O cinema costuma ser descrito por quem vive o set como um “caos organizado”: dezenas — às vezes centenas — de profissionais trabalhando ao mesmo tempo para que uma única cena exista. Para o diretor de fotografia Adolpho Veloso, essa natureza coletiva da produção é parte do fascínio que sustenta a profissão, mesmo em meio a crises e períodos de instabilidade no mercado.
Nascido em São Paulo, Veloso começou a carreira no Brasil, passando por curtas, publicidade e projetos independentes até consolidar seu nome na ficção. Aos poucos, as oportunidades fora do país foram surgindo, primeiro em produções na América Latina e, depois, em filmagens na Europa e nos Estados Unidos. Hoje, ele mantém Lisboa como base, mas circula entre grandes centros, especialmente por conta da temporada de premiações e de novos trabalhos.
Adolpho Veloso durante as filmagens de “Sonhos de Trem” (Acervo Pessoal/divulgação)
O nome do brasileiro voltou a ganhar destaque com a fotografia de “Sonhos de Trem” (Train Dreams), longa dirigido por Clint Bentley e disponível na Netflix. O filme chegou de forma discreta, mas foi crescendo no boca a boca por causa da beleza visual e do tom contemplativo — e a direção de fotografia passou a ser apontada como um dos pilares do impacto emocional da obra. No início do mês, o trabalho também foi reconhecido no Critics Choice Awards, ampliando a visibilidade do profissional.
Ambientado no início do século XX, no noroeste dos Estados Unidos, “Sonhos de Trem” acompanha Robert Grainier, um trabalhador ferroviário que constrói família, enfrenta longas ausências por trabalho e, após uma tragédia, é obrigado a ressignificar a própria vida. Com temas como luto, solidão e passagem do tempo, a narrativa se apoia em uma estética que valoriza paisagens, silêncios e memória — e é justamente aí que Veloso assume papel central.
Em entrevista, o diretor de fotografia afirmou que sua abordagem não parte da técnica, mas da emoção e do roteiro: é a história que define enquadramento, luz, lente e linguagem. Ele conta que a ideia visual do filme nasceu da sensação de “memórias encontradas”, como uma caixa antiga de fotos fora de ordem, e que escolhas como o formato de tela buscaram dialogar com essa referência afetiva.
Veloso também avaliou que o momento chega em boa hora, após anos difíceis para o setor (pandemia e paralisações), e disse tentar reduzir expectativas com relação ao Oscar: para ele, a maior conquista é ver o trabalho sendo visto e continuar tendo espaço para filmar novos projetos. Entre os próximos passos, ele já trabalha em outras produções internacionais e manifesta o desejo de voltar a filmar no Brasil, além de repetir a parceria com Clint Bentley.
Fonte: Bravo!
✍️ Redigido por ContilNet
