Tremembé: o comovente relato de vítima de Roger Abdelmassih

Por MetrĂłpoles 03/11/2025

Roger Abdelmassih Ă© um dos criminosos retratados na sĂ©rie TremembĂ©, da Prime VĂ­deo, que estreou na Ășltima sexta-feira (31/10). O ex-mĂ©dico ficou conhecido nacionalmente apĂłs ser condenado por estuprar 37 mulheres, pacientes de sua clĂ­nica de fertilização.

Uma das vítimas de Abdelmassih foi a estilista Vana Lopes, que foi a primeira paciente a denunciå-lo. No depoimento, ela contou como foi o primeiro encontro com o médico e o impacto que os abusos tiveram na vida dela.

“Eu era uma jovem bonita, vaidosa, estilista, vivia na Europa, sempre muito comunicativa e acostumada a receber elogios. Quando eu entrava em um lugar, era comum atrair a atenção dos homens. Nunca vi isso como algo agressivo, por isso nĂŁo achei estranho quando o mĂ©dico Roger Abdelmassih começou a me encarar”, contou, em dezembro de 2016, em um depoimento comovente Ă  Marie Claire.

TremembĂ©: o comovente relato de vĂ­tima de Roger Abdelmassih3 imagensRoger Abdelmassih alegou risco de morte sĂșbita e pede prisĂŁo domiciliarAnselmo Vasconcelos Ă© responsĂĄvel por dar vida ao ex-mĂ©dico Roger Abdelmassih em TremembĂ©Fechar modal.TremembĂ©: o comovente relato de vĂ­tima de Roger AbdelmassihTremembĂ©: o comovente relato de vĂ­tima de Roger Abdelmassih1 de 3

Roger Abdelmassih foi condenado a 181 anos de prisĂŁo

Reprodução/SenadTremembé: o comovente relato de vítima de Roger Abdelmassih2 de 3

Roger Abdelmassih alegou risco de morte sĂșbita e pede prisĂŁo domiciliar

Evelson de Freitas/ EstadãoTremembé: o comovente relato de vítima de Roger Abdelmassih3 de 3

Anselmo Vasconcelos é responsåvel por dar vida ao ex-médico Roger Abdelmassih em Tremembé

Divulgação/Prime Video

Vana procurou o criminoso com a esperança de realizar o sonho de ter um filho biológico. Na época, ela estava casada hå sete anos e tinha uma filha adotiva. Junto com o marido, decidiu procurar uma clínica de reprodução assistida após não conseguir engravidar naturalmente.

“Eu estava focada no meu objetivo e sĂł conseguia pensar nos meus bebĂȘs. Nas consultas, ele fazia parecer que eu jĂĄ estava grĂĄvida e desacreditava de tudo que os outros mĂ©dicos haviam dito. Garantia que eu sairia dali com filhos. Para ele, nada era obstĂĄculo”, seguiu no relato posteriormente reproduzido no livro TremembĂ©, do jornalista Ullisses Campbell.

De acordo com a estilista, as consultas com Roger Abdelmassih eram marcadas por promessas. “Ele me perguntava: ‘VocĂȘ jĂĄ tem nome para as crianças?’. E eu: ‘crianças? Eu pensei que era sĂł uma
’. ‘VocĂȘ vai sair daqui com gĂȘmeos!’, prometeu o mĂ©dico. SaĂ­mos de lĂĄ jĂĄ pensando em apelidos. VisualizĂĄvamos os bebĂȘs, dĂĄvamos nomes, criĂĄvamos personalidades para aquele sonho”.

Outro grande problema era o alto custo dos tratamentos. Na entrevista, Vana relatou que o processo de fertilização custava aproximadamente o valor de um imĂłvel na praia. AlĂ©m disso, o mĂ©dico insistia que as pacientes a pagar por trĂȘs tentativas.

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“Ele nos colocou contra a parede: ‘VocĂȘ prefere ver o mar ou o sorriso dos seus filhos?’. É claro que escolhi os meus meninos. Fomos direto Ă  minha agĂȘncia bancĂĄria e fechamos trĂȘs tentativas de fertilização. TrĂȘs! Ele praticamente exigia isso, alegando que diminuĂ­a a ansiedade da primeira tentativa. Às vezes me sinto uma idiota por nĂŁo ter percebido. Ele me preparava para ter atĂ© quadrigĂȘmeos, e eu visualizava tudo como se jĂĄ estivesse grĂĄvida”, relembrou.

