Celebrando mais um aniversário neste dia 28 de dezembro, Rio Branco revisita sua própria origem marcada por disputas territoriais, ocupação seringalista e decisões políticas que definiram o destino do Acre. Para o professor de História da Universidade Federal do Acre (Ufac), Airton Chaves Rocha, a trajetória da capital revela que “Rio Branco nasce de uma clareira na floresta, como praticamente todas as cidades acreanas”, resultado de um processo histórico que envolve o ciclo da borracha, a Revolução Acreana e a incorporação definitiva da região ao território brasileiro.
A capital acreana completa 143 anos de existência neste domingo/Foto: Reprodução
Segundo o historiador, o nome Rio Branco está associado à atuação do Barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Júnior, então ministro das Relações Exteriores. “Existe uma documentação produzida pela historiografia oficial acreana informando o papel desempenhado pelo Barão do Rio Branco nas negociações do Brasil com a Bolívia, que resultaram no Tratado de Petrópolis, em 1903, anexando a região do Alto Purus ao território brasileiro”, afirmou. De acordo com ele, “por isso o nome dado à cidade, de forma definitiva, em 1912”, embora ressalte que, sob outra perspectiva histórica, a capital poderia ter recebido outra denominação.
O núcleo que deu origem à cidade surgiu no entorno do seringal Volta da Empresa. Para Rocha, “os acontecimentos ocorridos no entorno desse seringal, no processo da chamada Revolução Acreana, a ocupação pelo Exército brasileiro e a criação do Departamento do Alto Acre transformaram o povoado em vila após a assinatura do Tratado de Petrópolis”.
Antes da chegada dos colonizadores brasileiros, a região já era ocupada por povos originários. O professor lembra que “pesquisas realizadas por intelectuais indígenas, antropólogos e historiadores indicam a existência de aproximadamente 100 etnias indígenas na Amazônia acreana”. No entanto, ele observa que “a historiografia do colonizador não reconhece a presença de povos originários, como os Aquirys, no espaço que hoje é a cidade de Rio Branco”.
A transição de seringal para vila ocorreu após a incorporação definitiva da área ao Brasil. “A partir do Tratado de Petrópolis, da criação do Departamento do Alto Acre e da implantação da Prefeitura, com a administração do primeiro prefeito, Cunha Matos, Rio Branco deixa de ser apenas um seringal”, explicou. Para ele, a produção da borracha e a posição estratégica às margens do Rio Acre foram determinantes para o crescimento. “Acredito que a produção da borracha e a posição estratégica da cidade no contexto do Rio Acre impulsionaram essa transição”, disse.
O professor de história da Universidade Federal do Acre, Airton Chaves Rocha, esclareceu diversas dúvidas sobre a capital acreana/Foto: Reprodução
Sobre o desenvolvimento urbano, Rocha aponta limitações nas fontes históricas. Ainda assim, destaca registros administrativos do início do século. “Lendo os relatórios produzidos pelos prefeitos Cunha Matos e Plácido de Castro, entre 1904 e 1907, percebe-se a reclamação sobre a área insalubre no entorno do que hoje é a Gameleira e a necessidade de transferir os serviços da Prefeitura para outro local”, relatou.
A cidade chegou a ser chamada de Penápolis por um curto período. “Rio Branco teve esse nome em 1909, quando o presidente da República era Afonso Pena”, explicou o historiador. Já a consolidação administrativa, segundo ele, é um tema que ainda gera divergências. “Existem datas diferentes para a criação do município, e não tenho, no momento, uma pesquisa que possa tratar isso de forma definitiva”, afirmou.
O processo que levou o Acre à condição de estado também impactou diretamente a capital. “Entre 1903 e 1962, durante 59 anos, Rio Branco serviu como entreposto comercial da borracha, considerando sua posição estratégica”, destacou Rocha. Ele acrescenta que “a crise da produção da borracha, iniciada a partir de 1912, teve impacto no desenvolvimento econômico e social da cidade”, assim como os efeitos do fim da Segunda Guerra Mundial e o retorno dos Soldados da Borracha, na década de 1940.
Uma das discussões recorrentes na história local envolve a data de aniversário da cidade. Segundo o professor, “a controvérsia passou a existir a partir de 1979, quando o então prefeito Fernando Inácio oficializou o dia (28) de dezembro como data de fundação”. No entanto, ele lembra que “por décadas a comemoração ocorreu em 13 de junho, tendo como referência o ano de 1909, quando Gabino Besouro centralizou o poder administrativo, político e judiciário e estabeleceu lotes e ruas na cidade”. De acordo com Rocha, “periodicamente, próximo ao 28, a polêmica retorna à cena pública, com debates na Câmara Municipal e posicionamentos de historiadores”.
Ao avaliar a formação social e cultural de Rio Branco, o historiador destaca a diversidade populacional. “Nordestinos, indígenas, árabes e outros grupos contribuíram para a diversidade cultural e histórica que se expressa hoje nos diversos segmentos sociais da cidade”, afirmou.
Para Airton Chaves Rocha, a história de Rio Branco ainda apresenta lacunas importantes. “As fontes sobre a expansão urbana, as primeiras grandes obras de infraestrutura e vários desafios sociais enfrentados ao longo da transformação em cidade são esparsas e fragmentadas”, disse. Mesmo assim, ele ressalta que a trajetória de vila a capital estadual consolidou Rio Branco como principal centro político, administrativo e econômico do Acre.
