Povos de terreiros e quilombolas fazem encontro em paralelo Ă  COP30

Por AgĂȘncia Brasil 03/11/2025


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Em encontros simultĂąneos Ă  30ÂȘ ConferĂȘncia das NaçÔes Unidas sobre Mudanças ClimĂĄticas (COP30), os povos de terreiros e quilombolas se reĂșnem no dia 15, em Salvador e no Rio de Janeiro, para levar ao debate, alĂ©m da questĂŁo climĂĄtica, a luta contra o racismo ambiental e os direitos dos territĂłrios. Povos de terreiros e quilombolas fazem encontro em paralelo Ă  COP30Povos de terreiros e quilombolas fazem encontro em paralelo Ă  COP30

A CĂșpula dos Povos de Terreiro acontecerĂĄ no Parque da Pedra de XangĂŽ, em Salvador, de 9h Ă s 13h. No Rio de Janeiro, o encontro serĂĄ na I CĂșpula das Vozes Quilombolas pelo Clima, na Fundição Progresso, das 9h Ă s 17h. O evento no Rio de Janeiro ocorre em parceria com a Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro (AcquilerjJ). A iniciativa das cĂșpulas Ă© da KOINONIA Presença EcumĂȘnica e Serviço.

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Em entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil, a diretora executiva da KOINONIA, Ana Gualberto, defende que a COP30 deveria ter uma agenda de vida e de importĂąncia das comunidades negras tradicionais. 

“O que tem acontecido no Brasil e no mundo Ă© que as comunidades negras tradicionais, tanto os quilombos como os terreiros, nĂŁo tĂȘm sido ouvidos como atores e atrizes importantes para a preservação ambiental, para a manutenção de ĂĄreas e para apresentar propostas de solução para adiar o fim do mundo que estĂĄ acontecendo cotidianamente”, ressaltou Ana.

A realização da CĂșpula dos Povos de Terreiro, no Parque da Pedra de XangĂŽ, Ă© muito simbĂłlica por se tratar do primeiro parque feito pela Prefeitura de Salvador para o povo de matriz africana. 

“É muito simbĂłlico a gente fazer ali [o encontro], onde tem um espaço de resistĂȘncia muito forte e ser o marco de uma conquista do povo de santo”, disse Ana.

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Objetivos

As duas agendas objetivam, segundo Ana Gualberto, deixar claro que “essas populaçÔes tĂȘm o que dizer, mostrar que isso perpassa a vida delas, e a gente estĂĄ agindo, vocĂȘs sabendo ou nĂŁo. Mas Ă© importante que a sociedade saiba disso. As comunidades estĂŁo preservando [o meio ambiente]”.

Em BelĂ©m, outros grupos vinculados Ă  Coordenação Nacional de Articulação das PopulaçÔes Quilombolas (Conac) vĂŁo realizar atividades, embora nĂŁo se possa reunir na capital paraense todos os grupos do paĂ­s. Por isso, a diretora executiva do KOINONIA disse ser importante que esse debate esteja vivo em cada territĂłrio, cobrando do Estado brasileiro, das unidades federativas e dos municĂ­pios, suas responsabilidades e competĂȘncias com relação aos povos dos terreiros e dos quilombolas.

Ana Gualberto disse que a questĂŁo da regulamentação territorial dos terreiros Ă© muito diferente dos quilombos. Segundo ela, nĂŁo hĂĄ uma legislação nacional que regule o processo de titulação ou de reconhecimento como posse dos territĂłrios. “A polĂ­tica nacional de povos e comunidades tradicionais reconhece tanto terreiros como quilombos como comunidades negras tradicionais do Brasil”, disse. 

“Portanto, o Estado brasileiro tem obrigação de cuidar desses povos porque contribuem para a manutenção da diversidade da nossa sociedade”, defende.

Dos mais de 5 mil terreiros existentes em Salvador, identificados pela prefeitura local, nĂŁo chega a 20% o nĂșmero dos que tĂȘm seu territĂłrio garantido. Ana considera que a questĂŁo Ă© muito complexa, uma vez que com a especulação imobiliĂĄria, essas comunidades estĂŁo sendo empurradas para outros lugares, alĂ©m  da violĂȘncia urbana. 

Mapear a quantidade de terreiros na Bahia poderĂĄ facilitar a implementação de polĂ­ticas pĂșblicas para esses povos, apontou Ana Gualberto. “É preciso quantificar, identificar, para que a gente possa construir polĂ­ticas pĂșblicas efetivas para essa população”.

