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O que o Congresso Nacional aprovou enquanto você cortava e jogava Havaianas no lixo

Por Matheus Melo, ContilNet

Enquanto a internet fervia com vídeos de gente cortando chinelo e fazendo boicote performático, o Congresso Nacional seguia trabalhando. Em silêncio, longe do algoritmo e sem gerar engajamento emocional. A polêmica em torno de uma propaganda da Havaianas com Fernanda Torres virou combustível para a indignação seletiva da direita bolsonarista, que transformou uma peça publicitária em batalha ideológica. Foi barulhento, foi raso e foi inútil.

Câmara dos deputados/Foto: Reprodução

Porque, fora da bolha, decisões bem mais concretas estavam sendo tomadas. Decisões que mexem diretamente com orçamento público, políticas sociais, educação e com o próprio sistema político.

Levantamento do portal Rede Brasil Justo mostra o tamanho do contraste entre o que virou manchete nas redes e o que passou quase despercebido na vida real.

O Congresso aprovou um corte de R$ 488 milhões nas universidades federais. O impacto não é abstrato. Afeta bolsas estudantis, contas básicas como água e energia, pesquisas, manutenção de laboratórios e compra de equipamentos. A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior alerta para um cenário crítico, com risco real à permanência de estudantes e ao funcionamento das instituições.

No mesmo pacote, os parlamentares ampliaram o fundo eleitoral de R$ 1 bilhão para R$ 4,9 bilhões. O dinheiro do Fundo Especial de Financiamento de Campanha é usado por partidos em propaganda, logística e despesas eleitorais. Ou seja, menos recursos para políticas públicas e mais dinheiro para campanha.

O Orçamento de 2026, aprovado em 19 de dezembro de 2025, também trouxe cortes em programas sociais. Farmácia Popular, Pé-de-Meia, seguro-desemprego, auxílio gás, bolsas de pesquisa e até recursos ligados à Previdência entraram na conta. Tudo isso para acomodar um aumento histórico nas emendas parlamentares, aquele dinheiro que garante poder político local e fidelidade no plenário.

Como se não bastasse, o Congresso aprovou um projeto prevendo o aumento do número de deputados federais, de 513 para 531. A ampliação acabou barrada temporariamente pelo Supremo Tribunal Federal, que manteve o número atual para as eleições de 2026 e empurrou qualquer mudança para 2030. Ainda assim, a intenção ficou clara.

E enquanto isso tudo acontecia, um projeto que interessa diretamente à vida do trabalhador, o que acaba com a escala 6×1, simplesmente não entrou em votação.

Nada disso gerou mutirão, vídeo viral ou boicote em shopping. Não teve chinelo cortado, nem discurso inflamado sobre moral e costumes. Porque discutir propaganda é fácil, não exige leitura, não exige compreensão de orçamento público e não exige enfrentar contradições.

O problema nunca foi a Havaianas. O problema é o quanto se deixa passar quando a indignação é guiada por barulho, não por conteúdo.

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