A partir de uma brincadeira de carnaval, o Rio de Janeiro ganhou no dia 4 de março de 2018 o bloco Sai, Hétero, nascido como resposta ao preconceito contra a comunidade LGBTQIA+.

âHoje, ele Ă© um projeto cultural, consolidado no carnaval do Rio e que recebe mensagens de gente de Roma, Paris, da galera de Manaus vindo para o Rio de Janeiro e querendo saber a data do desfile para se programarâ, conta o fundador e presidente do bloco, Vitor Ribeiro.
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No prĂłximo dia 24, o Sai, HĂ©tero farĂĄ seu primeiro âesquentaâ oficial do carnaval de rua, reunindo artistas e convidados na Marina da GlĂłria, dentro do Parque do Flamengo, com tema sempre voltado para as pessoas LGBTQIA+. âĂ um evento bloco, com fantasia livreâ, disse Ribeiro. Os participantes apostam que o centro do Rio âvai ferver no ritmo do carnaval mais colorido, diverso e animado da cidadeâ. InformaçÔes podem ser encontradas no Instagram do bloco.
Mas a celebração maior do carnaval 2026 do Sai, Hétero ocorrerå no dia 17 de fevereiro, embora ainda sem local definido, que é sempre fora da programação do carnaval de rua da prefeitura.
âA gente prefere fazer um evento fechado por motivos de segurança porque, no carnaval, as pessoas ficam muito expostas e acontecem muitos acidentes em eventos abertosâ, explicou Vitor Ribeiro.
O nome Sai, HĂ©tero é um bloco criado para que as pessoas LGBT+ possam ter seu espaço. Os eventos do bloco sĂŁo realizados sempre na regiĂŁo central da cidade. No ano passado, por exemplo, ocorreu na Praça Marechal Ăncora.
O bloco tem um pĂșblico bem fiel, estimado entre 10 mil e 20 mil pessoas. Os eventos tĂȘm camarotes, open bar e diversas atraçÔes e artistas, alĂ©m da bateria da Escola de Samba Unidos da Tijuca.
Divinas Tretas
O Carnabendita, ecossistema cultural que conecta 13 blocos de rua no Rio de Janeiro, terå açÔes inéditas de diversidade para o desfile do Divinas Tretas em 2026, bloco que surgiu como uma nova formação do antigo bloco Toco-Xona, o primeiro bloco LGBTQIA+ do Rio de Janeiro, criado em 2007.
A mudança de nome, ocorrida em 2022, teve por objetivo abarcar ainda mais a diversidade e se firmar como coletivo no pĂłs-pandemia da covid-19. Misturando pop, rock, axĂ© e ritmos brasileiros, o grupo consolidou-se como um sĂmbolo de pluralidade e qualidade musical no carnaval de rua carioca.
O desfile do bloco Divinas Tretas, marcado para o dia 15 de fevereiro, na Praia do Flamengo, inclui uma iniciativa inĂ©dita de requalificação e retificação de prenome e gĂȘnero para a população trans e nĂŁo-binĂĄria em situação de vulnerabilidade. A diretora do Carnabendita, NatĂĄlia GuimarĂŁes, informou que o objetivo das açÔes idealizadas para o carnaval 2026 Ă© aprofundar o debate sobre diversidade e cidadania dentro da liga.
âComo o Divinas Tretas Ă© hoje o nosso principal pilar LGBTQIA+, decidimos concentrar esses esforços no bloco para garantir que o carnaval seja, alĂ©m de festa, um instrumento de justiça social”, disse NatĂĄlia.
O bloco vai contar com um espaço reservado e gradeado, segurança, equipe de apoio treinada e intĂ©rprete de libras durante todo o percurso. HaverĂĄ instalação de sanitĂĄrios inclusivos pelo prĂłprio bloco, alĂ©m de uma articulação, junto Ă Riotur, para que os banheiros pĂșblicos externos adotem padrĂ”es similares de inclusĂŁo. Durante os intervalos das mĂșsicas, o bloco promoverĂĄ campanha de combate Ă violĂȘncia contra a mulher, com divulgação do nĂșmero 180, QR Codes para acesso Ă Lei Maria da Penha e distribuição de preservativos.
