A Polícia Civil de São Paulo pediu à Justiça que o corpo do tunisiano Hayder Mhazres, supostamente morto por envenenamento, seja exumado no país de origem dele. Ele é apontado como uma das vítimas de Ana Paula Veloso Fernandes, conhecida como a serial killer de Guarulhos. Ele morreu após supostamente ser envenenado por ela.
O corpo de Hayder foi levado para a Tunísia a pedido da família, após ter um exame de sangue colhido no Instituto Médico Legal (IML). Na época, esse exame não detectou vestígios de envenenamento. No entanto, a polícia acredita que é necessário recolher amostras das vísceras da vítima para esclarecer se de fato ele foi ou não envenenado.
O estrangeiro teria sido a última das quatro vítimas mortas por Ana Paula, conforme investigação do 1º DP de Guarulhos, na Grande São Paulo.
Segundo a polícia e o Ministério Público de São Paulo (MPSP), a serial killer teve ajuda da irmã gêmea, Roberta Cristina Veloso Fernandes, para cometer os crimes. As duas estão presas por tempo indeterminado.
O pedido da polícia foi aceito pela Justiça paulista que, por meio do Ministério das Relações Exteriores, firmou uma cooperação internacional com a Embaixada do Brasil na Tunísia e a Polícia Internacional (Interpol) para viabilizar a exumação.
Ana Paula confessou ter matado colega de moradia à polícia
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Acusada está envolvida em ao menos quatro mortes por envenenamento
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Uma da vítimas foi morta após encontro via app
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Roberta Veloso, irmã da serial killer de Guarulhos Ana Paula Veloso, também foi indiciada por 4 mortes
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Ana Paula Veloso Fernandes, apontada pela polícia como a serial killer de Guarulhos
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Ana Paula Veloso Fernandes, apontada pela polícia como a serial killer de Guarulhos
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Na casa dela foi encontrado veneno
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Vítimas envenenadas por Ana Paula Veloso, a serial killer de Guarulhos
Ana Paula Veloso, apontada pela polícia com a serial killer de Guarulhos
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Ana Paula Veloso, apontada pela polícia com a serial killer de Guarulhos
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Ana Paula Veloso, apontada pela polícia com a serial killer de Guarulhos
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Arte Alfredo Henrique/Metrópoles
Documento do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) mostra que o pedido do 1º DP foi feito após o resultado negativo do exame toxicológico ao qual o corpo do tunisiano foi submetido.
Documento judicial do último dia 25 aponta que esse resultado pode ter resultado “das circunstâncias do falecimento e do rápido traslado do corpo para a República da Tunísia, onde [Hayder] foi sepultado”.
Laudo preliminar deu negativo para veneno
O pedido para a exumação “é medida imperiosa”, de acordo com a Justiça, uma vez que a investigação da Polícia Civil indica que Hayder teria sido morto por envenenamento.
Laudos preliminares do Núcleo de Toxicologia Forense, do IML, não detectaram substâncias tóxicas, fármacos, drogas de abuso, praguicidas (químicos usados contra pragas) e voláteis (que dispersam com facilidade) nas amostras de sangue coletadas do tunisiano.
Essa constatação, no entanto, resultaria do fato de o sangue não ser o “material de eleição” para a identificação de compostos químicos, “sobretudo em casos suspeitos de envenenamento”. Para a constatação de um eventual envenenamento, segue a Justiça, tecidos sólidos, vísceras e conteúdo gástrico seriam mais indicados para análise.
A família de Hayder, que em um primeiro momento se opôs à exumação por questões religiosas, a autorizou posteriormente. Nenhum documento, referente ao procedimento e posterior resultado de exame toxicológico, constava no processo, ao menos até o fim da manhã desta quinta-feira (4/12), como apurou o Metrópoles.
Falsa gravidez e morte
Roberta Cristina Veloso Fernandes, gêmea de Ana Paula, afirmou em depoimento que a irmã conheceu Hayder por aplicativo de relacionamento e, poucos dias depois, passou a afirmar estar grávida dele. O plano, conforme a polícia, era constrangê-lo moral e religiosamente para ele reconhecer o suposto filho e, com isso, garantir estabilidade financeira para as duas.
O delegado Halisson Ideião Leite, responsável pelo caso, afirmou que as irmãs monitoraram a agonia de Hayder em tempo real após o envenenamento. Ana chegou a filmar o tunisiano em estado crítico na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e enviou os vídeos a Roberta, que pedia notícias e “comentava o sofrimento do homem como se fosse algo banal”.
