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Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascer

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Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascer

Era o fim dos anos 1980 quando dois amigos de Brasília — Francisco Alves, artista plástico e funcionário dos Correios, e Delmo Arguelhes, então estudante de História — descobriram que tinham mais do que afinidades pessoais. Dividiam uma devoção absoluta pelas histórias em quadrinhos. Consumiam tudo: produção brasileira, estadunidense, europeia. E, como todo leitor apaixonado, começaram a se perguntar quando chegaria a hora de criar suas próprias HQs.

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As ideias surgiam mais rápido do que as mãos conseguiam desenhar. Foi quando Delmo lembrou de uma amiga de infância, Leila, que já demonstrava talento incomum desde os sete anos. Ele a chamou; ela topou. A primeira formação da Candango HQ estava completa.

“Outro dia eu estava pensando. Delmo é o cérebro. Ele pensa. Outro dia eu falei que ele tem 397 milhões de ideias. Aqui é a cabeça. É o cérebro. Francisco é o pulmão. Porque respira. Ele respira para dar vida às nossas obras”, declarou Leila, descrevendo seus companheiros. “Arte é a vida. E eu sou a mão. Eles dizem que eu consigo captar o que eles têm em mente.” Disse, humildemente. “Agora, é um desafio. Porque são essas mentes, e eu do outro lado.” Completou entre risadas.

Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascerOs autores das HQs: Francisco Alves, Leila Firmino e Von Delmo

Candango HQ

O trio por trás do universo de Texas Ranger e Lincoln Jr. funciona como uma engrenagem criativa perfeitamente desajustada, e é justamente isso que faz tudo dar certo. Leila, a ailustradora, se descreve como a artista que transforma ideias em imagem, enquanto o roteirista Delmo assume ser “o cérebro”, a mente que cria personagens, piadas e dilemas narrativos a todo momento. Francisco, por sua vez, é visto como aquele que “respira arte” e dá ritmo ao trabalho coletivo. Eles brincam com essa dinâmica: “Olha só o que a mão faz… ela consegue captar o que a gente tem em mente”, diz Delmo sobre Leila; “A cabeça dele é borbulhante”, ela responde sobre ele. Francisco, o arte finalista do grupo, com a calma de quem já transitou pela pintura e pelos quadrinhos, admite que busca uma perfeição impossível — “A gente rasga, joga fora e continua” — e os colegas reconhecem nele o equilíbrio entre técnica e sensibilidade. Juntos, formam um time em que cada um completa o outro, misturando rigor, humor e obsessão criativa para dar vida ao universo crescente de suas obras.

Conheça as mentes criativas por trás de Gloom:

Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascer5 imagensLeila FirminoFrancisco AlvesOs autores das HQs: Francisco Alves, Leila Firmino e Von DelmoOs autores das HQs: Francisco Alves, Leila Firmino e Von DelmoFechar modal.Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascerGloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascer1 de 5

Von Delmo

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Leila Firmino

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Francisco Alves

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Os autores das HQs: Francisco Alves, Leila Firmino e Von Delmo

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Os autores das HQs: Francisco Alves, Leila Firmino e Von Delmo

Gustavo Lucena/Metrópoles

A gênese de Gloom: uma narrativa sobre a desintegração da mente

Delmo imaginava uma HQ que acompanhasse a queda de um homem comum rumo à loucura. Uma trajetória linear, simples, do ponto A ao ponto B. Mas nada no trio era simples.

Ao ouvir o conceito, Leila perguntou:
— “Mas por que contar essa história de modo linear? E se a gente quebrar a linha temporal?”

O comentário mudou tudo. Nascia ali o DNA de Gloom: uma narrativa fragmentada, inquieta, que mistura passado, presente, delírios e memórias. O próprio título, cunhado por Francisco, sintetizava a atmosfera pesada, nebulosa e perturbadora da obra.

O personagem principal não tem nome, uma escolha proposital, segundo os autores, para que sua identidade dissolvida se tornasse parte da experiência de leitura.

Um processo artesanal — e interrompido

Entre 1991 e 1992, o trio criou storyboards completos, discutiu página a página, escreveu diálogos a várias mãos. Mas o mercado editorial brasileiro da época era hostil a experimentações. Na Bienal de Quadrinhos do Rio, editoras foram francas: quadrinhos autorais, adultos e experimentais não tinham espaço.

