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Consciência Negra: memória, identidade e educação transformam novembro no Acre

Por Fhagner Soares, ContilNet

O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, é marcado em todo o Brasil como um momento de lembrança, reconhecimento e valorização das raízes africanas que moldaram a cultura do país. A data relembra a morte de Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência e luta pela liberdade, e se consolidou como um convite para que a sociedade revisite sua história e fortaleça o combate ao racismo.

No Acre, essa reflexão ganha espaço principalmente nas escolas, onde estudantes têm contato mais direto com temas relacionados à identidade, à cultura afro-brasileira e ao respeito às diferenças. É nesse ambiente que o professor de História da rede pública, Adriano Sostenes, desenvolve, ano após ano, atividades voltadas ao tema.

No Acre, essa reflexão ganha espaço principalmente nas escolas/ Foto: Reprodução

A origem da data e seu significado para o Acre

Criada oficialmente em 2011, a data se firmou como um marco da memória nacional, destacando a importância das lutas negras ao longo dos séculos. No Acre, onde a diversidade cultural dialoga com a ancestralidade amazônica, o 20 de Novembro se torna uma oportunidade para que crianças e jovens compreendam não apenas a história do país, mas também o lugar que ocupam dentro dela. Para Adriano, a data continua sendo um ícone de resistência e pertencimento, mas ainda distante de parte da população fora do ambiente escolar.

“Pouco se fala sobre o que o vinte de novembro realmente representa. Não vejo programações, e isso pesa muito. Como as pessoas da periferia vão sentir representatividade se não há incentivo?”, questiona.

Entre memória e silêncio

Adriano avalia que, no Acre, quem garante que o tema exista são as escolas. Ainda assim, de maneira limitada. Para o professor, o resultado desse distanciamento é claro: desinteresse, desconhecimento e dificuldade dos jovens em enxergar o 20 de novembro como parte de suas próprias histórias.

“As crianças só têm contato com o significado da data dentro da sala de aula e às vezes nem isso é suficiente. Falta estímulo, falta presença, falta que a comunidade participe também.”

Racismo recreativo: o inimigo diário

A fala mais forte de Adriano surge quando ele descreve como o racismo aparece entre os alunos: não em debates, mas em “piadas”.

“O racismo se manifesta muito como brincadeira. É normalizado. Ouço coisas absurdas as vezes dentro da sala de aula.”

Um dos episódios que mais marcou sua trajetória envolve uma aluna dedicada e participativa, que teve o cabelo alvo de comentários ofensivos.

“No dia seguinte ela voltou com o cabelo alisado e pintado. Mudou completamente. As notas caíram, começou a faltar, deixou de prestar atenção e passou a atrapalhar as aulas. Foi triste ver como aquilo destruiu a autoestima dela.”

Para ele, esse tipo de violência diária mostra o quanto ainda é urgente reforçar a identidade negra desde cedo, não apenas no discurso, mas na prática.

Referências negras importam e fazem falta

Em um estado onde poucas figuras negras ocupam posições de destaque, Adriano reforça que a representatividade dentro da escola tem papel central.

Para ele, o caminho deveria incluir oficinas, metodologias e atividades práticas voltadas à cultura e história afro-brasileira/ Foto: Reprodução

“Ter professores, coordenadores, funcionários negros faz diferença. Dá ao estudante um senso de pertencimento que ele não encontra na sociedade. Aqui é ainda mais importante.”

Educação como caminho e desafio

Embora a escola seja o espaço onde a data tem mais visibilidade, o professor reconhece que também ali há obstáculos.

“Existe um desinteresse de alguns alunos, muito por conta de como foram ensinados ou por puro desconhecimento. Também falta formação para os professores trabalharem o tema de forma contínua.”

Para ele, o caminho deveria incluir oficinas, metodologias e atividades práticas voltadas à cultura e história afro-brasileira ao longo do ano não apenas em novembro.

O que ainda falta?

Quando perguntado sobre avanços, Adriano aponta o mesmo ponto de partida: formação e presença contínua do tema nas escolas. Já sobre retrocessos, ele é direto: a normalização do racismo cotidiano.

“Enquanto isso existir, o trabalho nunca vai ser suficiente.”

Adriano deixa um recado que funciona como convite e alerta:

“Leiam. Quem ainda não tem o hábito, crie. Quem já tem, continue. E neste 20 de novembro, leiam autores e autoras negras. A literatura também é uma forma de resistir e de se reconhecer.”

Enquanto isso existir, o trabalho nunca vai ser suficiente.”/ Foto: Reprodução

Mais que uma data

O 20 de novembro carrega a memória de Zumbi dos Palmares e de toda a luta negra no Brasil, mas no Acre ainda busca ocupar o espaço que merece. A reflexão que permanece com a fala de Adriano é simples e profunda:

Enquanto não houver políticas, presença comunitária e incentivo real, a consciência negra continuará sendo um esforço isolado quando deveria ser um compromisso coletivo.

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