O ataque militar dos Estados Unidos contra a Venezuela demonstra uma ofensiva do presidente Donald Trump para fortalecer a extrema-direita transnacional na América Latina. A avaliação é da professora Clarissa Nascimento Forner, do Departamento de RelaçÔes Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Clarissa explica que a aproximação de governos que se posicionam mais Ă extrema-direita jĂĄ vem sendo parte do projeto do governo Trump na regiĂŁo. âPor outro lado, [hĂĄ] uma ofensiva clara a governos que se colocam na contramĂŁo dessas ideologias de extrema-direita.â
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âIsso reafirma esse aspecto estratĂ©gico que a gente observa no Trumpismo, que Ă© a articulação das redes transnacionais de extrema-direita. Portanto, fortalecendo a extrema-direita na regiĂŁo e enfraquecendo possĂveis governos ou partidos de oposiçãoâ, explicou a professora.
Além disso, Clarissa Forner aponta que os Estados Unidos se reafirmam como um fator de instabilidade regional e global:
âPensando no territĂłrio venezuelano, agora a tendĂȘncia Ă© que a gente observe esse cenĂĄrio de instabilidade interna necessariamente e que dificilmente vai se solucionar com um perĂodo de intervenção ou de administração militar pela parte norte-americana, conforme colocado pelo Trump na coletivaâ, disse, ao se referir ao pronunciamento do presidente estadunidense, neste sĂĄbado (3).
Ela atribui ao governo Trump o modus operandi de produzir instabilidade como forma de viabilizar respostas que, muitas vezes, escapam Ă dimensĂŁo da legalidade:Â
âEntĂŁo [hĂĄ] o prĂłprio uso da força e esse processo de sequestro do presidente Maduro e da sua esposa como sendo um exemplo desse tipo de ação que escapa a qualquer tipo de norma de legalidade e sendo legitimada por essa ideia de que hĂĄ uma crise em curso, de que hĂĄ um combate ao crime.â
A instabilidade sinaliza também, segundo Clarissa Forner, a potencialidade de futuras intervençÔes por parte dos Estados Unidos.
âFica muito em aberto, no discurso da coletiva de imprensa, que a Venezuela nĂŁo Ă© o Ășltimo caso, o Ășltimo dos ataques possĂveis, que hĂĄ uma perspectiva de que outros casos possam a vir acontecer na regiĂŁoâ, mencionou.
Entenda
O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela marca um novo episĂłdio de intervençÔes diretas de Washington na AmĂ©rica Latina. A Ășltima vez que os EUA invadiram um paĂs latino-americano foi em 1989, no PanamĂĄ, quando os militares norte-americanos sequestraram o entĂŁo presidente Manuel Noriega, acusando-o de narcotrĂĄfico.
Assim como fizeram com Noriega, os Estados Unidos acusam Maduro de liderar um suposto cartel venezuelano De Los Soles, sem apresentar provas. Especialistas em trĂĄfico internacional de drogas questionam a existĂȘncia desse cartel.
O governo de Donald Trump estava oferecia recompensa de US$ 50 milhÔes por informaçÔes que levassem à prisão de Maduro.
Para crĂticos, a ação Ă© uma medida geopolĂtica para afastar a Venezuela de adversĂĄrios globais dos Estados Unidos, como China e RĂșssia, alĂ©m de exercer maior controle sobre o petrĂłleo do paĂs, que Ă© dono das maiores reservas de Ăłleo comprovadas do planeta.

