Marco Temporal aprovado no Senado ameaça demarcação de 35 terras indígenas no Acre

No Acre, onde vivem cerca de 23 mil indígenas de diversos povos, as 35 terras indígenas já reconhecidas ficam vulneráveis

O Senado Federal aprovou, nesta terça-feira (9), a Proposta de Emenda Constitucional que institui o chamado Marco Temporal para demarcações de terras indígenas. A medida determina que só terão direito à demarcação os povos que comprovarem presença em seus territórios exatamente em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. O texto segue para análise da Câmara dos Deputados.

Marco Temporal aprovado no Senado ameaça demarcação de 35 terras indígenas no Acre. Foto: Marcos Vicentti/Secom

O Marco Temporal também permite revisar áreas já homologadas, abrindo brecha para que territórios consolidados há décadas sejam contestados judicialmente. Para organizações indigenistas, a mudança representa o maior risco já imposto às demarcações desde a redemocratização.

No Acre, onde vivem cerca de 23 mil indígenas de diversos povos, as 35 terras indígenas já reconhecidas ficam vulneráveis. Muitas possuem histórico de expulsões, deslocamentos forçados ou presença de povos isolados — situações em que a comprovação documental de 1988 simplesmente não existe.

Avanço recente no Acre também está ameaçado

Apesar da ofensiva no Congresso, o Acre teve um avanço importante no último dia 18 de novembro: a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) aprovou os estudos de identificação e delimitação da Terra Indígena Riozinho do Iaco.

No mesmo dia, a Funai criou sete Grupos Técnicos (GTs) responsáveis por elaborar estudos de identificação e delimitação da Terra Indígena Chandless, também no Acre.

Essas iniciativas podem ser diretamente impactadas pelo Marco Temporal caso o texto seja confirmado pela Câmara.

Datas de homologação das terras indígenas do Acre

A seguir, a lista completa das terras indígenas do estado e as datas em que foram homologadas oficialmente:

  1. Alto Rio Purus – homologada em 1992

  2. Arara do Igarapé Humaitá – 1991

  3. Arara do Rio Amônia – 1991

  4. Ashaninka do Rio Amônia – 1992

  5. Baixo Rio Jordão – 1992

  6. Cabeceira do Rio Acre – 1991

  7. Colônia 27 – 1998

  8. Colônia 31 – 1998

  9. Gregório – 1996

  10. Igarapé do Caucho – 2012

  11. Jaminawa Arara do Rio Bagé – 1996

  12. Jaminawa do Alto Rio Purus – 1992

  13. Kampa do Igarapé Primavera – 1992

  14. Kampa do Rio Amônia – 1992

  15. Kaxinawá da Praia do Carapanã – 1991

  16. Kaxinawá de Nova Olinda – 1991

  17. Kaxinawá do Igarapé do Caucho – 1991

  18. Kaxinawá do Rio Humaitá – 1991

  19. Kaxinawá do Rio Jordão – 1991

  20. Kaxinawá do Rio Muru – 1991

  21. Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu – 1992

  22. Katukina Kaxinawá – 1992

  23. Nukini do Rio Moa – 1991

  24. Poyanawa – 2008

  25. Riozinho do Alto Envira – 1997

  26. Seringal Guanabara – 1991

  27. Terra Indígena Alves de Barros – 1991

  28. Terra Indígena Mamoadate – 1993

  29. Terra Indígena Murunawa – 1992

  30. Terra Indígena Riozinho do Andirá – 1998

  31. Terra Indígena São Paulino – 1991

  32. Terra Indígena Kulina do Rio Envira – 1997

  33. Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira – 1992

  34. Terra Indígena Kulina do Igarapé do Pau – 1997

  35. Terra Indígena Jaminawa do Envira – 1997

O que muda com o Marco Temporal

• exige comprovação de presença indígena no local em 5 de outubro de 1988;
• permite revisão de demarcações já concluídas;
• fragiliza áreas onde povos foram expulsos antes da Constituinte;
• ameaça territórios com povos isolados;
• pode travar processos de ampliação e reconhecimento, como Riozinho do Iaco e Chandless.

Com a aprovação no Senado e o encaminhamento à Câmara, lideranças indígenas alertam que o Acre pode viver uma onda de judicializações e revisões territoriais sem precedentes.

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