Por que recomendo Pluribus a vocĂȘ e seu terapeuta durante as fĂ©rias

Por MetrĂłpoles 23/12/2025

A pessoa mais triste da Terra deve salvar o mundo dos perigos da felicidade.

É com essa frase que Pluribus se apresenta em sua sinopse na Apple TV. A sĂ©rie de ficção cientĂ­fica, que se tornou a mais vista da plataforma, chega ao seu Ășltimo episĂłdio nesta quarta-feira (24/12). O recesso dos psicĂłlogos, para alguns, representa um perigo iminente – tema que acabou se transformando em meme recorrente na internet. E, se eu puder fazer uma sugestĂŁo de fim de ano, Pluribus parece-me uma Ăłtima indicação para vocĂȘ e para o seu terapeuta durante esse perĂ­odo.

Na trama, a humanidade recebe um cĂłdigo que, apĂłs ser decifrado por um grupo de cientistas, revela-se como o cĂłdigo genĂ©tico de um vĂ­rus. NĂŁo tarda para que ele seja reproduzido em laboratĂłrio e, ao sair de controle, espalhe-se rapidamente por todo o planeta, restando apenas cerca de uma dĂșzia de pessoas imunes Ă  contaminação.

Esse “vĂ­rus” transforma radicalmente a subjetividade de seu hospedeiro: as pessoas passam a experimentar apenas afetos ligados Ă  felicidade, Ă  empatia e Ă  bondade. Deixam de se perceber como indivĂ­duos e passam a se entender como um grande “nĂłs”. Trata-se de uma coletividade que, apesar de sua aparente pluralidade – pluribus, do latim plures, “muitos” –, nĂŁo comporta diferença alguma. Todos sĂŁo iguais, compartilham valores, crenças e modos de pensar, movendo-se de forma homogĂȘnea, como as operĂĄrias de uma colmeia.

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Nesse contexto, uma criança de sete anos, por exemplo, pode deter todo o conhecimento compartilhado pela humanidade: fala e compreende todas as lĂ­nguas, pilota um aviĂŁo ou realiza procedimentos cirĂșrgicos com precisĂŁo – tal como encontramos nas inteligĂȘncias artificiais.

Essa nova forma de vida veiculada pelo vĂ­rus porta uma subjetividade que remete ao que Freud nomeou como psicologia das massas. A massa Ă© capaz de anular as singularidades individuais e permitir que os sujeitos realizem atos que, isoladamente, nĂŁo realizariam, seja para o bem ou para o mal. Um exemplo clĂĄssico Ă© o das torcidas organizadas de futebol, capazes de veicular intensas paixĂ”es coletivas, mas tambĂ©m de produzir violĂȘncias extremas.

Na primeira interação da protagonista, Carol – uma escritora imune Ă  contaminação –, com esse coletivo, ela pergunta: “O que vocĂȘs querem?”. A resposta vem em unĂ­ssono, de forma inquietante: “NĂłs queremos ajudar”.

A princĂ­pio, o objetivo do grupo nĂŁo parece ameaçador. Pelo contrĂĄrio: trata-se de servir irrestritamente aos imunes, satisfazendo todos os seus desejos. Eles se comportam como uma inteligĂȘncia artificial: atentos, cuidadosos, sempre disponĂ­veis, reforçando as potencialidades do outro. HĂĄ ali uma clara tendĂȘncia Ă  servidĂŁo voluntĂĄria – estĂŁo prontos para servir e obedecer ao desejo do Outro.

Um cafĂ© da manhĂŁ perfeito, uma viagem de primeira classe, sexo com qualquer pessoa ou atĂ© uma arma: tudo o que se pede Ă© concedido. Pode parecer o melhor dos mundos – ter Ă  disposição nĂŁo apenas um gĂȘnio da lĂąmpada, mas toda a humanidade disposta a realizar seus desejos. No entanto, sabemos o quĂŁo corrosiva pode ser a dinĂąmica em que tudo o que pertence ao enigma do desejo Ă© transformado em demanda a ser imediatamente satisfeita.

