No gramado, o brilho dos gols; fora dele, a força de uma trajetória marcada por superação e resistência. Assim é a história de Jaqueline Brígido, atacante do Galvez e atual artilheira do Campeonato Acreano Feminino, que vem mostrando que talento, garra e paixão pelo esporte falam mais alto do que qualquer barreira.
Natural do Acre, Jaqueline carrega no olhar a lembrança de quem começou cedo. “Desde muito nova o futebol já fazia parte da minha vida. Comecei brincando nas ruas, com amigos e familiares, sem imaginar que isso se tornaria uma paixão tão forte”, relembra. A paixão que nasceu nas brincadeiras se transformou em propósito quando ela passou a integrar a seleção acreana de futsal e, mais tarde, ingressou na escolinha da Assermurb, seu primeiro contato com o futebol de campo.

Em equipe, elas transformam esforço em resultado e sonho em conquista dentro de campo/Foto: Reprodução
Mas o caminho não foi fácil. A atleta lembra dos dias em que o preconceito era o principal adversário. “Ouvir que futebol não é pra mulher era comum. Além disso, faltava incentivo e estrutura. Muitas vezes treinávamos em campos precários, sem apoio. Mesmo assim, a vontade sempre falou mais alto”, conta.
Entre os obstáculos, Jaqueline sempre encontrou inspiração nas mulheres que jogavam sem medo aquelas que, como ela, abriram espaço com coragem e talento. “Essas mulheres me inspiraram. E também as pessoas próximas que acreditaram em mim, mesmo quando eu duvidava do meu próprio potencial”, diz.

Unidas pela paixão e pela força: o elenco do Galvez mostra que o futebol feminino é resistência e talento/Foto: Reprodução
Mesmo com momentos de desânimo, lesões e falta de apoio, a atacante nunca desistiu. “O futebol é minha paixão e minha força. É onde esqueço os problemas e me sinto viva. Ele representa superação, disciplina e amor. É mais do que um jogo, é um propósito.”
Entre o preconceito e a bola no pé
A realidade do futebol feminino ainda é marcada por desigualdades, mas Jaqueline aprendeu a lidar com isso jogando literalmente. “Hoje eu respondo jogando. Prefiro provar dentro de campo o que sou capaz de fazer. O melhor jeito de calar o machismo é mostrar resultado e dedicação”, afirma.
Ela reconhece que as oportunidades ainda não são iguais às dos homens, mas destaca o avanço de quem tem buscado mudar esse cenário. “Ainda há um longo caminho, mas hoje já contamos com o apoio de pessoas que estão lutando por melhorias, como o presidente do Galvez, Igor, que tem sido fundamental para o fortalecimento do futebol feminino”, destaca.
Para ela, o que falta é simples, mas essencial: “Mais investimento, mais visibilidade e mais respeito. Quando as pessoas entenderem que o futebol feminino tem talento e entrega tanto quanto o masculino, as portas vão se abrir ainda mais.”
Rotina intensa e conquistas
Jaqueline vive uma rotina corrida, dividida entre trabalho, estudos e treinos. “Acordo cedo para treinar e logo em seguida vou trabalhar. À noite faço faculdade semipresencial e, depois, treino com o time. É uma correria, mas vale a pena”, diz entre risos.
E o esforço tem dado resultado. No último jogo, a atacante marcou oito gols, consolidando-se como a artilheira do campeonato. “Liderar a artilharia tem sido muito importante pra mim, porque sinto que estou honrando não só o meu esforço, mas o de todos que me apoiam: o treinador Maurício, o Igor e todas as meninas do time.”
Entre as lembranças mais marcantes da carreira, ela cita o gol pelo Campeonato Brasileiro A2, quando vestia a camisa do Atlético Rio Negro, de Boa Vista (RR). “Aquele momento foi inesquecível. Cada conquista é uma lembrança do quanto valeu a pena não desistir.”
Futuro e representatividade
Olhando para frente, Jaqueline sonha alto, mas com os pés firmes no chão. “Espero mais oportunidades, mais estrutura e mais reconhecimento para o futebol feminino no Acre. Temos muito talento aqui, só precisamos de espaço para mostrar.”
Ela já atuou em clubes de fora do estado e não esconde o desejo de chegar à elite do futebol nacional. “Já joguei a A2 e almejo chegar à A1. Esse é um dos meus maiores objetivos.”
Mais do que conquistar títulos, Jaqueline quer ser exemplo para as novas gerações. “Quando uma mulher conquista algo no esporte, ela abre caminho para muitas outras. A representatividade mostra que é possível”, afirma.
Entre a força e o coração
A atacante guarda com carinho o que chama de “sua maior conquista pessoal”: a força herdada de sua mãe, Elizabeth Rodrigues. “Ela é minha inspiração. Sempre me ensinou a não desistir dos meus sonhos e a seguir com coragem, mesmo quando tudo parece difícil. É dela que tiro grande parte da minha determinação dentro e fora de campo.”
Com um histórico impressionante, incluindo 24 gols em 2022, que a colocaram entre as maiores artilheiras do país, Jaqueline resume sua trajetória com uma frase que reflete seu espírito:
“Bons resultados são frutos de foco, determinação e resiliência.”



