A pequena Thalia, de 7 anos, pegou o lápis para escrever sua cartinha de Natal ao Papai Noel, o primeiro pedido não foi para si. Antes de falar sobre a boneca bebê reborn que gostaria de ganhar, ela fez um apelo pelo irmão Adrian, de 12 anos: uma cadeira de rodas automática. O menino ficou paraplégico após ser atingido por uma bala perdida aos dois anos, em Salvador, na Bahia.
“Eu amo muito ele e quero fazer ele feliz”, escreveu Thalia. A carta integra a tradicional campanha de Natal dos Correios, que permite que qualquer pessoa adote pedidos feitos por crianças em situação de vulnerabilidade.

Carta que Thalia, 7 anos, escreveu para o Papai Noel. — Foto: Arquivo pessoal
A mãe das crianças, Natalie Souza Guimarães, conta que a tragédia aconteceu no bairro de São Cristóvão, em Salvador, quando o filho estava com o pai durante a execução de um homem na rua. A bala atravessou a medula do menino e mudou definitivamente o futuro da família. Hoje, eles vivem em Lauro de Freitas, na região metropolitana da capital baiana, município que segue entre os mais violentos do estado, segundo dados do Atlas da Violência.
No cotidiano, Adrian e Thalia reinventam as brincadeiras. “Ele joga bola sentado, usa as mãos, e ela fica ao lado. É assim que se divertem”, relata Natalie. A cadeira de rodas elétrica, sonho do menino, está fora da realidade financeira da família.
A realidade de medo também aparece em cartas escritas por crianças de comunidades do Rio de Janeiro. Pietro e Gabriel, ambos de 6 anos, pediram brinquedos que pudessem lhes trazer conforto durante os tiroteios que escutam com frequência. Incapazes de escrever, tiveram seus pedidos registrados pela professora. “Quero um dinossauro, porque tenho medo quando dá tiro na minha rua”, escreveu Pietro. Gabriel pediu um urso para dormir junto e se sentir protegido enquanto se esconde no chão durante os confrontos armados.
O impacto da violência na infância não se limita ao presente. Gabriela David Correia da Silva, hoje com 23 anos, perdeu o pai aos 19 anos em uma ação policial no Morro do Borel, no Rio, em 2003. Tinha apenas um ano. Estudante de pedagogia, ela afirma que cresceu sentindo a ausência e o peso da violência. “A infância na periferia é encurtada. Pequenas dores viram gigantes quando não há proteção”, afirma.
Especialistas alertam que a exposição constante à violência compromete o desenvolvimento psicossocial das crianças. Para a educadora popular Victoria Lidiana, do Coletivo OCICLO, territórios historicamente marcados por operações policiais e desigualdade limitam o direito a uma infância plena. Já Ana Claudia Cifali, do Instituto Alana, defende que políticas de segurança pública precisam priorizar a proteção de crianças e adolescentes, evitando operações em áreas com grande circulação de pessoas.
Segundo Eduardo Ribeiro, da Rede de Observatórios de Segurança, os pedidos feitos nas cartinhas escancaram uma falha estrutural do Estado. “Quando uma criança pede proteção como presente, fica evidente que o básico não está sendo garantido”, diz.
Entre tantos relatos de dor, algumas cartas também expressam esperança. Murilo Sabecca Mainardi, de 10 anos, de Rio Claro (SP), pediu um tênis de corrida para treinar atletismo e fez um desejo adicional: paz para o mundo. Um pedido simples, mas carregado de significado em um país onde a segurança pública segue como a maior preocupação da população, segundo pesquisa Quaest recente.