Juma Xipaia denuncia impactos de megaempreendimentos na AmazĂŽnia

Por AgĂȘncia Brasil 21/11/2025


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Nos rios e matas do Xingu, na liderança de cargo polĂ­tico ou no tapete vermelho de Hollywood, a cacica Juma Xipaia mantĂ©m uma trajetĂłria de coerĂȘncia, mesmo que com diferentes tipos de linguagem: luta pelos direitos dos povos e para proteger a biodiversidade da AmazĂŽnia.Juma Xipaia denuncia impactos de megaempreendimentos na AmazĂŽniaJuma Xipaia denuncia impactos de megaempreendimentos na AmazĂŽnia

Recentemente, o nome de Juma tem recebido destaque por causa do documentĂĄrio Yanuni, coproduzido por ela ao lado de Leonardo DiCaprio. O filme tem recebido prĂȘmios no paĂ­s e no exterior, e tenta uma indicação ao Oscar.

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Mas, antes dos cinemas, Juma Xipaia jå se destacou como líder da Aldeia Kaarimã, na Terra indígena Xipaya, região do Xingu, no Parå. Ela enfrentou desde cedo os impactos da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. E segue denunciando os impactos sociais e ambientais que megaprojetos semelhantes, como Ferrogrão e a Hidrovia do Tapajós, podem causar para os que vivem na região.

Acompanhe a cobertura completa da EBC na COP30 

Juma foi ainda secretåria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas no Ministério dos Povos Indígenas (MPI). E se consolidou à frente da luta pela proteção dos territórios indígenas, enfrentou garimpeiros, grileiros e grandes corporaçÔes. Foram vårias tentativas de assassinato por sua atuação na defesa da floresta.

Na 30ÂȘ ConferĂȘncia das NaçÔes Unidas sobre Mudanças ClimĂĄticas (COP30), a cacica tem participado ativamente dos debates que envolvem povos originĂĄrios, movimentos sociais e justiça climĂĄtica. E coloca como principal bandeira a demarcação dos territĂłrios indĂ­genas, pelo bem do futuro do planeta.

AgĂȘncia Brasil: Qual o balanço que vocĂȘ faz da COP30 atĂ© agora, principalmente em relação Ă s manifestaçÔes indĂ­genas?

Juma Xipaia: Essas manifestaçÔes jĂĄ estavam anunciadas, muito em consideração Ă  demarcação dos nossos territĂłrios, que Ă© um processo histĂłrico. Lutamos e reivindicamos muito isso porque nĂŁo se trata apenas de ter o territĂłrio, mas de manter a floresta em pĂ©, proteger a biodiversidade e garantir todos os benefĂ­cios que nossos territĂłrios oferecem para o mundo – principalmente para o clima.

AlĂ©m disso, enfrentamos uma violĂȘncia crescente nos nossos territĂłrios – nĂŁo sĂł pela especulação imobiliĂĄria, mas tambĂ©m pelo garimpo, que continua crescendo. Mesmo com a queda nos Ă­ndices de desmatamento na AmazĂŽnia, isso nĂŁo significa que o problema acabou. E o problema tampouco se limita Ă  AmazĂŽnia.

Precisamos de maior participação indígena de todos os biomas do país. Temos realidades extremamente diferentes de território para território, de bioma para bioma, mas existe um ponto comum que todos reivindicam em uma só voz: a demarcação dos nossos territórios.

 


BrasĂ­lia - 21/11/2025 -Juma Xipaia denuncia impactos de megaempreendimentos na AmazĂŽnia. Foto: Evelyn Lynam

Juma Xipaia tem participado ativamente dos debates na COP30 que envolvem povos originĂĄrios, movimentos sociais e justiça climĂĄtica – Foto: Evelyn Lynam

AgĂȘncia Brasil: O fato de o evento ocorrer na AmazĂŽnia favorece a mobilização dos povos tradicionais e dos movimentos sociais?

Juma Xipaia: Sim, eu vejo tudo isso com bons olhos, porque outros paĂ­ses que sediaram COPs anteriores nem sempre eram democrĂĄticos. Em alguns deles, nem mesmo os povos do prĂłprio paĂ­s podem se manifestar.

Por isso, ver a COP30 acontecendo no coração da AmazÎnia torna essas manifestaçÔes não apenas esperadas, mas um grito de liberdade, um grito de democracia. A COP deve ser um espaço que respeita a democracia, que fomenta e fortalece a democracia no mundo, que garante a liberdade de expressão.

Quando o povo vai Ă s ruas, na COP, em BrasĂ­lia ou em qualquer parte do mundo, nĂŁo Ă© uma luta isolada – é uma luta coletiva, por dignidade, por bem-viver. E essa Ă© a forma mais direta e digna de nos expressarmos. Por isso, considero muito vĂĄlido. E vimos que teve resultado: logo em seguida foi anunciada a demarcação de alguns territĂłrios. Mas fica a pergunta: por que sĂł anunciar e agir depois da manifestação? Por que nĂŁo fazer isso antes?

AgĂȘncia Brasil: Aqui, em BelĂ©m, vocĂȘ participou de eventos sobre transição energĂ©tica justa. De que forma debates como esse chegam aos territĂłrios indĂ­genas?

Juma Xipaia: Para o pĂșblico e para as lideranças que jĂĄ acompanham essa temĂĄtica em todas as COPs, Ă© um assunto muito recorrente, cada vez mais falado e discutido.