Para pagar o aluguel do estúdio, os três migraram para a serigrafia. Aos poucos, a rotina apertou, cada um seguiu a própria vida profissional, e Gloom acabou engavetada. Por 32 anos.

Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascer8 imagensDetalhes da HQ GloomProtótipo da HQ Texas Ranger e Lincoln JúniorHQs Texas Ranges e GloomProtótipo da HQ Texas Ranger e Lincoln JúniorProtótipo da HQ Texas Ranger e Lincoln JúniorFechar modal.Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascerGloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascer1 de 8

Detalhes da HQ Gloom

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Detalhes da HQ Gloom

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Protótipo da HQ Texas Ranger e Lincoln Júnior

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HQs Texas Ranges e Gloom

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Protótipo da HQ Texas Ranger e Lincoln Júnior

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Protótipo da HQ Texas Ranger e Lincoln Júnior

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Protótipo da HQ Texas Ranger e Lincoln Júnior

Gustavo Lucena/MetrópolesGloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascer8 de 8

HQ Coletivo Simbiose, inspirada em Brasília

Gustavo Lucena/Metrópoles

O retorno inesperado

Em 2013, no lançamento do livro de Delmo — já doutor em História — Francisco fez a pergunta que reacendeu tudo:

— “E se a gente voltasse com aquela revista em quadrinhos?”

A resposta foi imediata: sim.

Leila também aceitou sem hesitar. Francisco refez a arte-final inteira e o trio retomou o projeto, agora com maturidade técnica e emocional muito maior. Francisco aproveitou para relembrar:

“Quando a Leila chegou, ela se tornou uma parceira. E eu vi que nossa qualidade de desenho já era profissional. Então veio para somar na amizade, no companheirismo e tudo.
E, assim, não foi só o Gloom que nasceu, nasceram outras revistas que estão guardadas ainda.”

A HQ enfim foi publicada em 2023, utilizando ainda os rascunhos iniciais, que Francisco guardou com carinho por mais de 30 anos.

O resultado? Um quadrinho único no cenário nacional: denso, experimental, psicologicamente extenuante e visualmente preciso.

Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascerDetalhes da HQ Gloom

A crítica

O roteirista Jailson Soares, autor de Campo de Vagalumes, sintetizou a experiência assim:

Gloom não é uma leitura passiva; é uma experiência sensorial que exige entrega à desorientação. Como o algoritmo de Dahmer, que ‘espalha caos’ ao manipular percepções, a HQ desconstrói certezas, deixando o leitor tão perdido quanto seu protagonista anônimo. Recomendado para quem busca quadrinhos que desafiem não só a forma, mas a própria noção de sanidade. Uma alegoria perturbadora sobre como a loucura pode ser, afinal, um reflexo distorcido do mundo em que habitamos.

Jailson Soares

Um futuro aberto

Hoje, Gloom atrai novos leitores, há conversas sobre adaptações e o trio Candango HQ segue reunido, criando, aperfeiçoando e explorando novas possibilidades narrativas. A história que quase nunca existiu ganhou vida e tornou-se um dos projetos independentes mais singulares da cena brasileira.

“A gente tem que estar dentro dos melhores. É para ficar entre os melhores do mundo.” Disse Leila, rindo. “E assim, é uma piada. Mas tem um fundo de verdade.”

O trio vai lançar, no dia 15 de dezembro, no Beirute da Asa Sul, a mais nova produção da Candango HQ: Texas Ranger e Lincoln Júnior, A balada de Minouette. A obre se trata de uma série satírica em um universo paralelo, misturando faroeste, humor absurdo, crítica social e cultura pop, com dezenas de personagens exagerados e um herói que defende excluídos. Essa primeira edição, especificamente, tem a trama iniciada em uma reunião criminosa que dá errado, com falsa identidade de uma assassina lendária e intervenção do Texas Ranger. É uma paródia de noir, crime e mito heroico.

Gloom: a HQ brasiliense que atravessou três décadas até nascerHQs Texas Ranges e Gloom

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