FeminicĂ­dio: 64% das mulheres mortas no DF sofreram violĂȘncia domĂ©stica

Por MetrĂłpoles 23/12/2025 Ă s 03:02

Mais da metade das mulheres que foram vĂ­timas de feminicĂ­dio no Distrito Federal nos Ășltimos 10 anos jĂĄ tinham sofrido violĂȘncia domĂ©stica antes de morrer. O dado consta no Estudo dos Suspeitos/Autores de FeminicĂ­dio Consumado no DF, elaborado pela Secretaria de Segurança PĂșblica do DF (SSP-DF).

Desde 2015, ano em que a Lei do FeminicĂ­dio entrou em vigor, 226 mulheres foram mortas no DF. 144 delas (64%) sofreram violĂȘncia domĂ©stica antes de serem atacadas de maneira fatal.

Destas 144 vĂ­timas, porĂ©m, apenas 48,1% havia registrado ocorrĂȘncia policial ou depoimento em processo judicial apontando ter sido alvo de violĂȘncia domĂ©stica. Ou seja, 16% das mulheres que foram agredidas em casa e foram mortas em seguida nĂŁo registraram formalmente as agressĂ”es.

Os dados comprovam a subnotificação em casos de violĂȘncia domĂ©stica no DF, o que, para a Secretaria, Ă© “fator crĂ­tico na prevenção do feminicĂ­dio” e ressalta a importĂąncia da denĂșncia contra o agressor.

Ainda segundo a SSP-DF, a ausĂȘncia de registro oficial em casos de violĂȘncia domĂ©stica “nĂŁo deve ser interpretada como ausĂȘncia de risco” e exige dos ĂłrgĂŁos de proteção “uma atuação sensĂ­vel e atenta a relatos informais e sinais indiretos de agressĂ”es”.

“A anĂĄlise do histĂłrico de violĂȘncia domĂ©stica evidencia que, embora uma parcela expressiva das vĂ­timas nĂŁo possua registros formais anteriores, 48,1% apresentavam histĂłrico de agressĂ”es, identificado por meio de registro de ocorrĂȘncia, depoimentos e elementos constantes em peças processuais. Quando consideradas tambĂ©m as vĂ­timas que relatam episĂłdios prĂ©vios de violĂȘncia, ainda que sem formalização, esse percentual se eleva para 64%, apontando a subnotificação como um fator crĂ­tico na prevenção do feminicĂ­dio”, diz o levantamento.

O estudo compreende o período entre março de 2015 e agosto de 2025.

36% dos assassinos fizeram uso de droga

O mesmo compilado da SSP-DF aponta que 220 homens foram indicados como autores de feminicĂ­dio no DF nos Ășltimos 10 anos. Do total, pelo menos 36,4% estavam sob efeito de substĂąncias ilĂ­citas no momento do crime.

Entre os autores, 31,4% declararam fazer uso de ålcool no momento do crime, enquanto 36,4% relataram o uso de drogas ilícitas. Dentre os autores que haviam informaçÔes sobre o uso de entorpecentes, destaca-se a cocaína (54%) e a maconha (38%).

O delegado Marcelo Zago Ferreira, coordenador da cùmara técnica de monitoramento de homicídios e feminicídios da SSP-DF, aponta que também hå subnotificação neste recorte de uso de drogas e ålcool. Isso porque nem sempre é possível confirmar, ao longo da investigação, se o agressor havia consumido alguma das substùncias.

“A gente parte de um nĂșmero mĂ­nimo. No estudo, no mĂ­nimo 31% estavam sob efeito de ĂĄlcool e no mĂ­nimo 38% sob efeito de drogas. Mas esse percentual pode ser maior, porque muitas vezes essa informação nĂŁo Ă© coletada em nenhuma fase do processo”, explica Ferreira. “NĂŁo Ă© sempre que o suspeito Ă© submetido a perĂ­cia. Às vezes, a identificação do uso Ă© simples, quando hĂĄ embriaguez evidente. Em outros casos, nĂŁo.”

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Casos de feminicĂ­dio

O Distrito Federal chegou a trĂĄgica marca de 26 feminicĂ­dios registrados em 2025. O nĂșmero de crimes jĂĄ ultrapassa a quantidade de casos ocorridos na capital do paĂ­s durante todo o ano passado, quando 22 mulheres tiveram as vidas interrompidas em decorrĂȘncia da violĂȘncia de gĂȘnero.

Os dados fazem parte do Painel de FeminicĂ­dios, alimentado pela SSP-DF. AtĂ© a Ășltima atualização, de 19 de dezembro, do total de feminicĂ­dios registrados em 2025, 22 casos foram confirmados, enquanto quatro mortes ainda estĂŁo sob anĂĄlise e podem ter a tipificação alterada.

O caso mais recente foi registrado em 5 de dezembro, dentro do 1° Regimento de Cavalaria de Guardas, no Setor Militar Urbano (SMU), em um quartel do Exército Brasileiro. A vítima é a cabo Maria de Lourdes Freire Matos, 25 anos.

Maria de Lourdes foi morta a facadas pelo entĂŁo soldado Kelvin Barros da Silva, 21, que provocou um incĂȘndio na sala onde a vĂ­tima foi morta e fugiu em seguida. Ele foi capturado horas depois, em casa, e estĂĄ preso preventivamente desde entĂŁo.

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