TarcĂ­sio patina no eleitorado feminino e tenta empoderar primeira-dama

Por MetrĂłpoles 07/12/2025

Em meio ao aumento da violĂȘncia contra as mulheres em SĂŁo Paulo, o governador TarcĂ­sio de Freitas (Republicanos) vĂȘ no eleitorado feminino um dos principais desafios eleitorais para 2026.

Sondagens publicadas recentemente evidenciam a dificuldade de TarcĂ­sio conquistar o voto feminino, enquanto a primeira-dama, Cristiane Freitas, ganha cada vez mais espaço no PalĂĄcio dos Bandeirantes, como uma estratĂ©gia de aproximação desse pĂșblico.

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A rejeição entre eleitoras Ă© um problema para TarcĂ­sio tanto em uma eventual disputa Ă  PresidĂȘncia da RepĂșblica, quanto numa disputa Ă  reeleição – cenĂĄrio que ganhou mais força apĂłs o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) escolher o senador FlĂĄvio Bolsonaro (PL-RJ) como seu candidato ao Planalto.

Para o marqueteiro político Felipe Soutello, a aprovação do governo Tarcísio estå dentro dos padrÔes de ex-governadores.

Ele estaria um pouco mais bem avaliado do que João Dória (PSDB) e com a aprovação levemente mais baixa do que os primeiros mandatos de Geraldo Alckmin (PSB) e José Serra (PSDB), mas hå uma dificuldade de Tarcísio com os eleitores da capital e entre as mulheres.

“Normalmente, os governadores paulistas tinham uma aprovação equilibrada ou superior do pĂșblico feminino em relação ao pĂșblico masculino. TarcĂ­sio Ă© o Ășnico governador desses Ășltimos 20 anos que tem uma aprovação invertida. Ele tem uma aprovação acima de 10 pontos percentuais entre os homens em relação Ă s mulheres”, analisou Soutello.

PreferĂȘncia feminina

Em novembro, uma pesquisa eleitoral publicada pelo instituto Atlas Intel com possĂ­veis candidatos Ă  PresidĂȘncia mostrou um empate tĂ©cnico entre Lula (49%) e TarcĂ­sio (47%) em um eventual segundo turno.

No entanto, a vantagem de Lula Ă© gritante no eleitorado feminino. Enquanto Lula teria o apoio de 58% dos votos de mulheres, TarcĂ­sio ficaria com 25% – uma queda de 22 pontos na comparação com os votos totais.

A mesma vantagem do petista entre as mulheres é mostrada no levantamento de novembro do Paranå Pesquisas. Em uma eleição de primeiro turno, com Lula e Tarcísio na disputa, ambos iriam para o segundo turno.

De acordo com a sondagem, o atual presidente teria 36% das intençÔes de voto e 36,7% do eleitorado feminino. Enquanto, Tarcísio teria 23,2% dos votos gerais e 18,5% entre as mulheres, quase cinco pontos a menos.

Protagonismo da primeira-dama

Para aliados, uma das estratĂ©gias de TarcĂ­sio para reduzir essa rejeição feminina Ă© dar protagonismo Ă  primeira-dama Cristiane Freitas. Ela preside o Fundo Social de SĂŁo Paulo, ĂłrgĂŁo voltado Ă  assistĂȘncia social, que criou em dezembro 45 novos cargos comissionados.

Cristiane tambĂ©m tem aparecido, cada vez mais, ao lado de TarcĂ­sio, seja nas redes sociais ou em eventos. Na quinta-feira (4/12), a primeira-dama e o governador promoveram, no PalĂĄcio dos Bandeirantes, a formatura de alunos do programa “Escolas de Qualificação Profissional”, mantido pelo Fundo Social.

A deputada Rosana Valle (PL-SP), presidente do PL Mulher de SĂŁo Paulo e aliada de TarcĂ­sio, elencou ao MetrĂłpoles uma sĂ©rie de polĂ­ticas para o pĂșblico feminino do governo paulista.

Ela citou medidas de segurança pĂșblica, saĂșde e o programa “SuperAção SP”, aposta de TarcĂ­sio na ĂĄrea social, o que segundo aliados, seria importante para atrair o eleitorado feminino.

