Cinema brasileiro cresce, emociona e provoca: o que os números revelam sobre nossa produção

Esses resultados são fruto de políticas públicas como a retomada da Cota de Tela e investimentos da Ancine, que destinou R$ 500 milhões ao audiovisual independente

Em novembro, o cinema brasileiro celebra diferentes momentos da sua história e, com eles, surgem novas reflexões sobre o presente e o futuro da nossa produção audiovisual.

No dia 7, completou um ano da estreia de Ainda Estou Aqui(2024), um filme de Walter Salles, que volta às produções após mais de uma década para retratar a memória, resistência e afeto em meio às perdas da ditadura. Curiosamente, é também em novembro que se recorda o relançamento de Central do Brasil (1998), restaurado em 2018, reafirmando o poder emocional e social do cinema nacional. E, no dia 23, comemora-se 94 anos de Coisas Nossas (1931), de Wallace Downey, o primeiro longa brasileiro inteiramente sincronizado com som, marco que mudou para sempre a linguagem cinematográfica no país.

Divulgação do filme ‘O Agente Secreto’/Foto: Reprodução

De produções pioneiras a obras contemporâneas, essas datas mostram como o cinema brasileiro atravessa décadas entre inovações técnicas, crises e reinvenções, um retrato fiel dos desafios discutidos em qualquer análise sobre o setor.

Em meio às discussões sobre o cinema brasileiro, não faltam opiniões, paixões e divergências. São recorrentes questões como: por que o público ainda resiste às produções nacionais? Por que a concentração de filmes permanece no eixo Rio–São Paulo? Até que ponto as políticas públicas conseguem democratizar o acesso à sétima arte? Quais fatores estruturais e econômicos explicam a ocupação majoritária das grandes salas de cinema por produções de Hollywood?

Nesse debate, os críticos apontam que, apesar das boas ideias e temáticas sociais, o cinema nacional ainda sofre com baixas bilheterias, concentração geográfica e falta de representatividade regional. Segundo o IBGE, em 2021, apenas 9% dos municípios brasileiros possuíam ao menos uma sala de cinema. Em comparação, em 2018 esse índice era próximo de 10% e em estados da Região Norte, cerca de 80% das cidades exigem deslocamento de mais de uma hora para que os moradores tenham acesso a uma exibição.

Mesmo diante desses obstáculos, porém, os números mostram uma retomada consistente. Em 2024, foram lançados 456 filmes no Brasil, um crescimento de 10% em relação ao ano anterior. Desses, 197 eram produções nacionais, e o público de filmes brasileiros saltou de 3,7 milhões para 12,6 milhões de espectadores, um aumento de 241%. Nos primeiros seis meses de 2025, o público já cresceu 16,3% em comparação com o mesmo período de 2024, somando 9,1 milhões de espectadores e R$ 1,2 bilhão em bilheteria.

Esses resultados são fruto de políticas públicas como a retomada da Cota de Tela e investimentos da Ancine, que destinou R$ 500 milhões ao audiovisual independente.

Ainda assim, defender ou criticar o cinema nacional exige mais do que opiniões superficiais. É preciso entender as condições de produção e distribuição, os modelos de financiamento e as barreiras culturais que ainda afastam parte do público. Embora o país tenha uma das cinematografias mais diversas do mundo, a democratização do acesso e a valorização do cinema como arte e indústria ainda são desafios urgentes. O cinema brasileiro é, ao mesmo tempo, espelho e motor da sociedade, comunicando e documentando quem somos, o que sentimos e o que sonhamos ser.

Com Ainda Estou Aqui trazendo à tona a força da memória, Central do Brasil reafirmando a emoção de um clássico e Coisas Nossas lembrando nossas origens sonoras, novembro se torna o mês ideal para olhar para o cinema nacional com mais empatia e profundidade.

Entre críticas e aplausos, o que se percebe é que o cinema brasileiro continua vivo, enfrentando dificuldades, mas também reinventando-se, comunicando-se e resistindo, exatamente como sempre fez desde 1931.

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