Além disso, para reforçar o compromisso com a representatividade, o Carnabendita adotarå a contratação prioritåria de profissionais LGBTQIA+, trans e não-binårios em toda o desfile do Divinas Tretas.
Enxota Que Eu Vou
Ao contrĂĄrio do que muita gente pensa, o Enxota Que Eu Vou nĂŁo Ă© um bloco majoritariamente LGBTQIA+. âNĂłs nĂŁo somos um bloco exclusivo LGBTQIA+. O nome dĂĄ a entender isso, Ă s vezes. A gente se considera um bloco de todos, diverso e aberto a todos os gĂȘneros. NĂłs nos consideramos amigos das pessoas que lutam pelas causas LGBTQIA+ e, inclusive, defendemos que o carnaval seja plural, diverso, com respeitoâ, disse a presidente da agremiação, Camila Mendes, Ă AgĂȘncia Brasil.
A bateria do bloco, batizada Bateria Penetrante, tem participantes LGBTQIA+ e sua rainha Ă© Wallace Terra, drag queen cujo nome artĂstico Ă© WQueer.
Tudo começou quando um grupo de amigos universitĂĄrios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) muito boĂȘmios e que gostavam muito de sambas-enredo, iam para os lugares tocar e cantar, mas acabavam enxotados dos lugares, porque eram os Ășltimos a ir embora, lembrou Camila, que integra a agremiação desde o primeiro ano de criação do Enxota Que Eu Vou, em 2010.
âVĂŁo embora, vĂŁo embora, eles ouviamâ. DaĂ, por brincadeira, o nome do bloco ficou sendo Enxota Que Eu Vou, cujo foco sĂŁo os sambas-enredo clĂĄssicos das escolas de samba do Rio de Janeiro, desde 1900 atĂ© os sambas atuais. No carnaval 2026, o bloco comemora 15 anos de reuniĂŁo e festa na Praça Tiradentes, regiĂŁo central da capital fluminense.
O Enxota Que Eu Vou Ă© um bloco parado, com pĂșblico que gira entre mil e duas mil pessoas. A concentração estĂĄ marcada para as 13h do dia 17 de fevereiro, na Praça Tiradentes, com evolução a partir das 15h.
O tema do carnaval 2026 sĂŁo os 15 anos do bloco. âNeste carnaval, a gente vai trazer os sambas que mais tocamos nesses 15 anos, que fizeram sucesso, mas tambĂ©m trazendo sambas antigosâ. Â
Banda das Quengas
Uma das bandas carnavalescas LGBTQIA+ mais antigas do Rio de Janeiro, a Banda das Quengas completa 35 anos no dia 13 de fevereiro. A comemoração, entretanto, serĂĄ na terça-feira (17), com concentração a partir das 15h na esquina da Rua Washington Luiz com Avenida Mem de SĂĄ, na Lapa. A referĂȘncia era o Bar das Quengas, que foi reformado e ganhou outro nome: Bacurau. âMas nĂŁo tem nada a ver com a bandaâ, destacou em entrevista Ă AgĂȘncia Brasil o vice-presidente da Banda das Quengas, Tbengston Martins.
Devido ao contingente de pessoas que atrai â no ano retrasado foram 47 mil pessoas â a banda nĂŁo sai mais. Ă parada, afirmou Tbengston Martins, na vice-presidĂȘncia hĂĄ dez anos.
âNossa banda Ă© imprevisĂvel. Ela pega multidĂ”es. Ă a banda LGBT da diversidade que atrai nĂŁo sĂł os que estĂŁo com a gente, mas os afins tambĂ©m. Ă uma banda famĂlia em que todo mundo vai para se divertir.â, assegurou.
O som começa Ă s 16h e a banda segue atĂ© as 22h. âTodo mundo que passa o carnaval no Rio para na terça-feira na Lapa para brincar com a genteâ.
A temĂĄtica do carnaval 2026 Ă© a mesma dos Ășltimos oito anos: Aceitem ou nos respeitem. Segundo reforçou Tbengston Martins, ninguĂ©m Ă© obrigado a aceitar, âmas respeitar, com certeza Ă©â. A fantasia Ă© livre. No passado, a banda chegou a produzir abadĂĄs para distribuir a alguns convidados, mas ficou muito caro. âAs pessoas vĂŁo do jeito que acharem melhor e Ă vontadeâ, determinou o vice-presidente.
