CĂŁes-guia em treinamento: CBMDF busca famĂ­lias para acolher os animais

Por MetrĂłpoles 11/12/2025 Ă s 10:04

O Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) tem avançado para ampliar o projeto de cĂŁes-guia, segundo informaçÔes da AgĂȘncia BrasĂ­lia. A corporação estĂĄ trabalhando para, a partir de 2027, entregar cerca de 20 animais por ano. Para chegar lĂĄ, uma etapa importante continua sendo reforçada: encontrar famĂ­lias que recebam os filhotes na fase de socialização.

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Em outubro, apĂłs um parto difĂ­cil da cadela Mila, trĂȘs novos filhotes nasceram no canil da corporação. Com pouco mais de um mĂȘs, eles tĂȘm crescido em um espaço que foi completamente reformado. O ambiente foi reorganizado para garantir higiene, conforto e estĂ­mulos adequados.

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Aos 90 dias de vida, eles serĂŁo encaminhados para as famĂ­lias voluntĂĄrias, onde permanecerĂŁo por atĂ© um ano. Essa convivĂȘncia faz toda diferença no desenvolvimento emocional e comportamental.

“A convivĂȘncia familiar, com movimento, diferentes pessoas, ruĂ­dos, rotinas e pequenos desafios, prepara o filhote para o mundo real de forma natural e saudĂĄvel”, explica o major JoĂŁo Gilberto Silva Cavalcanti, coordenador do projeto.

CĂŁes-guias do Corpo de BombeirosAos 3 meses, os cachorrinhos poderĂŁo ser entregues para as famĂ­lias

O major lembra que, diferentemente de cĂŁes farejadores ou de busca — que podem viver em ambientes mais restritos —, o cĂŁo-guia depende de interação com pessoas. “A experiĂȘncia familiar Ă© essencial porque o tipo de trabalho exige sensibilidade, adaptação e convivĂȘncia plena com humanos.”

A socialização e quem pode participar

Atualmente, dez animais estão nessa fase. São sete pastores-alemães, um labrador e um golden retriever. O voluntariado funciona em ciclo: quem socializa um filhote pode receber outro após a devolução. Um diferencial do projeto é poder adotar o pastor-alemão, raça pouco usada nesse tipo de trabalho no Brasil.

Fernanda Debattisti, psicĂłloga voluntĂĄria, explica que a avaliação das famĂ­lias começa pela estrutura da casa. Embora o ideal seja morar em residĂȘncia tĂ©rrea, apartamentos tambĂ©m podem ser aprovados, desde que ofereçam espaço e segurança suficientes.

CĂŁes-guias do Corpo de BombeirosNo geral, esses animais trabalham por cerca de 8 anos

Outro fator decisivo Ă© o tempo disponĂ­vel. A rotina com o cĂŁo exige passeios, cuidados e exposição a ambientes diversos, como transporte pĂșblico, trabalho e lazer. “A gente nĂŁo quer apenas o acolhimento. Queremos o tempo da famĂ­lia dedicado ao cachorro”, reforça.

FamĂ­lias que jĂĄ tĂȘm outros animais tambĂ©m podem participar, mas as condiçÔes gerais devem ser adequadas. Fernanda lembra que o vĂ­nculo Ă© inegĂĄvel, mas que Ă© normal gerar apego. “É claro que vai se apegar, e isso nĂŁo Ă© ruim, Ă© benĂ©fico. Esse envolvimento faz parte do desenvolvimento do cĂŁo.”

AlĂ©m disso, os voluntĂĄrios nĂŁo precisam ter experiĂȘncia com esses pets e nem arcar com os custos essenciais. O projeto fornece ração mensal, suporte veterinĂĄrio e acompanhamento tĂ©cnico dos treinadores. Gastos extras, como brinquedos e acessĂłrios, ficam a critĂ©rio da famĂ­lia.

Do outro lado da coleira

Para quem aguarda um cão-guia, a iniciativa representa autonomia e segurança. Esio Cleber de Oliveira, de 28 anos, se inscreveu em 2014 e só foi contemplado sete anos depois. Em 2021, recebeu Baré, seu amigo de quatro patas com quem estå até hoje.