Pluribus, série sci-fi da Apple TV do mesmo criador de Breaking BadPluribus, série sci-fi da Apple TV do mesmo criador de Breaking Bad

Não tarda para que algo intrigante se revele. Quando Carol manifesta ódio, raiva ou luto diante de um membro do coletivo, esse afeto se propaga globalmente: sujeitos em todo o mundo entram em convulsão, e milhares morrem. O efeito é devastador. A protagonista passa a ser tomada por uma culpa insuportåvel, que a impede até mesmo de sustentar seu ódio diante daqueles que afirmam querer apenas ajudå-la.

Outra caracterĂ­stica desse coletivo Ă© a ausĂȘncia de um lĂ­der visĂ­vel. Trata-se de uma massa aparentemente horizontal, em que a autoridade se dissolve em decisĂ”es sempre justificadas em nome do bem comum. NĂŁo por acaso, essas decisĂ”es se apoiam em pautas urgentes de nosso tempo – controle ambiental, fome, igualdade, paz global. Mas sabemos que quanto mais invisĂ­vel Ă© a autoridade, mais cruel ela pode se tornar. Como na conhecida fĂłrmula parental: “VocĂȘ pode escolher nĂŁo ir, meu filho, mas sua avĂł, coitada, ficarĂĄ muito triste se vocĂȘ nĂŁo for”.

Aqui, o Ăłdio se dissolve em culpa, a autoridade nĂŁo se apresenta como tal, e os atos sĂŁo sempre justificados em nome do Bem. NĂŁo parece haver saĂ­da.

Ao se colocar contra esse movimento de massa e lutar para reaver Ă queles seres sua dignidade, singularidade e direito Ă  diferença, Carol acaba se tornando, paradoxalmente, a figura do inumano por excelĂȘncia.

Agora, afinal, por que essa é uma boa recomendação de série para o meu terapeuta?

Quando buscamos terapia, muitas vezes acreditamos que o terapeuta serĂĄ aquele que nos ajudarĂĄ a realizar nossos desejos. Essa expectativa nĂŁo Ă© mais ficção cientĂ­fica: cada vez mais pessoas recorrem Ă  inteligĂȘncia artificial como suporte terapĂȘutico, acreditando que ela lhes fornecerĂĄ o saber necessĂĄrio para alcançar felicidade, qualidade de vida ou bem-estar.

Essa concepção nĂŁo Ă© exclusiva dos pacientes. Muitos terapeutas ainda operam a partir da ideia de que o objetivo do tratamento Ă© eliminar sintomas e conduzir o sujeito em direção a um desejo claramente localizĂĄvel. Freud, mĂ©dico de formação, compartilhou inicialmente desse ideal terapĂȘutico.

No inĂ­cio de sua prĂĄtica, utilizou a sugestĂŁo hipnĂłtica para fazer cessar sintomas histĂ©ricos, fobias e obsessĂ”es. No entanto, esse mĂ©todo produziu um efeito inesperado: quanto mais os sintomas eram suprimidos, mais novos sintomas surgiam, acompanhados de uma crescente dependĂȘncia do paciente em relação ao mĂ©dico.

É a partir do impasse dessa relação que Freud começa a se interrogar sobre a dependĂȘncia, obediĂȘncia e a tendĂȘncia Ă  servidĂŁo que atravessam os vĂ­nculos humanos. Ao abandonar a hipnose, ele reconhece que jĂĄ estamos, de algum modo, hipnotizados – e Ă© dessa constatação que nasce a psicanĂĄlise.

A psicanĂĄlise nĂŁo se propĂ”e apenas a aliviar sintomas, mas a tratar formas de vĂ­nculo adoecedoras. Trata-se de uma Ă©tica que visa desarticular o nĂșcleo de servidĂŁo voluntĂĄria que habita todos nĂłs, permitindo a queda das idealizaçÔes, a travessia da fantasia, a destituição do narcisismo e, por fim, da prĂłpria transferĂȘncia.

