Ícone do site ContilNet Notícias

Da Ilha Grande à fronteira amazônica: a trajetória do Comando Vermelho e seu domínio no Acre

Por Vitor Paiva, ContilNet

Formado nos anos 1970 dentro do Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande (RJ), o Comando Vermelho (CV) nasceu da convivência entre presos comuns e presos políticos durante a ditadura militar. A origem remonta à “Falange da Segurança Nacional”, grupo que reunia detentos que passaram a reivindicar direitos e melhores condições carcerárias com influência dos militantes de esquerda.

O CV surgiu no Rio de Janeiro, ainda na década de 70/Foto: Reprodução

Com o tempo, o grupo se reorganizou e ganhou o nome de Falange Vermelha, que depois seria consagrado pela imprensa como Comando Vermelho. Um dos fundadores, William da Silva Lima, conhecido como Professor, relatou no livro “400 x 1 – Uma história do Comando Vermelho” que o coletivo surgiu para organizar o cotidiano nos presídios, com regras internas e apoio mútuo entre os detentos.

Após a Lei da Anistia, em 1979, os presos políticos foram libertados, mas os integrantes da Falange Vermelha permaneceram encarcerados. Sem a antiga pauta de reivindicação social, o grupo voltou-se à fuga e à criminalidade. Na década de 1980, o CV financiou fugas em massa e, com o dinheiro dos assaltos a bancos, migrou para o tráfico de drogas, aproveitando a expansão da produção de cocaína na Colômbia e a transformação do Brasil em ponto estratégico para o envio da droga à Europa.

A necessidade de proteger as cargas ilícitas levou ao armamento pesado das facções. Segundo especialistas, a disputa por território e a relação com setores corruptos das forças de segurança ampliaram o poder bélico e a estrutura do crime organizado no Rio de Janeiro. Nos anos 1990, o estado registrou picos históricos de violência.

Tentativas de desarticular o grupo, como a transferência de líderes para outras penitenciárias, tiveram efeito contrário: a ideologia e os métodos do CV se espalharam por outras regiões do país. O modelo de “franquias”, em que diferentes chefes controlam seus territórios sem hierarquia central rígida, permitiu à facção se expandir nacionalmente.

Atualmente, o Comando Vermelho marca presença em 25 estados brasileiros, segundo levantamento de pesquisadores da segurança pública. A estrutura se fortaleceu com a atuação em novos mercados ilegais, como ouro, combustíveis e tabaco, que movimentaram cerca de R$146 bilhões em 2022.

A expansão também foi impulsionada por novas tecnologias. O uso de impressoras 3D para fabricar armas, fábricas clandestinas e drones equipados com explosivos demonstram o nível de sofisticação do crime. A Polícia Federal identificou, em 2024, indústrias ilegais em favelas do Rio capazes de produzir armamentos em larga escala.

Chegada e domínio do CV no Acre

O avanço do Comando Vermelho para o Acre ocorreu em 2011, como parte da estratégia de ampliar o controle das rotas do tráfico na Amazônia. O estado é considerado estratégico por fazer fronteira com Peru e Bolívia, dois dos maiores produtores mundiais de cocaína. Inicialmente, CV e PCC (Primeiro Comando da Capital) firmaram um acordo de não agressão que durou até 2016.

De acordo com o promotor e coordenador do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público do Acre, Bernardo Albano, o Comando Vermelho começou a consolidar sua base no estado dois anos após o PCC.

“O Comando Vermelho começou a batizar acreanos aqui no estado a partir de novembro de 2013, portanto depois do PCC, que chegou no estado mais ou menos em 2011, e do B13, que foi fundado em junho de 2013. O Comando Vermelho cresceu no estado principalmente com uma política mais elástica, sem restrições de batismo com relação a integrantes, e conviveu em aliança com essas outras organizações criminosas até 2016, quando, a partir da morte do ocorrido lá em Pedro Juan Caballero, tivemos uma polarização entre as organizações”, explicou Albano.

O Acre se tornou rota importante para o comércio de entorpecentes/Foto: Reprodução

O promotor acrescentou que, após a ruptura, o cenário no estado mudou. “As organizações criminosas ficaram divididas, com o B13 e o PCC de um lado e o Comando Vermelho do outro. No Acre, o Comando Vermelho conseguiu se consolidar como a organização criminosa majoritária, não só no estado, mas praticamente em todo o Arco Norte”, afirmou.

A ruptura citada por Albano ocorreu após o assassinato do traficante Jorge Rafaat Toumani, no Paraguai, em uma emboscada organizada pelo PCC. Com o domínio da chamada “rota caipira”, que liga o Paraguai ao Sudeste, o CV passou a investir na Amazônia para garantir o acesso à fronteira e disputar a “rota Solimões”, caminho alternativo de transporte da droga até os centros consumidores.

De acordo com o promotor Bernardo Albano, a disputa territorial entre as duas facções levou a uma explosão da violência no estado. Entre 2015 e 2017, o Acre registrou o dobro de homicídios e chegou à segunda maior taxa de assassinatos do país, com 63,9 mortes por 100 mil habitantes.

O CV acabou predominando. Hoje, controla o crime organizado no Acre e comemora sua conquista em músicas divulgadas nas redes, como o funk “O Acre é vermelho”. O grupo também passou a recrutar mão de obra peruana para a execução de crimes em ambos os países, com presença acentuada na província de Ucayali, no Peru.

As autoridades do Acre identificam ainda atuação limitada do PCC em áreas de fronteira com a Bolívia, especialmente na região de Santa Cruz de la Sierra. A complexidade geográfica e a extensão das fronteiras dificultam o controle e o monitoramento das atividades ilegais.

Nos últimos anos, operações policiais como a Operação Reduto, deflagrada em duas fases em 2023 e 2024, buscaram desarticular as redes de apoio logístico e financeiro das facções. Ações de inteligência reduziram parte dos índices de criminalidade, mas o domínio do Comando Vermelho segue firme no estado e nas rotas de tráfico que conectam a Amazônia ao restante do país.

O Acre permanece como uma das regiões mais estratégicas do país para o narcotráfico, e o fortalecimento do CV na fronteira indica uma tendência de consolidação de sua presença na Amazônia.

Sair da versão mobile