Facções avançam na Amazônia e tornam Acre área estratégica; disputa reflete nos homicídios

Estado registra redução histórica nas mortes após o pico da guerra entre facções, mas dados de 2025 mostram que grupos criminosos ainda influenciam quase metade dos assassinatos.

Em 2016, porém, o Acre saltou para 355 homicídios, seguido pelo maior pico da história em 2017, quando foram registradas 503 mortes. / Foto: Reprodução

O avanço das facções criminosas pela Amazônia transformou o Acre em um dos pontos mais estratégicos da região. Com presença confirmada em todos os 22 municípios, segundo levantamentos recentes, os grupos organizados se aproveitam da proximidade com Peru e Bolívia para movimentar drogas, armas e dinheiro por meio de rios extensos, rotas clandestinas e regiões de difícil fiscalização. Esse cenário geográfico e social ajuda a entender como a disputa territorial moldou o comportamento dos homicídios nas últimas duas décadas.

 

A série histórica oficial, que vai de 2004 a 2025, mostra uma mudança brusca a partir de 2016, quando teve início a guerra entre facções no estado. Até então, os índices variam entre 139 e 200 mortes anuais, com pequenas oscilações. Em 2016, porém, o Acre saltou para 355 homicídios, seguido pelo maior pico da história em 2017, quando foram registradas 503 mortes. Em 2018, ainda reflexo direto dos confrontos, o número caiu para 396, mas continuou muito acima da média histórica.

A partir de 2019, houve estabilização e queda gradual: 281 homicídios em 2019, 280 em 2020, 206 em 2021, 180 em 2022 e 192 em 2023. Em 2024, o estado atingiu 137 mortes, o menor volume em mais de 15 anos. Já em 2025, até outubro, foram contabilizadas 133 mortes, indicando manutenção da tendência de redução.

Em outubro de 2025, um terço dos mortos tinha entre 18 e 29 anos/ Foto: Reprodução

Mesmo com a queda, os dados mostram que a influência das facções permanece forte. Somente em outubro de 2025, dos 15 homicídios registrados no estado, sete têm ligação direta com a guerra entre grupos rivais, segundo a Polícia Civil. O restante se divide entre motivações diversas, casos fúteis e situações ainda em apuração. A predominância do crime organizado também aparece no tipo de armamento: 66% das mortes ocorreram com uso de arma de fogo, e outra parte envolveu armas brancas ou combinação de instrumentos.

 

A distribuição territorial dos casos reforça a interiorização da disputa. Em outubro, o interior registrou oito homicídios, enquanto a capital ficou com sete. Municípios como Tarauacá, Assis Brasil, Feijó e Brasiléia tiveram ocorrências, mas Rio Branco concentrou 9 das 15 mortes do mês, especialmente nas 1ª e 2ª Regionais, áreas que historicamente sofrem com conflitos entre grupos rivais. No mesmo período de 2024, a capital havia registrado sete mortes.

O perfil das vítimas também reflete o recrutamento de jovens pelas facções. Em outubro de 2025, um terço dos mortos tinha entre 18 e 29 anos, faixa considerada a mais vulnerável para captação por grupos criminosos. Houve ainda vítimas adolescentes, adultos de meia-idade e pessoas acima dos 40 anos, demonstrando que a violência afeta diferentes segmentos conforme o tipo de disputa local.

Mesmo com operações integradas entre forças estaduais, Polícia Federal, PRF e Forças Armadas, especialistas defendem que o enfrentamento na Amazônia exige ações que ultrapassem a repressão imediata. Fatores como isolamento geográfico, falta de oportunidades econômicas, escolas com acesso limitado e baixa presença do Estado nos municípios remotos favorecem o avanço das organizações criminosas, que se aproveitam dessas fragilidades para expandir o controle territorial.

Diante do atual cenário, o Acre se consolida como peça central na rota internacional do narcotráfico e, ao mesmo tempo, como estado onde políticas sociais, prevenção e inteligência policial continuam sendo fundamentais para romper o ciclo de violência. A queda dos homicídios nos últimos anos mostra que avanços foram feitos, mas os dados recentes deixam claro que, enquanto as facções mantiverem capilaridade em todos os municípios, a disputa por território seguirá influenciando diretamente a vida da população.

PUBLICIDADE