Em outras palavras, uma anålise busca uma posição subjetiva em que não sejamos inteiramente governados pelo desejo do Outro, pela lógica da massa ou pelo gozo de nossas compulsÔes.

Esse processo de desilusĂŁo pode, sim, atravessar momentos de depressĂŁo. NĂŁo Ă© por acaso que encontramos essa forma de vida em Carol, uma escritora inventora de mundos. Lacan confiava nos sujeitos deprimidos – acreditava que, de algum modo, eles estavam mais prĂłximos de uma verdade Ă  qual a anĂĄlise pode conduzir.

Pluribus, série sci-fi da Apple TV do mesmo criador de Breaking BadPluribus, série sci-fi da Apple TV do mesmo criador de Breaking Bad

Na nosografia psiquiĂĄtrica contemporĂąnea, a depressĂŁo aparece dissociada da antiga tradição que compreendia a melancolia como uma forma singular de existĂȘncia, ligada Ă  criação e Ă  invenção. Ao ser reduzida a um transtorno do humor, descrito por critĂ©rios funcionais e deficitĂĄrios, a depressĂŁo perde seu vĂ­nculo histĂłrico com a experiĂȘncia dos extremos e com a capacidade de tornar-se outro.

Diante disso, cabe perguntar: o objetivo de uma terapia é conduzir o sujeito da depressão à felicidade? Ou pode ela servir como um espaço em que essa tristeza, esse mal-humor e essa espirituosidade corrosiva, características de Carol, tornem o sujeito capaz de sustentar seu desejo, mesmo que isso implique riscos?

Isso nĂŁo Ă© um elogio a uma vivĂȘncia cega do desejo. A sĂ©rie mostra personagens que, sob o manto da ajuda e da felicidade, autorizam-se a violĂȘncias extremas, como o abuso sexual. Carol, ao se negar a esse tipo de satisfação, nesse contexto, torna-se uma figura de exceção. Tal como AntĂ­gona, vemos em outra cena a protagonista tentando enterrar uma pessoa amada. Diferentemente da heroĂ­na trĂĄgica, que recusa todo tipo de ajuda, porĂ©m, ela cede ao auxĂ­lio do coletivo – e o gesto fĂșnebre, embora “empaticamente” permitido, se mostra ainda mais tirĂąnico, Ă© esvaziado de sua dimensĂŁo simbĂłlica, reduzido a um funcionalismo sem humanidade: a ajuda oferecida Ă© a de um trator que abre uma vala.

Por isso, acredito que Pluribus seja uma boa indicação aos terapeutas. Que as férias sejam um tempo para interrogarmos o que oferecemos quando oferecemos ajuda: reforçamos a lógica da massa, dissolvendo diferenças e transformando o desejo em demanda? Ou sustentamos uma direção que confronte o desamparo humano, permitindo que o sujeito não espere mais por uma satisfação vinda do Outro, mas encontre um desejo capaz de reformular seus laços e sustentar aquilo que nele é incuråvel?

Talvez, em vez de nos curar para compartilhar da felicidade da massa, a infelicidade ordinĂĄria prometida por Freud ainda seja um bom caminho.

  • Guilherme Freitas Henderson Ă© psicanalista, doutor e mestre em Psicologia ClĂ­nica e Cultura na Universidade de BrasĂ­lia (UnB). Graduado em Psicologia pela mesma universidade, com perĂ­odo sanduĂ­che na Universidad de la RepĂșblica – Udelar (Uruguay). Guilherme Ă© supervisor de estĂĄgio em clĂ­nica psicanalĂ­tica (Cenfor-CEUB) e professor da pĂłs-graduação Fundamentos da PsicanĂĄlise: Teoria e ClĂ­nica (Instituto ESPE). O psicanalista atende adolescentes e adultos e Ă© membro da Associação Lacaniana de BrasĂ­lia.

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