Rio Branco convive historicamente com as cheias do Rio Acre, fenômeno que exige respostas contínuas do poder público. Entre 2006 e 2025, a atuação da Defesa Civil municipal e estadual passou por um processo gradual de fortalecimento, marcado por grandes enchentes, aprimoramento institucional e evolução dos instrumentos de planejamento. Esse percurso culmina, em 2025, com a apresentação de planos de contingência mais completos, tanto no âmbito municipal quanto estadual.
A partir de 2006: primeiros diagnósticos e a centralidade da resposta emergencial
Um estudo acadêmico produzido em 2006, que analisou a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (COMDEC) de Rio Branco até aquele ano, indicava que a atuação naquele período estava fortemente voltada à resposta imediata aos desastres, porém de maneira reativa. As ações priorizavam retirada de famílias, organização de abrigos e assistência humanitária, práticas essenciais diante da recorrência das cheias.
Grandes cheias impulsionaram evolução institucional e planejamento público/Foto: Reprodução
O levantamento também apontava desafios estruturais comuns à época, como limitações de pessoal, orçamento e ausência de planos permanentes. Esse diagnóstico inicial se tornou referência para compreender a necessidade de evolução gradual da política de proteção e defesa civil no município e no estado.
2012: cheia significativa e aprimoramento da resposta operacional
Em 2012, o Rio Acre voltou a ultrapassar a cota de transbordamento, atingindo áreas ribeirinhas e bairros urbanos. A Defesa Civil municipal e estadual atuaram de forma integrada, com monitoramento do nível do rio, retirada preventiva de famílias em áreas mais vulneráveis e organização de abrigos temporários.
Cheia do Rio Acre em 2012/Foto: Sérgio Vale
Mesmo com foco predominante na resposta, o episódio contribuiu para o aprimoramento da logística, da articulação interinstitucional e da experiência operacional das equipes.
2013: primeiros registros formais de planejamento integrado
O ano de 2013 marca um avanço importante com a consolidação de um plano operacional estadual, considerado um dos primeiros registros formais de medidas integradas para enfrentar enchentes, especialmente na capital. Esse documento passou a organizar responsabilidades entre órgãos estaduais e municipais, estabelecendo bases iniciais para os planos que seriam aprimorados nos anos seguintes.
2015: a maior enchente da história e o salto na coordenação institucional
A enchente de 2015, a maior já registrada em Rio Branco, com o Rio Acre atingindo cerca de 18,40 metros, representou um divisor de águas. Mais de 100 mil pessoas foram afetadas, exigindo uma operação de grande escala.
Cheia histórica Rio Acre em 2015/Foto: João Paulo Maia
As ações envolveram mobilização conjunta da Defesa Civil municipal, estadual e federal, atuação direta do Corpo de Bombeiros, estruturação de grandes abrigos, como o Parque de Exposições e decretação de situação de emergência, possibilitando acesso a recursos federais.
O evento evidenciou a complexidade dos desastres hidrológicos no Acre e mostrou a necessidade de transformar experiências práticas em instrumentos permanentes de planejamento.
2016 a 2025: consolidação de rotinas e fortalecimento institucional
Na última década, Rio Branco seguiu enfrentando períodos recorrentes de cheia e estiagem, o que contribuiu para o amadurecimento das rotinas da Defesa Civil municipal e estadual. Nesse intervalo, as ações passaram a ganhar maior regularidade e organização, com destaque para:
- Intensificação do monitoramento diário dos níveis do Rio Acre;
- Divulgação mais frequente de boletins hidrológicos à população e aos órgãos públicos;
- Ampliação da integração com instituições estaduais, federais e órgãos técnicos especializados.
Esse período também foi marcado por maior articulação intersetorial. Em 2022, o Acre ganhou destaque nacional por ações integradas na área da saúde pública durante eventos climáticos extremos, reflexo de um modelo de atuação mais coordenado entre diferentes setores do governo.
Abrigos construídos para pessoas afetas no Parque de Exposições/Foto: Reprodução
Em fevereiro de 2023, o Governo do Acre deu um passo importante ao assinar o Plano de Contingência Estadual para Enchentes, com foco na coordenação das ações durante o período chuvoso. No mesmo ano, o Rio Acre atingiu aproximadamente 17,72 metros, configurando uma das maiores enchentes da série histórica recente.
A resposta contou com maior integração com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), fortalecendo o monitoramento hidrológico, os sistemas de alerta e o suporte técnico aos municípios atingidos, além do apoio direto às operações de resposta.
O ano de 2024 foi marcado por eventos extremos em diferentes frentes. Durante o período chuvoso, o Rio Acre alcançou 17,89 metros, a segunda maior enchente da história de Rio Branco, enquanto 19 dos 22 municípios acreanos registraram impactos significativos.
Enchentes do Rio Acre em 2024/Foto: Reprodução
Em resposta, o estado elaborou um Plano Emergencial de 2024, com diretrizes de médio e longo prazo voltadas à adaptação climática. No mesmo ano, em junho, foi criado também um Plano de Estiagem, direcionado à mitigação dos efeitos da seca prolongada e à garantia do abastecimento de água. A iniciativa ampliou o escopo de atuação da Defesa Civil, que passou a atuar de forma integrada tanto em cenários de cheia quanto de estiagem.
Com as intensas chuvas nos últimos dias, o Governo do Acre acionou e reforçou a versão mais recente do Plano de Contingência Estadual, documento atualizado periodicamente para responder a desastres sazonais. Reuniões de alinhamento colocaram frente a frente órgãos estaduais com foco no monitoramento do Rio Acre, no apoio aos municípios afetados e na preparação das ações para o período de cheias iminentes em 2026.
Reunião de alinhamento com diversas instituições estaduais para tratar do aumento das chuvas/Foto: ContilNet
No âmbito municipal, Rio Branco apresentou oficialmente seu Plano de Contingência para Enchentes, consolidando aprendizados acumulados desde 2006. O documento estabelece de forma clara: níveis de atenção, alerta e inundação, protocolos definidos de atuação para cada órgão envolvido, estratégias de abrigamento, logística e comunicação e histórico detalhado das principais enchentes registradas na capital.
Conclusão: planejamento em evolução diante de um desafio permanente
Entre 2006 e 2025, a trajetória da Defesa Civil no Acre e em Rio Branco revela um processo contínuo de evolução institucional. A experiência acumulada em grandes enchentes, somada à elaboração e atualização periódica dos Planos de Contingência, demonstra um esforço consistente de transformar a resposta emergencial em planejamento estruturado.
Com planos ativos, monitoramento permanente e articulação entre município e estado, a Defesa Civil chega a 2025 mais preparada para enfrentar os eventos hidrológicos recorrentes, mantendo o desafio permanente de aprimorar a prevenção e reduzir impactos futuros.
