Um novo decreto da Igreja Católica atualiza as orientações sobre a vivência da sexualidade dentro do casamento para os 1,4 bilhão de fiéis no mundo. A diretriz, aprovada pelo papa Leão XIV e assinada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, afirma que o sexo no matrimônio não se restringe à procriação, mas deve ser expressão da união afetiva e exclusiva entre homem e mulher.
Publicado no site oficial do Vaticano, o texto defende que a relação sexual tem finalidade unitiva e afetiva, ajudando a fortalecer o vínculo conjugal e o sentimento de pertencimento mútuo. A monogamia, segundo o documento, garante que a sexualidade se desenvolva com reconhecimento e respeito pelo outro — não como um objeto de uso.
A nota doutrinal foi motivada pelo avanço da poligamia em alguns países africanos, inclusive entre católicos, região que hoje apresenta o maior crescimento da igreja. Para o Vaticano, preservar a monogamia é essencial para manter a coerência da vida conjugal e o significado cristão do matrimônio.
Elisabetta Trevisan – Vatican Media via Vatican Pool/Getty Images
Caridade conjugal e sexualidade como vínculo afetivo
O decreto aprofunda a noção de caridade conjugal, descrevendo-a como um amor que ultrapassa sentimentos e desejos, criando um “vínculo afetivo profundo” entre os cônjuges.
Nesse sentido, a sexualidade não é vista apenas como ato físico ou reprodutivo, mas como manifestação concreta dessa união afetiva e espiritual.
“Na medida em que quem ama considera a pessoa amada como uma só consigo”, afirma o texto ao explicar o fundamento espiritual da caridade entre marido e mulher.
Alerta contra a “busca excessiva por sexo”
O documento também faz críticas ao que chama de “individualismo consumista pós-moderno”, afirmando que a busca descontrolada por prazer sexual tem gerado:
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perda do sentido unitivo do sexo;
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negação da abertura à vida;
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diminuição da troca emocional dentro do casamento.
Segundo o Vaticano, a ansiedade contemporânea por liberdade, viagens e experiências imediatas tem diminuído o desejo de diálogo, cooperação e intimidade emocional entre os cônjuges.
Procriação: aberta à vida, mas não obrigatória em cada ato
O decreto reforça a doutrina clássica da Igreja: o matrimônio deve ser aberto à fecundidade, mas reconhece que nem toda relação sexual precisa ter como objetivo direto a procriação.
O texto aborda três situações específicas:
1. Casais biologicamente impedidos de ter filhos
Continua existindo verdadeira união e plenitude conjugal, mesmo quando a gravidez não é possível.
2. Relações sexuais sem intenção reprodutiva
Desde que exista abertura à vida no conjunto da relação conjugal, não há conflito com a doutrina.
3. Uso dos períodos naturais de infertilidade
Considerado legítimo tanto para planejamento familiar quanto para fortalecer afeto e fidelidade.
Essa visão resgata reflexões que já existiam na tradição católica, mas agora ganham maior destaque, sendo complementadas por citações de autores como Pablo Neruda, Eugenio Montale e referências filosóficas a Kierkegaard.
Um contraste com orientações antigas
O decreto marca uma mudança de tom em relação a ensinamentos mais rígidos dos séculos XVI e XVII, quando a Igreja defendia maior contenção sexual mesmo entre casados.
Agora, a ênfase está em integrar corpo, afeto, espiritualidade e responsabilidade conjugal.
Fonte: Vatican News / Documento oficial – Dicastério para a Doutrina da Fé / Metrópoles
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