A decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Acre, na sexta-feira, não mexe apenas na composição da Câmara de Sena Madureira, ela redesenha o ambiente político da cidade e cria um constrangimento imediato para a oposição. A cassação da chapa do PL abrirá espaço para a chegada de três novos vereadores e, entre eles, está Lia Santiago, do PP, esposa do prefeito Gerlen Diniz.
Lia teve pouco mais de 600 votos em 2024 e, mesmo assim, deve ocupar a cadeira que hoje é da vereadora Ivoneide Bernardino, também cassada. É aí que o desdobramento ganha peso político. Ivoneide recebeu mais de mil votos e é uma das figuras mais queridas no município, especialmente entre eleitores que acompanham de perto a atuação do ex-prefeito Mazinho Serafim, rival histórico de Gerlen.
A substituição gera incômodo porque mexe com uma representação construída com votação expressiva. Além disso, retira da oposição sua voz mais contundente no plenário. E isso acontece num momento em que a Câmara vinha impondo questionamentos e pressões constantes ao prefeito.
O julgamento e a justificativa
Por 4 a 2, o TRE decidiu anular toda a chapa do PL. A corte entendeu que o partido cometeu fraude na cota de gênero. Duas candidatas tiveram apenas 18 votos cada uma e, segundo o Ministério Público Eleitoral, não fizeram campanha de fato. A conclusão é de que elas foram lançadas apenas para cumprir o percentual mínimo de participação feminina exigido por lei.
Com a anulação, perderam os mandatos Tom Cabeleireiro, Ivoneide Bernardino e Antônio Andrade, o Real.
Como fica a nova configuração
Devem assumir as cadeiras:
* Lia Santiago, do PP – BASE DE GERLEN
* Sidney Araújo, do PSD – OPOSIÇÃO
* Fábio Manduca, do Republicanos – BASE DE GERLEN
O impacto é direto na correlação de forças políticas. Se basear nas coligações que disputaram as eleições de 2024, dos três novos nomes, dois passam a integrar a base do prefeito Gerlen. A oposição perde exatamente três cadeiras e vê desaparecer sua principal referência, Ivoneide.
O resultado é simples de interpretar. A vida de Gerlen na Câmara tende a ficar mais leve, com menos enfrentamentos e menor risco de derrotas em votações sensíveis. O discurso crítico que ocupava espaço semanalmente deve perder intensidade, pelo menos até que novas lideranças oposicionistas se reorganizem.
Outro assunto que movimentou a semana: a eleição inédita de juízes e juízas de paz no Acre
Apesar de não ser uma disputa partidária, a primeira eleição para juízes e juízas de paz do Acre, a única do tipo no Brasil, mostrou que a influência política continua determinante mesmo fora do circuito tradicional do poder. O pleito, conduzido pela Justiça Eleitoral, terminou com uma lista de eleitos marcada por vínculos diretos com deputados estaduais, vereadores e lideranças locais.
Na prática, o que se viu foi uma corrida fortemente impulsionada por estruturas políticas já consolidadas. Apoios públicos, articulações de grupos ligados a mandatos e mobilizações regionais acabaram moldando o resultado. A promessa de um espaço mais técnico e independente acabou esbarrando na realidade das relações políticas do estado.
O recado que ficou é simples: mesmo em um processo inovador para o Judiciário, políticos tiveram protagonismo. E a eleição, que poderia abrir margem para uma atuação mais distanciada das disputas partidárias, terminou sinalizando que essa independência pode não ser tão plena quanto se imaginava.
Um exemplo
Em Rio Branco, a influência política também apareceu de forma evidente. Uma das eleitas, Cleide Silva, mantém há anos uma relação próxima com o deputado Fagner Calegário e com o vereador Bruno Moraes, o mais votado da capital nas últimas eleições. A presença desses vínculos evidencia que, mesmo numa escolha destinada ao Judiciário, a força de articulação de figuras já consolidadas na política local pesou diretamente no resultado.
Assembleia monitora impacto da eleição dos juízes de paz
Na Aleac, deputados passaram a analisar com mais cuidado os desdobramentos dessa eleição inédita. O temor de alguns parlamentares é que o modelo, mesmo inovador, crie uma zona nebulosa entre o Judiciário e grupos políticos já estabelecidos. Há quem defenda ajustes na legislação para evitar que a disputa se torne uma extensão das campanhas partidárias.
Mailza sinaliza gestão de continuidade
Ouvi de um integrante do governo que a vice-governadora Mailza Assis deve adotar um caminho de continuidade quando assumir o Palácio Rio Branco em abril do próximo ano. A avaliação interna é de que ela não pretende iniciar a gestão promovendo uma onda de exonerações nem mudanças abruptas.
Segundo a fonte, Mailza terá independência para conduzir o governo com seu próprio estilo, mas carrega gratidão política e administrativa a Gladson e deve preservar o que considera essencial. A ideia é manter equipes e projetos que estejam funcionando bem.
A frase que resume o clima é curta e direta, como ouvi: “Se tiver trabalhando bem vai continuar”.
PT revive clima da antiga Frente Popular no Acre
Na sexta-feira, a visita do presidente nacional do PT, Edinho Silva, reacendeu um sentimento que muita gente já considerava parte do passado recente do Acre. A plenária do partido reuniu nomes históricos da legenda e antigos aliados da Frente Popular, coalizão que governou o estado por 20 anos. Para quem estava lá, a sensação era de reencontro de um grupo que já ocupou o centro da política acreana por duas décadas.
O evento também serviu para bater o martelo sobre um ponto que vinha sendo articulado nos últimos meses: o médico Thor Dantas, do PCdoB, será o candidato ao Governo com apoio do PT. A decisão consolidou a retomada de um diálogo entre partidos que já caminharam juntos e agora tentam reorganizar seu espaço no cenário estadual.

