Revisitar Scarface (1983) é perceber como o tempo foi generoso com um filme que, em seu lançamento, dividiu críticos e público. Dirigido por Brian De Palma e protagonizado por Al Pacino em um de seus papéis mais excessivos, o longa atravessou décadas sendo idolatrado como símbolo de poder e ascensão, mesmo sendo, desde o início, uma tragédia anunciada.
Scarface/ Foto: Reprodução
Tony Montana chega aos Estados Unidos como um imigrante cubano disposto a conquistar tudo o que lhe foi negado. Dinheiro, status, respeito. O problema é que Scarface nunca escondeu que esse sonho foi contaminado pela violência e pela paranoia. O famoso lema “The World Is Yours” funciona menos como promessa e mais como ironia cruel.
Muito se fala da estética exagerada, das falas icônicas e da trilha sonora oitentista, elementos que ajudaram o filme a virar fetiche cultural. Mas reduzir Scarface a isso é ignorar seu núcleo mais incômodo: a ideia de que o capitalismo sem freios transforma ambição em autodestruição. Tony não cai porque trai códigos morais elevados; ele cai porque acredita demais no próprio mito.
Muito se fala da estética exagerada, das falas icônicas e da trilha sonora oitentista, elementos que ajudaram o filme a virar fetiche cultural/ Foto: Reprodução
Com o passar dos anos, o filme ganhou novos significados. Se nos anos 1980 ele refletia excessos de uma era marcada por consumo e ostentação, hoje dialoga com uma cultura que glorifica sucesso rápido, poder individual e a ilusão de que limites são obstáculos a serem esmagados. Tony Montana virou pôster, camiseta e referência pop — muitas vezes celebrada por quem ignora o destino do personagem.
A direção de De Palma reforça essa leitura ao transformar a ascensão em espetáculo e a queda em claustrofobia. À medida que Tony sobe, o mundo ao seu redor se fecha. A mansão vira prisão, a confiança se dissolve e a violência passa a ser a única linguagem possível. O império cresce, mas a solidão cresce junto.
Scarface/ Foto: Reprodução
Scarface nunca foi um manual de sucesso, embora muitos insistam em lê-lo assim. É um aviso. Um filme que observa, sem piedade, como o desejo de ter tudo pode corroer qualquer noção de humanidade. O exagero não é um defeito; é parte da crítica.
Mais de 40 anos depois, o clássico segue atual justamente porque não oferece redenção. Tony Montana conquista o mundo, mas perde tudo o que poderia dar sentido a essa conquista. No fim, Scarface continua dizendo a mesma coisa, de forma cada vez mais clara: quando o poder vira fim, a queda deixa de ser surpresa e passa a ser destino.
Fhagner Soares — o cinema sob outro olhar.