CĂŁes-guias do Corpo de BombeirosNo Brasil, A lei nÂș 11.126 (2005) garante que eles podem entrar em qualquer local pĂșblico ou privado

Ele destaca que o animal muda completamente a relação com a cidade. Mesmo com boa orientação e mobilidade, a falta de acessibilidade impĂ”e riscos constantes. “Hoje eu ando em um lugar e amanhĂŁ, no mesmo lugar, pode ter um buraco. O cĂŁo-guia me dĂĄ segurança.”

Esio tambĂ©m aponta um efeito inesperado, a aproximação social. Segundo ele, com a bengala, o olhar das pessoas costuma parar primeiro na deficiĂȘncia. Com o cĂŁo, essa dinĂąmica muda. “A gente fala que Ă© a inclusĂŁo atravĂ©s do cĂŁo-guia.” No trabalho, brinca que BarĂ© jĂĄ Ă© mais popular que ele.

“Hoje, com a reestruturação do canil e a expansĂŁo da iniciativa, o tempo de espera tende a cair. A tendĂȘncia Ă© que alguĂ©m que se inscreva agora consiga um cĂŁo em seis meses ou um ano.” O rapaz lembra ainda que seu prĂłprio parceiro canino vai se aposentar um dia. “Esse projeto Ă© fundamental para que eu tenha, no futuro, a continuidade do meu cĂŁo-guia”, comenta.

Como funciona o treinamento

Depois de quase um ano com a famĂ­lia escolhida, o cachorro volta ao canil para iniciar o treinamento tĂ©cnico. A primeira fase Ă© de obediĂȘncia, dentro dos boxes, onde aprende comandos bĂĄsicos e autocontrole. SĂł depois avança para percursos internos e, em seguida, para as ruas.

Cães-guias do Corpo de BombeirosEmbora presentes hå séculos, o treinamento moderno começou por volta de 1780 em Paris e ganhou força após a Primeira Guerra Mundial, chegando ao Brasil por volta de 1950

O CBMDF reforça que nĂŁo entrega animais apenas “bons”, mas de excelĂȘncia, jĂĄ que qualquer falha pode colocar pessoas em risco. Para ampliar a equipe, em fevereiro a corporação vai iniciar um curso prĂłprio de formação de treinadores. SerĂŁo dez alunos — seis militares e quatro civis — ao longo de dois anos e cinco mĂłdulos.

Novos caminhos: atuação com crianças autistas

A expansĂŁo do projeto tambĂ©m inclui um novo campo de atuação — crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em escolas cĂ­vico-militares. A parceria com a Secretaria de Educação (SEE-DF) prevĂȘ que, a partir do prĂłximo ano, os cĂŁes atuem nas salas de recursos desses locais.

A presença dos animais tem o objetivo de oferecer tranquilidade e estimular a interação social. A ideia surgiu após o major acompanhar de perto casos de discriminação contra alunos neurodivergentes quando atuou como diretor disciplinar em uma escola no Lago Norte.

Cães-guias do Corpo de BombeirosO tutor precisa ter orientação e mobilidade, pois os cães não sabem o caminho, apenas seguem os comandos e desviam de obståculos

Ele observou que muitas crianças com TEA enfrentam barreiras para interagir, Ă s vezes por nĂŁo se sentirem bem com o toque ou com barulhos, por exemplo. Nesses casos, os animais funcionam como mediadores afetivos — tanto aproximam outras pessoas quanto ajudam os pequenos a se acalmarem. As escolas jĂĄ estĂŁo trabalhando para recebĂȘ-los.

Como se candidatar

A vontade de se voluntariar para acolher um desses caninos Ă© quase irresistĂ­vel. Se vocĂȘ acredita que atende aos requisitos e quer participar, basta preencher o formulĂĄrio que estĂĄ no perfil do Instagram do Centro de Treinamento de CĂŁes do CBMDF.

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