O ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, afirmou nesta terça-feira (4) que os municĂpios brasileiros precisam de recursos para enfrentar as mudanças climáticas. Segundo ele, no Brasil, muitas vezes os recursos nĂŁo chegam na ponta, nas cidades. Quando chegam, acabam concentrados nos grandes centros urbanos, com mais capacidade tĂ©cnica, deixando outras localidades, que precisam tambĂ©m de obras para se tornarem mais resilientes, sem os investimentos necessários. 

“O dinheiro, se nĂŁo chegar na ponta, esquece, nĂŁo vai ter infraestrutura. E a gente vai continuar vendo cenas como a gente tem visto repetidamente no mundo”, enfatiza Jader Barbalho Filho.Â
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O ministro cita como exemplo de desastres climáticos no Brasil relacionados a mudanças climáticas as enchentes no Rio Grande do Sul e a seca na Amazônia, que impactaram as cidades e a população.
“Quem Ă© que primeiro sente os eventos climáticos extremos? SĂŁo as cidades, sĂŁo as nossas periferias”, diz. “Como a gente vai fazer infraestrutura nos municĂpios, se nĂŁo tem dinheiro para fazer isso? Isso vai cair do cĂ©u?”, questiona.
O ministro participou hoje de painel no FĂłrum de LĂderes Locais da COP30, no Rio de Janeiro. O fĂłrum, que termina nesta quarta-feira (5), reĂşne mais de 300 prefeitos, autoridades subnacionais e especialistas globais, com o objetivo de discutir soluções climáticas, mobilizar compromissos e reforçar o papel das cidades e regiões como parceiros estratĂ©gicos na ação contra a crise climática.
O evento é organizado pela presidência da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) e pela Bloomberg Philanthropies, fundação de Michael R. Bloomberg, enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para Ambição e Soluções Climáticas.
Capacidade técnica
Segundo Jader Barbalho Filho, o Brasil tem feito investimentos para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. O paĂs fez, recentemente, de acordo com o ministro, uma seleção de infraestrutura, de US$ 25 bilhões [o equivalente a R$ 135 bilhões] para obras de drenagem, mobilidade, contenção de encostas, entre outras.
Mas, ele ressalta, esses recursos nĂŁo chegam a todos os municĂpios que precisam, pois falta capacidade tĂ©cnica.
“O que acaba acontecendo Ă© que os recursos acabam ficando sĂł nos grandes municĂpios, porque eles tĂŞm a infraestrutura, eles tĂŞm os tĂ©cnicos para poder fazer chegar um projeto, um projeto que seja ancorado suficientemente, estruturado. E isso nĂŁo resolve o nosso problema”, diz.
O ministro acrescenta: “Nós temos mandado recursos, mas os projetos não têm suficientemente trabalho técnico estruturado para que essas obras saiam do papel. Então, o processo fica no caminho. Muitas das vezes você tem o dinheiro, mas o projeto não está estruturado suficientemente para que essas obras aconteçam”.
O ministro enfatizou ainda que a solução do tema do clima passa pelas cidades, uma vez que 80% das emissões globais vêm de cidades e são os centros urbanos que abrigam a maior parte da população. No Brasil, 82% vivem em cidades.
A prefeita de Abaetetuba (PA), Francineti Carvalho, que também participou do painel, reforçou a necessidade de apoio técnico.
“Existem, financeiramente, muitos recursos, existe dinheiro. Por que será que os municĂpios nĂŁo acessam? Falta de capacidade tĂ©cnica. NĂłs temos, na regiĂŁo AmazĂ´nica, cidades que nĂŁo tĂŞm nos seus recursos humanos sequer um engenheiro”, diz.
Carvalho defende que as exigĂŞncias nas seleções sejam flexibilizadas para que mais municĂpios possam ter acesso a eles. “A gente precisa pensar tambĂ©m em alguns problemas de exigĂŞncias que sĂŁo feitas, nĂŁo se respeita uma coisa chamada equidade”.
Participação do setor privado
Para o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Ilan Goldfajn, a crise climática exige investimento e a participação da maior parte de atores possĂvel. Ele destacou uma das ações do banco que tem envolvido o setor privado no financiamento de obras. Segundo ele, como os recursos do banco vĂŞm de governos, Ă© limitado. “Precisamos mobilizar o capital do setor privado”, diz.
“VocĂŞ Ă© do setor privado, deseja desenvolver um projeto em uma cidade especĂfica e está preocupado com os prejuĂzos iniciais? NĂłs oferecemos as garantias necessárias. Podemos fazer isso sozinhos ou em parceria com outros bancos de desenvolvimento”, explica.
Goldfajn ressalta: “Precisamos preparar as cidades para serem resilientes a desastres naturais. Esse Ă© um grande problema que enfrentamos. Toda semana, alguma cidade em algum paĂs sofre um desastre natural”.
Carta das prefeituras Â
TambĂ©m no FĂłrum de LĂderes Locais da COP30, nesta terça, mais de 100 prefeitas e prefeitos de mĂ©dias e grandes cidades brasileiras lançaram uma carta que será entregue oficialmente durante a COP30, em BelĂ©m. O texto, elaborado pela Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP), na Ăntegra, está disponĂvel online.Â
O documento reafirma o papel essencial dos municĂpios na agenda climática global e propõe o fortalecimento dos governos subnacionais nas ações propostas.
“O federalismo climático é o caminho para essa transformação. A ação climática exige uma governança multinĂvel entre governo nacional, estados e municĂpios, baseada na corresponsabilidade e no diálogo permanente. A FNP defende o fortalecimento do Conselho da Federação, em articulação com o ComitĂŞ Interministerial sobre Mudança do Clima, de modo que ambos assegurem uma coordenação federativa efetiva da polĂtica climática nacional — alinhando planos, capacidades e meios de implementação para viabilizar uma transição justa e sustentável em todo o territĂłrio brasileiro”, defendem os prefeitos.
De acordo com a carta, os municĂpios pedem, entre outras medidas, a participação dos governos locais na formulação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) – documentos nos quais cada paĂs assume para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e se adaptar aos impactos das mudanças climáticas.
Além disso, solicitam a democratização das tecnologias climáticas, com o acesso equitativo à inovação, dados e soluções digitais; e, a capacitação sobre a agenda climática dos servidores e gestores municipais.

