Entre a vida e a despedida: única coveira do Acre ensina ao filho que até o fim existe dignidade

Joseline atua há 15 anos no São João Batista, em Rio Branco, e acompanha o interesse do filho de 13 anos pelo ofício

Quando criança, costumamos pensar no que “seremos quando crescermos”. É comum que a resposta para essa pergunta seja algo que lide, principalmente, com a vida. Afinal, o médico busca a cura; o professor quer passar o conhecimento; o advogado, lutar por questões jurídicas e sociais.

No entanto, não é comum pensarmos em trabalhar com a morte, muito embora exista quem viva com isso e – com orgulho! – até passe o ofício para os filhos.

É o caso de Joseline Lima, que, há 15 anos, é coveira no Cemitério São João Batista, em Rio Branco. Ela é, inclusive, a única mulher a exercer a função no estado, tendo passado em um concurso público em 2010.

A situação, por si só, já vem carregada de representatividade, não fosse por um detalhe que revela ainda mais a complexidade que é a vida e suas nuances: o filho de Joseline, Cauã, de 13 anos, vez ou outra passa pelo local. Não como um trabalhador profissional – ele compreende que ainda é criança e que precisa viver como tal -, mas como alguém que quer aprender.

Tímido, Cauã não quis conversar com a reportagem; a mãe, porém, topou falar com o ContilNet e contou como é ser a única representante feminina no cargo em todo o Acre.

Tímido, Cauã não quis conversar com a reportagem; a mãe, porém, topou falar com o ContilNet e contou como é ser a única representante feminina no cargo em todo o Acre. Foto: Anne Nascimento

“Vi que era muito diferente”

Joseline disse que optou pelo cargo de coveira no concurso público por ser algo interessante.

“Eu vi que era muito diferente e me chamou muita atenção. E aí eu decidi fazer e, graças a Deus, hoje eu estou aqui, né?”, enfatizou.

Movimento no Cemitério São João Batista, em 2024/Foto: Marcos Araújo/Assecom

Ela explicou ainda que o filho a acompanha, de vez em quando, apenas para conhecer. O rapaz, inclusive, consegue andar pelo cemitério sem medo, confiante.

“[Ele] diz que o sonho dele é ser coveiro e seguir que nem a mãe dele. O sonho dele”, repetiu, orgulhosa.

Mas por que será que, de todas as profissões, Cauã escolheu justamente esta? Joseline respondeu.

“Ele acha bonito”, afirmou. “É muito importante ensinar alguma coisa ao filho, mesmo que apenas observando. Óbvio que ele não vai trabalhar, mas ele vai estar acompanhando, né, a mãe. Ainda mais eu, que sou mãe solo.” Joseline é mãe de três crianças.

Ao lado da mãe, Cauã vê a rotina de um cemitério.

“Ele cresceu muito aqui dentro, nesse ambiente, né? Que é um ambiente estranho para muitos, mas ele não vai ter a visão voltada para o mundo lá fora, mas sim de trabalhar, de crescer, de querer ser alguém”, finalizou.

O ser humano é ritualístico por natureza: temos uma festa ao nascer e outras a cada ano.

Celebramos cada conquista escolar, cada diploma, cada emprego. Casamos – e, às vezes, divorciamos! -, temos filhos (ou não); envelhecemos, caso tenhamos sorte e, por fim, morremos.

Se há de se ter dignidade ao longo de toda a nossa existência, que celebremos em vida aqueles que, diariamente, convivem com a morte. Não de um modo bizarro, mas com respeito e reverência, compreendendo que, até no final, é importante lembrar que há pessoas que tornam esse momento possível, por mais doloroso que seja.

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