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Em desabafo, Sérgio Souto questiona transparência e aponta favorecimento no Prêmio Mestres da Cultura

Por Redação ContilNet

O cantor e compositor acreano Sérgio Souto, um dos nomes mais reconhecidos da música e da cultura popular do Estado, publicou uma carta aberta nesta semana criticando o processo de avaliação do Prêmio de Mestres da Cultura Popular do Acre – Edital nº 08/2025, promovido pela Fundação Elias Mansour (FEM). No texto, Souto questiona a transparência do certame e aponta supostas inconsistências nas notas atribuídas pela banca avaliadora.

Ele é um dos artistas mais importantes da música acreana/Foto: Reprodução

Na carta intitulada “A sombra da falta de transparência no Prêmio de Mestres da Cultura Popular do Acre”, o artista afirma que o processo, que deveria ser “luminoso, transparente e justo”, foi marcado por “pareceres obscuros, notas inexplicáveis e escolhas que cheiram mais a apadrinhamento político do que a reconhecimento cultural”.

Souto diz ter recebido nota máxima de dois avaliadores, mas nota mínima de um terceiro, o que teria o retirado da lista dos cinco selecionados. Para ele, a discrepância evidencia fragilidades no sistema de avaliação. “Essa discrepância não é apenas técnica: é um golpe. É a prova de que, no sistema atual, um único parecer pode derrubar décadas de história”, escreveu.

O compositor também questiona a qualificação dos jurados responsáveis pela seleção e cobra que seus nomes e currículos sejam divulgados publicamente. Segundo ele, é essencial que os avaliadores tenham trajetória e autoridade reconhecida na cultura popular. “Se os jurados julgam mestres, eles próprios precisam ser mestres”, enfatiza.

Outro ponto levantado por Souto é a ausência de divulgação oficial dos cinco selecionados. Ele afirma que a falta de publicidade sobre os escolhidos contribui para a percepção de irregularidade. “Se isso não for divulgado, fica tudo muito estranho: sintomático”, alertou.

O artista direciona ainda um apelo à Fundação Elias Mansour e ao presidente da instituição, Minoro Kimpara, pedindo esclarecimentos sobre o processo. “Transparência não é favor: é obrigação”, afirma.

Ao final da carta, Souto diz que sua crítica não tem motivação pessoal, mas se baseia na defesa da credibilidade do prêmio e da valorização dos mestres da cultura popular acreana. “Não se pode brincar com a memória cultural de um povo. O Acre merece mais. A cultura popular merece mais. Os mestres merecem respeito”, conclui.

Leia a carta na íntegra:

A sombra da falta de transparência no Prêmio de Mestres da Cultura Popular do Acre
Por Sérgio Souto – Cantor e compositor acreano

Há momentos em que a arte, em vez de ser celebrada, é submetida a um tribunal invisível, onde os juízes não são mestres, mas aprendizes de ocasião. Foi exatamente isso que se desenhou no Resultado Final da Avaliação Técnica do Edital Prêmio de Mestres da Cultura Popular do Estado do Acre nº 08/2025. Um processo que deveria ser luminoso, transparente e justo, acabou envolto em névoas de pareceres obscuros, notas inexplicáveis e escolhas que cheiram mais a apadrinhamento político do que a reconhecimento cultural.

O que se viu foi a soberania de um sistema de pareceres que não se explica, não se abre, não se mostra. Parecerismo virou palavra-chave: um mecanismo que, em vez de valorizar mestres, parece servir para legitimar decisões arbitrárias. Ora, se os jurados julgam mestres, eles próprios precisam ser mestres. Não se pode aceitar que qualquer pessoa recém-chegada, sem vivência, sem chão de cultura, sem poeira de estrada, se sente à mesa para decidir quem carrega o título de mestre da música e da cultura popular acreana. Queremos saber quem são esses jurados, quais suas obras, seu currículo cultura.

Recebi nota máxima de dois jurados. Dois reconheceram o peso da minha trajetória, o valor da minha obra, o mestrado que a vida me concedeu. Mas o terceiro, como se fosse dono de um poder absoluto, me deu nota mínima. Essa discrepância não é apenas técnica: é um golpe. É a prova de que, no sistema atual, um único parecer pode derrubar décadas de história. Se tivesse me dado dez, eu estaria entre os cinco classificados. Mas não: a caneta de um julgador anônimo decidiu que eu não merecia.

Queremos saber quem os cinco nomes escolhidos. Queremos saber se suas histórias dialogam com a memória coletiva da cultura acreana. Se isso não for divulgado fica tudo muito estranho: sintomático. O Resultado, dessa falta de transparência, é sinal de que o critério não foi a obra, não foi a trajetória, não foi o reconhecimento popular.

Foi outra coisa. Foi política. Foi padrinho. Foi conveniência.

Por isso, cobro da Fundação Elias Mansur, em nome do Sr. Minoru Kinpara, uma resposta clara, pública e urgente. Não se trata de mágoa pessoal. Eu já tenho o meu mestrado na vida, conquistado no palco, nos 46 anos de estrada, na canção. O que está em jogo é a credibilidade de um prêmio que deveria honrar a cultura popular.

Transparência não é favor: é obrigação.

Hoje, os pareceristas são soberanos. Podem dar a nota que quiserem, derrubar quem quiserem, consagrar quem bem entenderem. Isso é sinistro. Isso é perigoso. Isso é a negação da democracia cultural. Um prêmio que deveria ser celebração virou palco de arbitrariedade.
Repito: para julgar mestres, é preciso ser mestre. Não se pode brincar com a memória cultural de um povo. Não se pode transformar o reconhecimento em moeda de troca política. O Acre merece mais. A cultura popular merece mais. Os mestres merecem respeito.

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