŁo nada mais que cumprindo lei, pelo fato que temos a lei 11.645 pautada para a necessidade de espaços para a educação no paĂ­s e falar da histĂłria afro-indĂ­gena do Brasil. É muito oportuno isso, porque hoje Ă© 15 de outubro, considerado o Dias dos Professores, construir um evento pensando nas desconstruçÔes de racismos e preconceitos contra povos indĂ­genas”, completou.

A diretora ressalta que a sociedade brasileira precisa entender a diversidade do povo indĂ­gena. “Promover eventos nĂŁo sĂł como esse, mas com os indĂ­genas, Ă© tambĂ©m reconhecer que quem sĂŁo os originĂĄrios desse paĂ­s, somos nĂłs os povos indĂ­genas. É entender que hoje nĂŁo Ă© mais o tempo de a gente invisibilizar os povos indĂ­genas, porque se estamos vivenciando tantas situaçÔes como a crise climĂĄtica, hoje, onde Ă© uma percentagem maior de preservação do nosso verde e das nossas florestas? É dentro dos territĂłrios indĂ­genas”, pontuou.

Demarcação

Na visão de Juliana Tupinambå, atualmente, a ação dos indígenas não se resume em conseguir demarcar as terras no Brasil, mas é preciso também demarcar a academia, as produçÔes visuais, a literatura, as artes plåsticas, ou seja, tornar mais forte a presença dos povos originårios em vårias representaçÔes no país.

“Demarcar a academia, os espaços institucionais enquanto cargos de poderes, demarcar a polĂ­tica do Brasil, pois hoje temos deputadas indĂ­genas mulheres, temos a ministra, tivemos vĂĄrias secretarias nacionais indĂ­genas. A gente demarca tambĂ©m esta escrita dentro da academia”, defendeu.

“A gente motiva a nossa juventude a ingressar tambĂ©m na academia com esse papel de entender esse legado de luta”, completou.

A professora de literatura da Universidade Federal Fluminense (UFF), Claudete Daflon, também defende maior presença de indígenas e das suas culturas na academia.

“A academia tem que escutar mais, aprender, se sensibilizar porque o conhecimento nĂŁo Ă© produzido unicamente na academia, uma instĂąncia importante de produção de conhecimento, mas ela nĂŁo Ă© a Ășnica instĂąncia. Ela precisa estar em processo de comunicação, aprender e ter uma escuta humilde para renovar os seus quadros e quando a gente pensa em Brasil, AmĂ©rica Latina e no nosso histĂłrico colonial, Ă© fundamental, considerar o papel desses povos, culturas e grupos sociais no sentido de criar alternativas ao modelo social que Ă© de destruição e extrativismo. Essa estratĂ©gia para mim passa pela formação de professores”, comentou.

De acordo com a professora, o aumento da presença de escritores e artistas indĂ­genas na atualidade Ă© resultado da maior visibilidade e espaço ocupado das suas manifestaçÔes culturais. “O que estĂĄ mudando Ă© o espaço que estĂĄ se conseguindo conquistar. Eles estĂŁo conquistando. É muito menos concedido e muito mais conquistado. Os indĂ­genas vĂȘm produzindo cultura, arte, literatura, cinema e fotografia hĂĄ algum tempo”, defendeu.

Espaços

Claudete Daflon destacou que uma preocupação da organização era garantir um espaço de protagonismo de indĂ­genas que escrevem e produzem arte e livro e tĂȘm dificuldades impostas nĂŁo sĂł pelo prĂłprio mercado editorial, como barreiras de um paĂ­s continental, especialmente, para os que vivem em regiĂ”es fora dos centros urbanos.

“A gente tem indĂ­genas dos centros urbanos, mas tambĂ©m tem uma sĂ©rie de biomas no Brasil, em um conjunto diverso, que sĂŁo habitados por povos indĂ­genas. Dentro dessa perspectiva, por exemplo, considerar que a gente tem convidados indĂ­genas que começaram a viajar quinta-feira da semana passada para estar aqui hoje. SĂŁo horas a fio de barco, depois tem que pegar algum transporte rodoviĂĄrio para poder chegar a alguma zona metropolitana que tenha aeroporto”, apontou em entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil.

A professora disse que essas dificuldades estĂŁo muito associadas aos desafios econĂŽmico, social e polĂ­tico de como criar estrutura para reunir estas pessoas. “Neste sentido, o poder pĂșblico tem um papel que estĂĄ representado por instituiçÔes de culturas de ensino e proteção aos indĂ­genas e das lutas das causas indĂ­genas. Dentro dessa confluĂȘncia que a gente pensou neste encontro, que tem uma curadoria indĂ­gena, Ă© protagonizado por indĂ­genas, a identidade visual Ă© de um artista indĂ­gena e nĂłs nĂŁo indĂ­genas entramos como aliados. Isso Ă© central na proposta de composição desse encontro”, completou.

Mesmo com as distĂąncias dos centros urbanos, os indĂ­genas dessas regiĂ”es estĂŁo produzindo cada vez mais, o que fortalece a necessidade de espaço em eventos como este encontro. “AĂ­ a relevĂąncia e a supra-importĂąncia da gente conseguir fazer com que essa produção tenha um espaço de difusĂŁo mais amplo, ao mesmo tempo que a gente promova esses momentos de encontros e trocas, porque a possibilidade de reunir tantos artistas que estĂŁo produzindo em seus territĂłrios, que tĂȘm suas lĂ­nguas, tĂȘm suas histĂłrias prĂłprias Ă© tambĂ©m a possibilidade de tornar possĂ­vel que eles possam fazer intercĂąmbios, fortalecendo as iniciativas, o trabalho deles nos territĂłrios, as polĂ­ticas que se voltem ao apoio a esses escritores e artistas”, avaliou.

Entre os participantes estão personalidades indígenas como o artista plåstico e criador do Selo Editorial Picada, Gustavo Caboco; a advogada, escritora, arte-educadora e doutora pela Universidade de Leiden-Holanda, Fernanda Kaingang; o dramaturgo e escritor, Ademårio Payayå; o professor, escritor e ilustrador, Jaime Diakara; a escritora Eva Potiguara; a poeta e artista plåstica, Moara Tupinambå; o artista plåstico e escritor do Povo Maraguå/AM, Uziel Guayné e lideranças indígenas como Marcos Terena, Catarina Tupi Guarani e Darlene Taukane.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.