A história de Xapuri, marcada por ciclos econômicos, estagnação e recentes mudanças estruturais, serviu de inspiração para a música New Xapuri, composta pelo advogado Gilson Pescador. A obra utiliza referências históricas, lendas locais e acontecimentos recentes para retratar a relação da cidade com o próprio passado e com o momento atual.
A música resgata a memória da cidade/Foto: Reprodução
“Xapuri era conhecida como a Princesinha do Acre, nos áureos tempos do extrativismo da castanha e da borracha”, afirma Gilson Pescador. Segundo ele, naquele período, “navios chegavam com produtos importados da Europa, e mulheres e homens se trajavam elegantemente, com chapéus chiques, para irem ao cinema”. Ao mesmo tempo, ressalta que “no fundo da floresta, o seringueiro continuava sob o jugo do seringalista”.
O compositor destaca que o cenário começou a mudar a partir do início dos anos 70. “Com a queda do extrativismo e o início da atividade predatória da pecuária, Xapuri não só estagnou econômica e socialmente, como andou para trás”, relata. Para ele, “aquela que era princesa se tornou quase um pária”, com a presença do poder público restrita a períodos eleitorais.
Gilson Pescador afirma que, ao longo de aproximadamente quatro décadas, o desânimo passou a fazer parte do cotidiano da população. “O pessimismo, o desânimo e a reclamação foram se tornando traços do DNA do povo”, diz. Entre as principais cobranças históricas, ele cita “a construção da ponte da Sibéria” e “o asfaltamento da Variante”, obras consideradas fundamentais para a integração da cidade e o escoamento da produção rural.
De acordo com o advogado, a conclusão dessas obras no final de 2025 marcou uma virada simbólica. “Após 40 anos de espera e decadência, ambos os pleitos se tornaram realidade”, afirma. Ele avalia que as intervenções “melhoraram a acessibilidade, o transporte e o deslocamento de pessoas e mercadorias”, mas destaca que o principal impacto foi emocional. “O mais importante foi a recuperação do moral e da autoestima dos xapurienses”, pontua.
A música também aborda a lenda da “cabeça de burro”, associada ao atraso do município. “Dizia-se que, enquanto não se arrancasse a cabeça de burro enterrada, Xapuri não iria para frente”, conta Gilson Pescador. Para ele, o simbolismo está na execução das obras. “Ao se cavar os buracos para os pilares da ponte da Sibéria e da Estrada da Variante, diversas cabeças de burro foram ‘arrancadas’ e a praga deixou de existir”, afirma.
Outro elemento presente em New Xapuri é a origem do nome da cidade. “Chapury é uma palavra indígena que significa ‘o rio que vem antes’”, explica. Ele lembra a lenda segundo a qual “houve uma grande tempestade que fez surgir outro rio, o Aquiry, de águas amarelas”, enquanto “o rio Xapuri já existia antes do temporal”.
Gilson Pescador ressalta que “a letra e o gênero, samba-rap, são meus”. A parte cantada, segundo ele, “foi feita por inteligência artificial”, com voz desenvolvida por Victor Rendon Hidalgo, também do Acre.