Tbengston Martins jĂĄ foi adepto da banda, quando começou, depois padrinho, rainha da banda em 2018. âHoje, sou vice-presidente e dou a vida pela banda, porque gosto de carnaval. E nossa banda nos realiza nesse perĂodoâ.Â
Sereias da Guanabara
O bloco de rua Sereias da Guanabara tambĂ©m sai no dia 17 de fevereiro, com concentração Ă s 14h, no Aterro do Flamengo, prĂłximo ao estacionamento do Assador Rioâs, churrascaria de rodĂzio instalada nas imediaçÔes. O bloco tem como foco o tripĂ© formado por sustentabilidade, acessibilidade e diversidade.
Trata-se de um famoso bloco LGBTQIA+ do carnaval carioca, cuja marca de suas fantasias Ă© a fauna marinha. âEssa Ă© sempre uma marca do nosso bloco. De cima do trio elĂ©trico a gente vĂȘ muito azul, verde-ĂĄgua. A galera compra legal essa ideia do universo marinhoâ, destacou, em entrevista Ă AgĂȘncia Brasil um dos fundadores da agremiação, Leo Solez.
TambĂ©m fundador do bloco, Jorge Badaue acrescentou que o pĂșblico abraça a ideia do universo marinho, porque ele envolve uma certa fantasia, lĂșdica, carnavalesca, de sereias. Acaba sendo um universo muito rico para se explorar em termos de figurino e fantasiaâ. Leo Solez completou: âAlĂ©m de ser a cara do Rio de Janeiro, que tem um vĂnculo muito forte com o mar e naturezaâ.
No ano passado, o bloco ganhou o Selo Verde de sustentabilidade. Solez explicou que a histĂłria do bloco, que celebra este ano seu nono aniversĂĄrio, estĂĄ relacionada Ă fabulação de um imaginĂĄrio sobre a BaĂa de Guanabara, sofrendo poluição durante muitas dĂ©cadas.
âPara a gente fazer o bloco no Aterro do Flamengo Ă© muito simbĂłlico porque a Praia do Flamengo foi despoluĂda e estĂĄ sendo agora muito usada pelos cariocas. Essa sempre foi uma pauta nossa durante o bloco, procurar falar sobre conscientização das pessoas em relação ao lixoâ, citou Leo Solez.
Um dos princĂpios do bloco, segundo sublinhou Jorge Badaue, Ă© que existe o entendimento de que a BaĂa de Guanabara, apesar de sofrer muito com a poluição, nĂŁo morre. âA gente refletiu muito sobre essa resistĂȘncia da vida, apesar de questĂ”es adversasâ. HĂĄ consciĂȘncia tambĂ©m sobre a potĂȘncia de vida animal que existe na BaĂa de Guanabara e que alimenta a cidade do Rio de Janeiro e a regiĂŁo metropolitana, lembrou Solez.
Jorge Badaue deixou claro que o Sereias da Guanabara Ă© um bloco LGBT cujo pilar mais forte Ă© a sustentabilidade. Os integrantes do bloco procuram usar materiais reciclados nas fantasias, aproveitando a âpotĂȘncia festiva do lixoâ. Tudo Ă© reaproveitado.
Durante a passagem do bloco, Leo e Jorge, que atuam como DJs no trio elétrico, estão sempre conscientizando os foliÔes sobre a importùncia da coleta do lixo, para deixar novamente o Aterro do Flamengo em condiçÔes de uso para os próximos usuårios do local.
O primeiro desfile do Sereias da Guanabara foi realizado no dia 20 de janeiro de 2017, no perĂodo prĂ© carnaval. Essa data Ă© considerada a fundação do bloco, cuja criação ocorreu no final de 2016.
Outra caracterĂstica do bloco Ă© a diversidade, âatĂ© porque a fauna marinha Ă© diversaâ. AlĂ©m das pessoas LGBTQIA+, o Sereias estĂĄ aberto Ă participação de pessoas de todos os gĂȘneros. âTem pessoas trans, pessoas cis, hĂ©teros tambĂ©m sĂŁo bem-vindos. Nos nossos eventos, a gente tambĂ©m preza por acessibilidade, que Ă© um pilar nossoâ, afirmaram os dois sĂłcios.Â

