O que fizeram com a imprensa na Câmara é a prova de que a democracia está em frangalhos

Artigo de opinião do jornalista Everton Damasceno, do site ContilNet

Não é de hoje que o trabalho da imprensa tem sido atacado, e as agressões contra jornalistas em todo o Brasil e no mundo não começaram ontem, é claro. Por essas terras, o ataque aos profissionais que são o olho vivo e crítico da sociedade civil dentro das assembleias legislativas, câmaras e tribunais tem sido cada vez mais frequente, por motivos que conhecemos bem e que não são de caráter republicano.

A ministra do STF, Carmem Lúcia, disse no ano passado, durante um evento sobre as eleições no Brasil, que “não se constrói uma democracia sem a imprensa livre”. Constatação irretocável. Vou além: toda democracia que limita o trabalho da imprensa é uma mentira.

Na noite desta terça-feira (9), jornalistas e cinegrafistas que faziam a cobertura de mais uma sessão na Câmara dos Deputados foram agredidos fisicamente por agentes da Depol (Departamento de Polícia Legislativa).

Jornalistas foram agredidos por agentes da Depol/Foto: Reprodução

A repórter Carolina Nogueira, do UOL, e a colunista Ana Flor, da Globo News, foram duas das vítimas desse ataque violento e truculento, autorizado pelo presidente da casa, deputado Hugo Motta (Republicanos). Tudo aconteceu enquanto a Depol fazia a retirada do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) da cadeira da presidência da Casa.

Glauber foi forçado a sair do plenário pela Polícia Legislativa. O espaço já estava fechado para a imprensa quando a confusão começou. Apenas parlamentares estavam presentes e faziam lives, já que a transmissão ao vivo pela TV Câmara havia sido cortada.

“Os jornalistas aguardavam fora do plenário, onde haviam sido avisados de que haveria um pronunciamento do parlamentar. Um agente da Polícia Legislativa disse que não seria ali a coletiva e que a imprensa precisava ir para trás, para dar lugar para o deputado passar e ir para outro salão. Ele disse aos jornalistas que eles ‘vão ter sim de recuar’ e começou a empurrar, com violência”, escreveu o site UOL sobre o episódio.

“Outros repórteres também foram tratados pelos agentes a empurrões e puxões de cabelo para afastar os jornalistas de uma área repleta de profissionais, onde o parlamentar falaria com a imprensa”, acrescentou o portal.

Tal atitude não é um pormenor ou uma amenidade, mas a clara evidência de que a democracia no Brasil está aos frangalhos, de que o Congresso Nacional não faz qualquer esforço para preservá-la e luta, apenas, em sua maioria, pelos próprios interesses.

Negar aos jornalistas o acesso ao espaço que é público – e agredi-los, portanto – não é apenas um ataque à imprensa em geral, mas uma mensagem vergonhosa e até perversa da própria Câmara ao povo brasileiro: “Não queremos que vejam o que fazemos”.

Goste você ou não do trabalho realizado por jornalistas sérios e competentes, é importante lembrar que não há país sério e comprometido com o desenvolvimento se ele estiver de mãos dadas com o obscurantismo.

É preciso tomar cuidado para não deixar que isso passe desapercebido, porque evitar olhar para esse trágico episódio da história do Brasil é, de alguma forma, alimentar o monstro que, a qualquer momento, pode se voltar contra a gente. Brecht já nos avisava: “A cadela do totalitarismo está sempre no cio”.

Que Hugo Motta se envergonhe e se repense. Que a classe política faça o mesmo e que o povo brasileiro, o verdadeiro titular do poder, não esqueça de que a democracia – parafraseando a ministra Carmem Lúcia – é uma rosa que a gente precisa cuidar a vida inteira para evitar que as ervas daninhas a destruam sem que a gente perceba.

Aos colegas da imprensa – principalmente os que foram agredidos de forma tão cruel: estamos juntos e não desistiremos.

PUBLICIDADE