Segundo dados da Agência Sebrae, mais de 5,4 mil novas unidades de farmácias, de manipulação ou convencionais, foram abertas no país em 2024, uma média de 22 por dia. A expansão do setor evidencia o amplo acesso da população a medicamentos e reforça a preocupação de especialistas com o aumento da automedicação no Brasil, prática que pode agravar doenças já existentes ou provocar complicações evitáveis.

O aumento das farmácias fomenta o crescimento da automedicação/Foto: Reprodução
O alerta é do médico Orly Salomão, de 37 anos. Para ele, a população ainda subestima os riscos relacionados ao uso inadequado de remédios. “A grande parte da população vê o remédio como algo inofensivo, mas se usado de maneira errada pode trazer diversas complicações”, afirma Salomão. Ele explica que tomar remédio sem avaliação médica pode resultar em sangramento gastrointestinal, insuficiência renal, hepatite medicamentosa, interações medicamentosas e, muitas vezes, no mascaramento de sintomas importantes que atrasam o diagnóstico correto. “A automedicação é um problema de saúde pública”, reforça.
O crescimento do setor farmacêutico também contribui para o cenário. Para Salomão, a expansão está diretamente ligada à grande demanda. “Não é que as farmácias causem a automedicação, mas elas se expandem porque há uma procura muito grande, e parte desse consumo é inadequado”, avalia.
O médico alerta que os efeitos da automedicação tendem a se intensificar nos próximos anos, especialmente no que diz respeito à resistência antimicrobiana. “O uso excessivo de antibióticos favorece o surgimento de bactérias resistentes. Infecções simples como pneumonia, infecção urinária ou sinusites poderão se tornar muito mais difíceis de tratar, mais prolongadas e potencialmente mais graves”, explica.

O médico afirma que a automedicação pode fortalecer diversas doenças já existentes/Foto: Cedida
Além dos antibióticos, o uso indiscriminado de analgésicos e anti-inflamatórios preocupa. “Esses medicamentos, quando usados sem critério, podem aumentar a incidência de gastrite erosiva, úlcera, sangramentos e doenças renais crônicas”, afirma. Ele ainda destaca riscos relacionados ao abuso de paracetamol, suplementos e fitoterápicos não regulamentados. “O abuso pode levar a um aumento importante de hepatopatias induzidas por medicamentos”, alerta.
Outro problema crescente citado por Salomão é o uso de descongestionantes e substâncias estimulantes. “O uso contínuo de descongestionantes e medicamentos com pseudoefedrina pode aumentar quadros de hipertensão, arritmias e problemas respiratórios devido ao uso prolongado”, diz. Ele também menciona o uso de benzodiazepínicos, como o clonazepam, que pode causar dependência e prejuízo à cognição, principalmente em idosos. “Nos idosos, o cuidado deve ser ainda maior, porque muitos medicamentos permanecem mais tempo no organismo”, afirma.
Segundo o médico, o cenário atual não se resume ao surgimento de novas doenças, mas ao agravamento de problemas já existentes. “Hoje conseguimos observar complicações que estão se tornando mais comuns justamente por causa do uso indiscriminado de medicamentos fora de prescrição”, explica. Entre os jovens, ele cita o uso de anabolizantes de origem duvidosa comprados em mercados clandestinos. “Podem causar hipertensão, infertilidade, problemas cardíacos, lesões hepáticas e alterações psiquiátricas graves”, alerta.

Vem junto a automedicação diversos riscos para a saúde/Foto: Reprodução
Salomão acrescenta que fórmulas manipuladas irregulares de medicamentos como tirzepatida e semaglutida têm se tornado outro risco. “Essas versões clandestinas podem conter dosagens erradas, impurezas e outras substâncias misturadas, aumentando muito o risco de pancreatite, gastroenterite grave, arritmias e até hospitalizações”, explica.
Para ele, a busca por soluções rápidas agrava o problema. “Tornou-se comum buscar um medicamento como primeiro recurso, na tentativa de aliviar qualquer desconforto. Muitas vezes o tratamento adequado envolve hidratação, repouso ou ajustes de hábitos”, afirma. A influência da internet, dificuldades de acesso a serviços médicos e a forte presença de farmácias no país estimulam o ciclo da automedicação.
Em sua recomendação final, o médico reforça que o uso responsável de medicamentos deve ser prioridade. “O mais importante é lembrar que medicamento não é algo inofensivo. Ele tem indicação, dose, momento certo e riscos quando usado sem orientação”, diz. Ele orienta a sempre buscar avaliação profissional, especialmente no uso contínuo. “As interações podem trazer riscos importantes. Informação, orientação e prevenção ainda são os melhores remédios”, conclui.