Quilombolas

A I CĂșpula das Vozes Quilombolas pelo Clima visa chamar a atenção e cobrar do Estado sua ação em prol dos povos quilombos. Para a presidente da Associação Estadual das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj), Bia Nunes, Ă© necessĂĄria uma estratĂ©gia para que a sociedade fluminense e brasileira entenda a importĂąncia, entre os povos originĂĄrios, do povo quilombola na preservação do meio ambiente. 

“NĂłs estamos falando da primeira organização social brasileira. TĂ­nhamos ali os povos que precisavam sair fugidos, cativos, e precisavam criar os quilombos que eram o retorno para suas casas. E quando eles criavam esses quilombos, mantinham e preservavam aqueles lugares, como fazem atĂ© os dias de hoje”, disse Ă  AgĂȘncia Brasil.

Na avaliação de Bia Nunes, quando se fala de justiça climática na COP30, “não se pode, de maneira nenhuma, esquecer de quem vem, durante todos esses anos, mantendo o espaço na preservação, da forma como a população quilombola faz”. 


Rio de Janeiro (RJ), 01/03/2024 - Bia Nunes, presidente da Acquilerj, fala durante o SeminĂĄrio Quilombola Nego Bispo, na Defensoria PĂșblica do Rio de Janeiro, centro da cidade. Foto: TĂąnia RĂȘgo/AgĂȘncia Brasil

Bia Nunes, presidente da Acquilerj – Foto: TĂąnia RĂȘgo/AgĂȘncia Brasil

Por isso, segundo Bia Nunes, as açÔes desenvolvidas pela Acquilerj são voltadas para dar visibilidade às comunidades quilombolas, o que plantam, o que colhem, como preservam as matas e a Mata Atlùntica, no estado do Rio de Janeiro.

A ação da Acquilerj objetiva ainda a regularização dos territĂłrios. Do total de 54 comunidades quilombolas existentes no territĂłrio fluminense, somente trĂȘs tĂȘm tĂ­tulo de posse.  

“E mesmo assim, dois deveriam ser revistos, porque a gente tem aí uma imensidão de equívocos na hora da organização desses textos dos títulos, tanto do Quilombo de Marambaia, em Mangaratiba, como de Preto Forro, em Cabo Frio”, destacou Bia. 

O terceiro quilombo fluminense com título de posse é o de Campinho, em Paraty. 

A presidente da Acquilerj denunciou que para que a titulação saia mais rĂĄpido, eles devem abrir mĂŁo de “uma imensidĂŁo” de alqueires de terra. “É uma chantagem emocional e psicolĂłgica que acontece na maioria dos territĂłrios”. 

Fortalecimento

A cĂșpula do Rio de Janeiro visa o fortalecimento do territĂłrio quilombola e da agenda ambiental que jĂĄ vĂȘm sendo praticada hĂĄ sĂ©culos pelos povos remanescentes dos quilombos. Bia Nunes lamenta o reduzido nĂșmero de organizaçÔes quilombolas que participarĂŁo da COP30, por falta de convite oficial. DaĂ­ o nĂșmero reduzido de participantes, em BelĂ©m, ressalta.

Diante dessa restrição, Bia Nunes salienta a importĂąncia da I CĂșpula das Vozes Quilombolas pelo Clima no Rio de Janeiro. “A CĂșpula do Rio vai ter esse diferencial, porque somos nĂłs discutindo e falando de nĂłs. A primeira mesa serĂĄ Vozes Quilombolas, porque nĂłs teremos ali 16 territĂłrios dando a pauta e o protagonismo desse assunto”. 

ParticiparĂŁo tambĂ©m organizaçÔes da sociedade civil e representantes do poder pĂșblico, para discutir os impactos da crise climĂĄtica nos territĂłrios quilombolas, o direito Ă  terra e a preservação das florestas e das ĂĄguas. 

Durante o evento, serå lançado o Fórum Itinerante Cuidar da Terra é Cuidar da Gente: A Luta Quilombola pela Mata Atlùntica, uma iniciativa da Acquilerj destinada a fortalecer o debate climåtico e os direitos das comunidades em diferentes regiÔes do estado.

As inscriçÔes para participar da cĂșpula no Rio de Janeiro podem ser feitas no endereço https://bit.ly/CupulaVozesQuilombolas. 

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