Mas, quando vocĂȘ olha para o chĂŁo do territĂłrio, eu nĂŁo vejo os povos indĂ­genas incluĂ­dos – e nĂŁo somente os povos indĂ­genas, mas tambĂ©m os povos tradicionais. Falta inclusĂŁo nĂŁo apenas no debate, mas tambĂ©m nas tomadas de decisĂŁo. E isso precisa ser esclarecido, precisa ser dialogado.

Quando vocĂȘ fala sobre transição energĂ©tica para um parente que estĂĄ lĂĄ no territĂłrio – para um indĂ­gena, para um ribeirinho, para um extrativista – a primeira reação Ă©: “O que tu quer dizer com isso? O que isso significa”?

Fazer uma discussão tão importante usando linguagens técnicas, desconhecidas para a sociedade, é muito arriscado, porque exclui a grande maioria dessa discussão e das tomadas de decisão. Para mim, não existe transição energética justa e limpa se não houver entendimento, participação, consulta e se ela realmente não for limpa, garantida e acessível para a população.

AgĂȘncia Brasil: VocĂȘ teve uma participação de liderança na luta contra a construção da Usina HidrelĂ©trica de Belo Monte no Xingu. Nesse momento, o impacto social e ambiental de outros megaempreendimentos estĂŁo em pauta, como a hidrovia no TapajĂłs e a FerrogrĂŁo. HĂĄ semelhanças entre esses processos e da mobilização indĂ­gena?

Juma Xipaia: Vejo muita semelhança entre Belo Monte, Belo Sun, a hidrovia, a Ferrogrão. A principal é a não consulta livre, prévia e informada aos povos que habitam essas regiÔes.

O processo de implementação desses grandes empreendimentos ignora os impactos ambientais, sociais e culturais nesses territórios. Não enxergam as pessoas que ali habitam.

Em relação ao movimento indĂ­gena, eu nĂŁo vejo mais a mesma força, a mesma intensidade como alguns anos atrĂĄs. NĂŁo porque nĂłs estamos fracos – pelo contrĂĄrio, a luta, a resistĂȘncia, continuam.

Mas é devastador quando chega um processo e é executado um projeto como Belo Monte. Ele adoeceu não somente o Rio Xingu. Ele cortou laços familiares, cortou laços sociais, cortou laços de movimento. Então, o impacto que nós sofremos hoje é imensuråvel.

E, com isso, causou uma divisĂŁo dos povos, dos movimentos sociais; causou um enfraquecimento. Esses grandes empreendimentos, o que eles mais trazem, alĂ©m de tudo, é o enfraquecimento da mobilização social, das organizaçÔes sociais de base. Usam a tĂĄtica do ‘dividir para conquistar’.

Mas eu continuo acreditando na força do povo. Eu continuo acreditando na força da natureza. Eu continuo acreditando que vale a pena, sim, continuar essa resistĂȘncia.

 


BrasĂ­lia - 21/11/2025 -Juma Xipaia denuncia impactos de megaempreendimentos na AmazĂŽnia. Foto: Evelyn Lynam

Juma Xipaia Ă© protagonista do documentĂĄrio Yanuni, sobre luta indĂ­gena – Foto: Divulgação/Yanuni

AgĂȘncia Brasil: Nesse contexto de luta, como surge a decisĂŁo de produzir o documentĂĄrio Yanuni ao lado de Leonardo DiCaprio?

Juma Xipaia: Eu aceitei esse projeto do documentĂĄrio em um momento muito delicado da minha vida, quando, de fato, nĂŁo queria falar com absolutamente ninguĂ©m – vindo de um processo de ameaças, de silenciamento forçado. Mas eu vi que, com Yanuni, teria oportunidade nĂŁo somente de ecoar a minha voz, mas de todos os povos que trabalham defendendo a floresta com as suas prĂłprias vidas.

Estar no cinema e ter a oportunidade de fazer uma campanha de impacto com o objetivo de chegar até ao Oscar é algo que eu nunca imaginei na minha vida.

Quando olho para o retrocesso dos nossos direitos, a ausĂȘncia de inĂșmeras polĂ­ticas pĂșblicas, as invasĂ”es e a degradação dos nossos territĂłrios, a violĂȘncia contra mulheres e meninas em vĂĄrios contextos e biomas diferentes, nĂŁo tem como nĂŁo se envolver, nĂŁo tem como nĂŁo lutar, nĂŁo tem como deixar o cansaço ser maior.

Pensando no coletivo e pensando que essa oportunidade seria para romper camadas, somando com outros filmes indígenas que jå foram lançados, Yanuni me fez acreditar que seria necessårio encarar esse projeto e o que a gente estå fazendo: levando Yanuni pelo mundo e a nossa mensagem que vem do coração da floresta amazÎnica para o mundo.

AgĂȘncia Brasil: AlĂ©m dessas frentes, vocĂȘ tambĂ©m tem o Instituto Juma. EstĂĄ conseguindo conectar todos esses projetos e lutas?

Juma Xipaia: Com o Instituto Juma, a gente tem conseguido continuar os nossos trabalhos, as nossas açÔes em defesa não somente do nosso território, mas da floresta e da biodiversidade. A gente tem dado continuidade.

O instituto jĂĄ existia antes do filme e vai continuar existindo para alĂ©m da campanha de impacto. E, por isso, eu digo que a histĂłria nĂŁo termina quando o filme acaba: porque nĂłs vamos continuar existindo. O filme Ă© apenas uma vĂ­rgula de todo o nosso contexto ancestral e milenar de existĂȘncia. Ele Ă© um chamado. Ele Ă© um chamado do coração da floresta para o mundo – e nĂłs vamos continuar fazendo o que acreditamos e amamos.

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