A música acreana vive um momento curioso: ao mesmo tempo em que enfrenta a redução de espaços culturais, a cena local continua revelando artistas que insistem em fazer da arte um caminho de vida. Dois desses nomes são Dito Bruzugu e Duda Modesto, artistas independentes que têm levado o Acre para além das nossas fronteiras e conquistado público com histórias fortes, talento genuíno e uma vontade enorme de existir através da música.
Dois cantores que carregam talento e o nome do Acre por onde passam/ Foto: Instagram
Dito Bruzugu: “Sou um operário da música”
Dito se define de um jeito simples, mas cheio de verdade: “um trabalhador da música, um operário”. A música entrou cedo na vida dele, ainda na infância, quando morava no interior de São Paulo e cresceu ouvindo Chitãozinho & Xororó, Cleiton & Camargo e Bruno & Marrone. Mas foi ao voltar para Rio Branco, aos 11 anos, que o rock tomou conta da sua trajetória. Iron Maiden foi a primeira banda que ouviu e dali em diante mergulhou em violão, guitarras e em tudo que envolvia música.
“A música brasileira está no meu sangue”/ Foto: Instagram
O artista conta que sua formação veio de muitos lados: o pai apaixonado por música internacional, a mãe que lhe apresentou Beatles e os tios que organizavam rodas de samba no bairro. “A música brasileira está no meu sangue”, ele diz. Todas essas referências moldaram não só o gosto, mas também o jeito direto e popular com que escreve suas letras.
Autor de composições que falam majoritariamente de amor e desamor, Dito acredita que a linguagem clara é uma ponte com o público. “Nunca fui muito de metáforas. Escrevo do meu jeito, do que vivo na pele.”
Festim, que recentemente venceu um prêmio nacional / Foto: Instagram
A carreira ganhou um novo impulso quando ele e o parceiro André formaram o projeto Festim, que recentemente venceu um prêmio nacional com uma música escolhida entre 740 composições de todo o Brasil. O reconhecimento abriu portas: entrou na programação da Rádio Nacional e passou a circular no sistema público de comunicação.
Constância e trabalho duro. É isso que move tudo.”/ Foto: Instagram
Mesmo celebrando as conquistas, “Dito” como muitos ainda chamam está focado em sua carreira solo. Em 2026, ele lança um EP com três músicas como cartão de visita. A meta? Rodar o Norte, Nordeste e Sudeste e consolidar uma carreira de alcance nacional. “Meu sonho é seguir vivendo da música e continuar sustentando meu filho com o meu trabalho. Constância e trabalho duro. É isso que move tudo.”
Duda Modesto: a voz acreana que canta liberdade
Se Dito cresceu cercado de música, Duda Modesto trilhou o caminho oposto. Ela só descobriu que cantar era um destino possível depois dos 23 anos, quando começou a acordar com músicas prontas na cabeça literalmente. “Eu sonhava com as melodias e acordava escrevendo”, lembra. Isso a levou a estudar teoria musical e, aos poucos, transformar um hobby em carreira.
O Acre é uma influência forte no trabalho da cantora/ Foto: Instagram
Hoje, ela se divide entre ser mãe, profissional de outra área e artista independente. E assume sem medo: “A música é o meu sonho verdadeiro”.
O Acre é uma influência forte no trabalho da cantora. Duda valoriza o sotaque, as expressões locais e o afeto que encontra no Estado. No ano passado, lançou o EP “Eu também sou do Acre”, uma homenagem direta a artistas conterrâneos que a inspiraram.
Antes de subir no palco, ela busca silêncio e introspecção um ritual para se conectar com a própria essência./ Foto: Instagram
Suas composições emergem quase sempre de experiências próprias, conflitos internos, sentimentos, angústias e descobertas. Os temas são íntimos, mas dialogam com muita gente. “As experiências humanas são universais”, explica. Não à toa, uma das situações que mais a marcou foi em Porto Alegre, quando o público cantou com ela uma música recém-lançada. “Eles aprenderam ali, na hora. Aquilo me emocionou muito.”
O estilo musical de Duda é uma soma das suas paixões: começou no rock, ama blues e jazz, mas encontrou sua identidade em um pop brasileiro com pegada indie e influência forte do rock. Antes de subir no palco, ela busca silêncio e introspecção um ritual para se conectar com a própria essência.
Sua arte traz uma mensagem central: liberdade. “Quero falar sobre existir com paz, sem amarras mentais, sociais ou emocionais.” Em músicas como “Pressa Safada” e “Não descuido mais”, ela aborda desde ansiedade até relacionamentos abusivos, cravando a música como ferramenta de cura e identificação.
Sua arte traz uma mensagem central: liberdade. “/ Foto: Instagram
Mas, apesar do talento e das conquistas, ela também aponta um problema: a falta de espaços culturais no Acre. “Temos leis de incentivo, mas faltam lugares voltados para quem quer realmente apreciar música. Aqui, a música virou som ambiente.”
Duas trajetórias, o mesmo ponto de partida
Dito e Duda não vêm da mesma formação, nem trilham o mesmo estilo musical mas compartilham uma origem: o Acre, com suas dificuldades, distâncias e potências.
Ambos carregam no peito o orgulho do Estado e a vontade de colocar a música acreana no mapa nacional. E fazem isso do jeito mais honesto possível: vivendo, compondo e cantando as próprias histórias.
Enquanto isso, a cena musical local segue se reinventando, e artistas como eles mostram que, mesmo com portas fechadas, ainda existem vozes que insistem em abrir caminhos.