“Quando a gente olha o conjunto da obra, vĂȘ um governador que nĂŁo fala apenas em ‘defender as mulheres’ no discurso, mas que estĂĄ criando estrutura, protocolo, rede de apoio, capacitação e oportunidades reais para que as mulheres paulistas tenham segurança, autonomia e protagonismo”, disse Rosana.

Além da primeira-dama, Tarcísio também tenta driblar a rejeição das mulheres com representatividade feminina em duas pastas importantes.

A secretĂĄria NatĂĄlia Resende comanda a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e LogĂ­stica (Semil) e, MarĂ­lia Marton, a Secretaria da Cultura. AlĂ©m delas, TarcĂ­sio manteve a procuradora-geral do Estado (PGE InĂȘs Coimbra, que jĂĄ ocupava o cargo na gestĂŁo do ex-governador Rodrigo Garcia.

A “encruzilhada” Bolsonaro

Definida por Soutello como uma “encruzilhada”, a proximidade de TarcĂ­sio com o ex-presidente Bolsonaro Ă© um paradoxo enfrentado pelo governador de SĂŁo Paulo.

Enquanto TarcĂ­sio ainda depende do bolsonarismo para construir viabilidade polĂ­tica, quanto mais se aproxima do ex-presidente, mais se afasta da maioria do eleitorado feminino – alĂ©m de outros grupos que preferem um candidato “nem Lula nem Bolsonaro”.

Professora titular da Universidade Federal de SĂŁo Carlos, a cientista polĂ­tica Maria do Socorro Braga reforça que a dificuldade de candidatos ligados ao bolsonarismo terem simpatia das mulheres estĂĄ estritamente ligada Ă  pauta de costumes do bolsonarismo, que acaba agindo contra a redução da desigualdade de gĂȘnero.

“[Esses candidatos] defendem uma agenda, do ponto de vista comportamental e moral, que coloca a mulher no papel praticamente subordinada aos homens, com um papel muito mais de dona de casa. Aqueles papĂ©is mais antigos, diferente de uma mudança que as mulheres vĂȘm atravessando ao longo das Ășltimas dĂ©cadas”, afirmou Maria do Socorro.

FeminicĂ­dio em alta

Exemplos de feminicĂ­dio e violĂȘncia contra a mulher no Estado, com repercussĂŁo nacional, crispam ainda mais a caça aos votos femininos por candidatos bolsonaristas.

Foi o caso de Tainara Souza Santos, mulher que foi arrastada pelo carro conduzido pelo ex-namorado na Marginal TietĂȘ.

Apesar da redução de indicadores criminais no estado, como latrocínio e homicídio, o padrão não se repete em relação ao assassinato de mulheres.

Dados do Instituto Sou da Paz mostram que os casos de feminicídio no estado de São Paulo saltaram de 188, no ano passado, para 207, em 2025. A variação representa um aumento de 10,1%. Desde o início do governo Tarcísio, em 2023, os feminicídios aumentaram 16,9% em São Paulo.

“O feminicĂ­dio Ă© uma pauta muito desprestigiada na polĂ­tica. Se fala muito, mas se faz muito pouco em relação a esse assunto”, afirma a especialista em marketing polĂ­tico Jade Gandra Martins Dutra.

Para ela, a segurança pĂșblica Ă© explorada por candidatos da direita com extrema violĂȘncia, o que pode engajar nas redes sociais, mas nĂŁo gera conexĂŁo com as mulheres que nĂŁo sĂŁo bolsonaristas.

Baixo orçamento

Tarcísio foi o primeiro governador paulista a ter uma pasta destinada a mulheres. No entanto, a Secretaria de Políticas Para as Mulheres é a pasta com menor orçamento disponível de todo o governo. A dotação atual para 2025 é de R$ 36,2 milhÔes (com R$ 26,6 milhÔes suplementados durante o ano).

Para o prĂłximo ano, a previsĂŁo do governo Ă© de que a pasta fique na mesma posição. O projeto de orçamento enviado Ă  Assembleia Legislativa de SĂŁo Paulo (Alesp) prevĂȘ R$ 16,5 milhĂ”es para 2026.

Segundo o governo, isso ocorre porque a pasta â€œĂ© uma secretaria transversal, que atua como articuladora de polĂ­ticas pĂșblicas, identificando necessidades e coordenando programas com outras secretarias e ĂłrgĂŁos do estado”.

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