Uma investigação da Polícia Civil revelou que o esquema de desvio de medicamentos e equipamentos hospitalares da Fundação Hospitalar do Acre (Fundhacre), em Rio Branco, incluía a comercialização clandestina de fentanil, um dos analgésicos mais potentes utilizados na medicina. A informação foi confirmada ao ContilNet pelo delegado Igor Brito, responsável pelo caso.
“Apreendemos uma quantidade razoável”, disse o titual da Delegacia de Crimes Fazendários (Defaz).
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A apuração aponta que o esquema funcionava de forma contínua e já causou prejuízos que podem ultrapassar R$ 1 milhão aos cofres públicos e ao sistema de saúde estadual. A operação foi deflagrada na manhã da última segunda-feira (5), após cerca de um ano de investigação iniciada a partir de uma solicitação formal da Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre).
Durante a ação, a polícia prendeu em flagrante Eugênio Gonçalves Neves, ex-balconista de farmácia, apontado como responsável por armazenar e vender ilegalmente os materiais desviados da Fundhacre. O mandado de busca e apreensão foi cumprido em uma residência no bairro da Pista, na região da Sobral.
Suspeito foi preso em flagrante/Foto: ContilNet
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No local, os investigadores encontraram grande quantidade de medicamentos controlados, incluindo fentanil, além de remédios utilizados no tratamento de câncer e equipamentos hospitalares de alto custo, como sondas para pacientes com bolsa de colostomia e um hemodializador, utilizado em sessões de diálise. Todo o material estava armazenado de forma irregular.
Devido ao volume apreendido, foi necessário o uso de um caminhão para transportar os itens até um local apropriado, onde passarão por perícia técnica. A Polícia Civil informou que o cálculo do prejuízo ainda é preliminar e pode aumentar conforme o material seja analisado.
Polícia Civil concedeu uma coletiva de imprensa para falar do caso/Foto: Reprodução
A investigação é conduzida pela Delegacia de Crimes Fazendários (Defaz). Segundo o delegado Igor Brito, já está comprovado que o homem preso não agia sozinho. As apurações seguem em sigilo para identificar outros envolvidos e verificar se há participação de servidores ou facilitadores dentro da estrutura pública.
Após a prisão, Eugênio Gonçalves Neves foi encaminhado ao Departamento de Investigações Criminais (Deic) e, em seguida, à Delegacia de Flagrantes (Defla), onde permanece à disposição da Justiça.
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Medicamentos e equipamentos de alto custo foram encontrados/Foto: ContilNet
O secretário estadual de Saúde, Pedro Pascoal, afirmou que o desvio de medicamentos e insumos vinha impactando diretamente o abastecimento da rede estadual, comprometendo o atendimento à população. Segundo ele, a frequente falta de medicamentos nas unidades de saúde já levantava suspeitas de irregularidades internas.
Ainda de acordo com o secretário, o esquema envolvia não apenas medicamentos, mas também insumos como luvas, materiais para diálise e equipamentos essenciais ao funcionamento dos serviços de saúde. Ele destacou a importância da investigação para a proteção dos recursos públicos e elogiou a atuação da Polícia Civil.
O que é o fentanil
O fentanil é um opioide sintético extremamente potente, utilizado legalmente em ambientes hospitalares para o controle de dores intensas, especialmente em procedimentos cirúrgicos, tratamentos oncológicos e em unidades de terapia intensiva. Ele é considerado dezenas de vezes mais forte que a morfina e requer controle rigoroso de armazenamento, prescrição e uso.
O fentanil é um opioide sintético extremamente potente/Foto: Reprodução
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Por conta de sua potência e alto risco de dependência e overdose, o fentanil é classificado como medicamento de controle especial e só pode ser utilizado sob supervisão médica. O uso indevido da substância tem sido associado a crises de saúde pública em diversos países.
Valor de mercado
No mercado legal, o fentanil possui alto custo devido à sua complexidade de produção e ao rigor no controle sanitário, podendo chegar a milhares de reais por frasco, a depender da dosagem e da apresentação hospitalar. Já no mercado clandestino, o valor é ainda mais elevado e varia conforme a oferta, a forma de comercialização e a região, o que torna o desvio desse tipo de medicamento altamente lucrativo para organizações criminosas.
Riscos
De acordo com uma nota técnica do Ministério da Saúde, o fentanil é um opioide sintético originalmente utilizado como analgésico e anestésico, “porém seu uso não médico pode acarretar consequências severas à saúde dos usuários e à saúde pública, como evidenciado pelo aumento no número de mortes por overdose na América do Norte atribuídas ao uso de opioides nos últimos anos, sendo por isto recomendável que os órgãos de saúde, de perícia criminal, das polícias e da receita adotem alguns procedimentos para o monitoramento de casos e a gestão de riscos”.
No ano passado, em entrevista exclusiva ao ContilNet, o psiquiatra e vice-corregedor do Conselho Regional de Medicina do Acre (CRM-AC), Dr. Marcos Araripe, alertou para os riscos do uso contínuo desses remédios. “É uma situação de saúde pública, porque o uso indiscriminado pode levar a transtornos psiquiátricos, problemas cardíacos e renais, e até à morte”, explicou. Os quadros podem evoluir para um quadro de dependência química, configurando uma preocupação crescente de saúde pública, evidenciando a gravidade do problema e a necessidade de uma abordagem multidisciplinar.
Esses pacientes que buscam constantemente a sensação de bem-estar proporcionada pelos opioides, chegam a exigir que a medicação seja aplicada intravenosamente, alegando que outras formas como comprimidos ou injeções intramusculares não surtem efeito. Na verdade, essa preferência pela via venosa está ligada à busca pelo efeito dopaminérgico. “É um quadro de dependência, não apenas de tratamento da dor”, destacou.
A situação gera conflitos, já que esses pacientes podem acusar as equipes de saúde de negligência quando a medicação injetável é negada. No entanto, o Dr. Araripe enfatiza a autonomia médica: “O médico tem autonomia sobre diagnóstico, prognóstico e prescrição”. A decisão sobre qual tratamento aplicar cabe ao médico, que possui o conhecimento técnico e científico para avaliar a condição do paciente de forma segura.