Atenção! A partir daqui, este texto pode despertar gatilhos sobre abusos sexuais. 

Abusos

Uma das partes mais comoventes do depoimento de Vana Lopes retrata o abuso cometido por Roger Abdelmassiih. Ela precisava ir Ă  clĂ­nica diariamente para tomar injeçÔes hormonais. Na primeira tentativa, precisou tomar altas doses, acompanhadas de anestesia para suportar a dor. Na segunda, ela chegou a engravidar, mas perdeu o bebĂȘ no estĂĄgio inicial.

Na terceira vez, Vana tomou uma medicação antes do procedimento e foi levada para a sala de inseminação. Quando abriu os olhos, se deparou com o médico em cima dela.

“Estava lĂșcida, mas completamente imĂłvel. NĂŁo conseguia mover um mĂșsculo nem pronunciar uma palavra. Minha mente estava confusa. Por um momento, achei que fosse sintoma da gravidez. Ao abrir os olhos, vi tudo: um monstro sobre mim, me violentando. Ele me virava e eu nĂŁo conseguia reagir”, contou.

“Fez sexo anal, vaginal, lambia meu rosto, fazia o que queria. Eu seguia paralisada. Quando terminou, o vi indo para o banheiro. Eu estava em estado de choque. Consegui me mover, vesti a roupa às pressas e desci as escadas tropeçando. Uma enfermeira me perguntou o que havia acontecido. Eu disse: ‘fui violentada’. Ela não acreditou ou fingiu não acreditar“, completou.

ApĂłs o crime, Vana sentiu fortes dores na barriga e foi levada ao hospital, onde descobriu que estava Ă  beira de uma infecção generalizada. “Durante o estupro anal, ele levou uma bactĂ©ria do Ăąnus para a minha vagina, que estava sensibilizada pela inseminação. Como eu havia tomado hormĂŽnios para estimular os ovĂĄrios, essa bactĂ©ria foi absorvida e se multiplicou. Em uma semana, se espalhou pelo corpo.”

A estilista precisou ser operada e perdeu as trompas, os ovĂĄrios e “a esperança de ter um filho biolĂłgico”. O impacto do abuso fez Vana abandonar a carreira a se culpar pelo que aconteceu. “Me autossabotei. Comia compulsivamente para ficar feia. Cheguei a pesar 150 quilos. Parei de ir a consultas mĂ©dicas, deixei de visitar amigos, nĂŁo saĂ­a de casa. Passei quatro anos trancada, sem sequer descer Ă  portaria”, detalhou.

DenĂșncia

Na primeira denĂșncia contra Roger Abdelmassih, Vana Lopes foi desacreditada pela polĂ­cia. “Relatei tudo ao delegado, que disse que eu estava delirando. ‘Ele Ă© o mĂ©dico das estrelas. Jamais faria isso’, disse o policial.”

Em 2009, apĂłs vĂĄrias denĂșncias contra o mĂ©dico surgirem, ela voltou ao Departamento de PolĂ­cia com a cĂłpia do boletim de ocorrĂȘncia que fez na Ă©poca do crime. Na ocasiĂŁo, descobriu que o boletim registrado anos antes sumiu da delegacia e chocou a entĂŁo delegada ao mostrar a cĂłpia.

O que aconteceu com Abdelmassih

O ex-médico foi preso inicialmente em 2009, mas, na época, conseguiu responder em liberdade. Em 2010, foi condenado a 278 anos, mas recorreu. Em 2011, enquanto tentava emitir um passaporte, teve o habeas corpus revogado e passou à condição de foragido.

Ele se encondeu no Paraguai, país em que viveu com a esposa e dos filhos até 2014, quando foi localizado em Assunção pela Polícia Federal brasileira em parceria com a Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai.

Roger Abdelmassih foi deportado para o Brasil e levado atĂ© Foz do Iguaçu. De lĂĄ, foi transferido para TremembĂ©, prisĂŁo onde permanece atĂ© hoje. Ele foi localizado graças Ă  denĂșncia de Vana, que o procurou incansavelmente atĂ© ele ser preso.

Vana morreu em 28 de janeiro de 2023, em decorrĂȘncia de um cĂąncer de mama. Na Ă©poca das denĂșncias, ela criou um grupo que ajudava pessoas vĂ­timas de abuso sexual. “A cada sorriso que recebo de uma vĂ­tima acolhida, Ă© como se eu estivesse parindo uma nova criança. É muito bom aliviar a dor de alguĂ©m.”

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