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Dias antes da morte, quando Hayder rompeu o relacionamento e exigiu o aborto, as duas decidiram matá-lo. Após o crime, Ana enviou à família da vítima uma foto em que simulava a gestação, tentando ser reconhecida como herdeira. Em seguida, mandou mensagens em árabe com tom de ameaça para parentes do tunisiano.
Durante o interrogatório, Roberta admitiu ter ajudado a sustentar a narrativa da gravidez, mas tentou dar uma versão mais leve da morte, dizendo que “era uma brincadeira que fugiu do controle”. O delegado e o Ministério Público de São Paulo, no entanto, afirmam que ela planejou e encorajou os homicídios, além de lucrar com as consequências.
Série de mortes com o mesmo padrão
O assassinato de Hayder encerrou uma sequência de quatro homicídios atribuídos às irmãs Roberta e Ana Paula Veloso Fernandes. Todos os crimes foram marcados por envenenamento com chumbinho, manipulação emocional das vítimas e busca por dinheiro ou moradia.
Primeira vítima identificada, Marcelo Hari Fonseca era dono do imóvel onde as irmãs moravam, em Guarulhos, na Grande São Paulo. A polícia aponta que Ana e Roberta planejaram a morte dele para ficar com a casa. O corpo foi encontrado dias depois, em decomposição no sofá, que Roberta queimou para eliminar provas, de acordo com a investigação.
Outro caso foi a morte, em abril, de uma amiga de Ana envenenada com bolo e café, também em Guarulhos. Maria Aparecida Rodrigues morreu após a criminosa romper com um policial militar. O objetivo era matar a amiga e incriminar o ex-namorado PM. Roberta ajudou a criar perfis falsos que simulavam mensagens de ameaça, atribuídas ao homem, incluindo trechos como: “Infelizmente ele te matou”, ou ainda, “Eu te avisei ontem”.
Neil Corrêa da Silva foi a terceira vítima da dupla. Pai de uma amiga de Ana, ele foi morto em troca de dinheiro, na cidade de Duque de Caxias (RJ). Segundo a investigação, Roberta negociou parte da recompensa e recebeu valores após o crime. Nas conversas, as duas se referiam ao homicídio como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), código criado para disfarçar as conversas entre elas.
Depois da morte de Neil, Roberta escreveu à irmã: “Se deu certo… foi embora tarde, graças a Deus.”
Como as gêmeas foram presas
A captura das irmãs foi resultado de interceptações telefônicas, rastreamento digital e cruzamento de dados bancários. Após o crime contra Hayder, o 1º DP de Guarulhos passou a monitorar movimentações suspeitas de Roberta, que havia vendido pertences das vítimas em redes sociais e usava diferentes chips de celular para despistar investigadores.
O delegado Halisson Leite afirmou que as duas mantinham comunicação criptografada e usavam linguagem codificada para se referir às mortes.
Em 15 de outubro, a equipe localizou Roberta em uma casa no bairro Ponte Grande, em Guarulhos. Ela tentou fugir pelos fundos, mas foi cercada. Ana Paula foi presa dias depois, no Rio de Janeiro, com auxílio da Polícia Civil fluminense.
Durante a prisão, Roberta mantinha cópias impressas das conversas com as vítimas, registros bancários e recibos de transferência. Para o delegado, o material “demonstra orgulho e controle sobre os crimes cometidos”.
“A frieza das duas impressiona. Elas documentavam as próprias ações como se montassem um portfólio de mortes”, afirmou Leite.
As gêmeas respondem por quatro homicídios qualificados e associação criminosa, podendo pegar penas que somam mais de 100 anos de prisão.
Como mostrado pelo Metrópoles, Ana está atualmente encarcerada na Penitenciária de Tremembé, no interior paulista, e Roberta, no Presídio Feminino de Santana, na zona norte da capital paulista.
O que diz a defesa
Almir da Silva Sobral, que defende as gêmeas, entrou com um pedido de soltura para Roberta e absolvição, alegando que a cliente não teria participação nos crimes atribuídos às duas irmãs.
Ele também solicitou que qualificadores dos homicídios fossem retirados da acusação.
Os pedidos foram negados pela Justiça.
Em entrevista ao Metrópoles, em novembro, o advogado afirmou que Ana “não tinha consciência do que fez” e reforçou que a cliente “não confessou” nenhum dos homicídios. “Ela somente disse como ocorreram.”

