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O dia em que o Acre virou Brasil: historiador conta bastidores do Tratado de Petrópolis

Por Fhagner Soares, ContilNet

O Tratado de Petrópolis, assinado em 17 de novembro de 1903, marcou oficialmente a incorporação do Acre ao território brasileiro. O acordo foi firmado entre Brasil e Bolívia após décadas de disputas, interesses econômicos e dificuldades administrativas enfrentadas pelos dois países. Para entender melhor esse processo, o professor e historiador Francisco Bento da Silva, da Universidade Federal do Acre (Ufac), explicou os bastidores e a importância desse marco histórico.

Uma data que merce atenção/Foto: Reprodução

Segundo o professor, antes do tratado, o Acre era reconhecido pelo Brasil como parte da Bolívia, mas já era amplamente ocupado por brasileiros. A distância entre o altiplano boliviano e a região amazônica, somada às dificuldades de administração e ao avanço do ciclo da borracha, criava um cenário de tensão crescente.

“Era um território formalmente boliviano, mas já brasileirado pela presença de quem vivia e trabalhava na região”, destaca.

Por que o acordo foi assinado

O professor Francisco Bento lembra que o Tratado de Petrópolis surgiu de um impasse histórico que se arrastava desde o século XIX: o Acre era reconhecido como território boliviano, mas já era ocupado majoritariamente por brasileiros, principalmente devido ao ciclo da borracha. A Bolívia, distante geograficamente e enfrentando dificuldades administrativas, chegou a negociar o arrendamento da região para o “Bolivia Syndicate”, um grupo anglo-americano fato que acendeu o alerta em setores políticos brasileiros.

“Isso despertou um sentimento de preocupação no Brasil, porque abriria espaço para interesses estrangeiros dentro da Amazônia”, explica o pesquisador. Figuras como Barão do Rio Branco, Assis Brasil e Rui Barbosa tiveram papéis decisivos nas negociações, embora, segundo Bento, nem todos concordassem com o rumo tomado. Rui Barbosa, por exemplo, rompeu com Rio Branco por discordar da compensação financeira e da cessão territorial oferecida à Bolívia.

Quando o Brasil finalmente assumiu o controle

Apesar de o tratado ter sido assinado no fim de 1903, o Acre só foi incorporado de fato em 1904, após aprovação no Congresso brasileiro e boliviano. Para administrar a região, o governo federal precisou até alterar a Constituição, criando a figura de “Território Federal” inexistente até então.

O Acre foi então dividido em três departamentos (Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá), cada um comandado por prefeitos nomeados diretamente por Brasília. Segundo Bento, isso gerou frustração entre a elite local, que esperava assumir o controle político da região após apoiar a Revolução Acreana.

Impacto na vida dos acreanos

De acordo com o professor, para a maior parte da população, principalmente seringueiros e trabalhadores dos barracões, nada mudou imediatamente. “Eles continuaram vivendo como antes: trabalhando muito, ganhando pouco e consumindo produtos caros. A vida seguiu do mesmo jeito”, afirma.

Já os indígenas foram os mais afetados pelo processo de incorporação. Seus territórios foram invadidos, e muitos foram forçados a servir como mão de obra em diversas funções, além de enfrentarem a tentativa do Estado brasileiro de “civilizá-los”, apagando suas línguas e costumes.

Uma figura criada de fora para dentro

Ao comentar sobre o papel do Barão do Rio Branco, Francisco Bento faz uma distinção importante: embora a figura do diplomata seja celebrada nacionalmente, essa visão não nasceu dentro do Acre. “Foi um herói produzido de fora para dentro. A imprensa do Rio de Janeiro reforçou isso, mas aqui não existia esse movimento”, explica. Até mesmo o nome da capital, Rio Branco, foi uma imposição externa.

Tratado de Petrópolis encerra de vez o período da Revolução Acreana/Foto: Reprodução

O Acre como conhecemos

Hoje, mais de 120 anos após sua assinatura, o Tratado de Petrópolis continua sendo um dos pilares da história acreana. No entanto, como observa o próprio professor, essa data muitas vezes passa despercebida no calendário. Relembrá-la é também reconhecer o percurso que moldou o Acre e entender como decisões do passado ajudaram a construir a realidade do estado como conhecemos hoje.

Graças a esse capítulo da história, o Acre desenvolveu características únicas que se refletem na cultura, na culinária, na fala, nos costumes e na diversidade de povos que fazem do estado um lugar singular dentro da Amazônia. É o encontro de tradições indígenas, nordestinas e amazônicas que molda o Acre de hoje, com sua identidade forte, plural e profundamente ligada à própria trajetória de formação do território.

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