VĂtimas de preconceito, os catadores de resĂduos deveriam ser aplaudidos como agentes ambientais, defendeu nesta sexta-feira (19) o ministro da Secretaria-Geral da PresidĂȘncia da RepĂșblica, Guilherme Boulos, que participou ao lado de outros integrantes do governo federal do encerramento da 12ÂȘ ExpoCatadores, na capital paulista. 

âA batalha que nĂłs temos para acabar com o preconceito, para fazer com que o catador neste paĂs seja tratado com o mesmo respeito que Ă© tratado um empresĂĄrio quando quer reciclar. Que o catador possa vencer o preconceito e seja aplaudido como merece, pelo serviço ambiental que prestaâ, disse em seu discurso.
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âCatadores sĂŁo agentes ambientais. A sociedade devia olhar para os catadores e aplaudir de pĂ© pelo serviço ambiental que prestam neste paĂsâ.
O ministro destacou medidas tomadas para beneficiar esses trabalhadores, como a reserva de moradias do Minha Casa, Minha Vida em SĂŁo Paulo que devem ser destinadas exclusivamente a pessoas em situação de rua, situação em que muitos catadores se encontram, segundo Boulos.Â
âSĂł estĂĄ faltando habite-se e vĂŁo ser inaugurados, se Deus quiser, ainda este ano, em SĂŁo Paulo, os primeiros Minha Casa, Minha Vida sĂł para catadores e população em situação de rua desse paĂs. Vai ter casa tambĂ©m. Vai ter crĂ©dito e vai ter casaâ, disse Boulos, que contou que outro projeto semelhante estĂĄ em fase inicial, em Nova Lima (MG).Â
A reserva de 3% de moradias do programa, na modalidade Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), para a população em situação de rua de 38 municĂpios estĂĄ prevista na Portaria Conjunta NÂș 4, de 20 março de 2025.
Ao afirmar que haveria casa e crĂ©dito, o ministro tambĂ©m se referia ao decreto que criou o Programa Nacional de Investimento na Reciclagem Popular (Pronarep), assinado no evento.Â
O Pronarep darå apoio financeiro, técnico e social aos catadores, com o objetivo de promover a sustentabilidade e inclusão social, equidade e valorização do trabalho, com foco na economia circular e na erradicação humanizada dos lixÔes.
âQuem Ă© de cooperativa sabe que muitas vezes falta o capital de giro, falta a esteira, falta o dinheiro para a balança, falta o dinheiro para o caminhĂŁo. O Pronarep Ă© crĂ©dito com juro baixĂssimo, quase zero, na veiaâ.Â
O ministro tambĂ©m mencionou outro decreto assinado no evento para permitir a doação e cessĂŁo de bens da administração pĂșblica a cooperativas e associaçÔes de catadores. A medida deve permitir, por exemplo, a destinação gratuita de balanças substituĂdas do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) a essas organizaçÔes. Boulos explicou que as balanças precisam ser trocadas periodicamente por conta das regras do instituto, mas ainda funcionam bem.Â
Catadores
A ExpoCatadores reuniu um pĂșblico de 3 mil visitantes no PavilhĂŁo de ExposiçÔes do Anhembi, na zona norte da capital paulista, ao longo de trĂȘs dias. Ao todo, participam do evento 600 cooperativas, especialistas, organizaçÔes representativas das trabalhadoras e trabalhadores do setor e autoridades governamentais.
Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂstica (IBGE) de 2023 apontou que, dos 5.557 municĂpios com serviço de limpeza urbana e manejo de resĂduos sĂłlidos, 4.093 (73,7%) indicaram presença de catadores informais.Â
JĂĄ as entidades de catadores que atuaram na coleta seletiva estavam presentes em 1.498 (27%) municĂpios”, complementa o IBGE no informe distribuĂdo ano passado.
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Conforme documenta a edição de 2023 do Atlas Brasileiro da Reciclagem, que apresentou resultados a partir do mapeamento de 2.018 associaçÔes e cooperativas, o Brasil Ă© o quarto paĂs com mais produtores de resĂduos plĂĄsticos, ficando atrĂĄs somente dos Estados Unidos, da China e da Ăndia. O estudo calcula que cada brasileiro gera cerca de 1 kg por semana, perdendo apenas para os Estados Unidos.
Os catadores sĂŁo quem encaminha 90% do volume de embalagens recicladas a empresas que as processam para reĂșso. Embora desempenhem função imprescindĂvel, enfrentam um mercado de trabalho bastante precarizado e que absorve poucos deles, jĂĄ que 6,5% das prefeituras tĂȘm contratos formais com associaçÔes e cooperativas.
Ainda segundo o Atlas, a maioria dos mais de 65 mil profissionais da categoria com perfil analisado tem baixa escolaridade. Sete em cada dez catadores associados estudaram atĂ© o ensino fundamental. A proporção dos que concluĂram o ensino superior Ă© de 2%.
Somando 0,95 toneladas por mĂȘs, em mĂ©dia, ou 2,2, caso seja associado/cooperado, o catador continuava ganhando um baixo salĂĄrio, de R$ 1.478,82, em 2022. A remuneração subia quando as organizaçÔes a que estavam vinculados tinham contratos com o poder pĂșblico, passando para R$ 1.730,58. Sem essas contrataçÔes,a remuneração caĂa para R$ 1.292,01.
Quanto aos marcadores Ă©tnico-raciais, o relatĂłrio destaca que oito em cada dez sĂŁo negros (pretos e pardos) e 1% indĂgena. As mulheres formam o contingente mais expressivo, de 56%, e tambĂ©m eram a maioria entre na direção das entidades (61%).
Outra informação levantada Ă© a idade avançada em relação Ă mĂ©dia da população. Seis em cada dez (64%) tĂȘm acima de 40 anos de idade, e 15% mais de 60 anos, contra 45% e 8% na mĂ©dia nacional, respectivamente.
*Com informaçÔes de Letycia Bond e Andreia VerdĂ©lio, repĂłrteres da AgĂȘncia Brasil.

