Existe um tipo de desafio que não aparece no currículo, não se aprende em cursos e raramente é reconhecido: o peso invisível de ser a primeira. A primeira da família a ingressar em determinado mercado. A primeira a ocupar um espaço até então desconhecido. A primeira a tentar construir um caminho sem referências próximas.
Entrar no mercado de trabalho já é, por si só, um processo exigente. Para quem é a primeira — como no meu caso, no Direito, área em que escolhi atuar sendo a primeira advogada da família —, esse ingresso costuma ser ainda mais solitário. Não há conselhos herdados, contatos prontos ou histórias familiares que sirvam de guia. Tudo precisa ser aprendido na prática, muitas vezes errando, ajustando e insistindo em silêncio.
Esse peso se manifesta de várias formas. A cobrança tende a ser maior, o julgamento mais rápido e a margem para erro, menor. Espera-se segurança de quem ainda está aprendendo. Confiança de quem nunca teve a chance de observar de perto como aquele ambiente funciona e o começo, que deveria ser espaço de construção, vira um teste constante de pertencimento.

Giovanna Beatriz Rodrigues
Advogada e coordenadora do podcast Conexão Jurídica
É evidente a pressão interna existente quando você é inserido no mercado de trabalho e isso vale para todas as áreas, ainda mais quando não se tem a referência do que funcionou ou não. Além da profissão, é preciso aprender o ambiente, as regras não escritas, os códigos sociais, as portas que se abrem com mais facilidade para uns do que para outros. Quem entra sem padrinhos precisa provar mais, explicar mais e sustentar escolhas sem a validação prévia de um sobrenome, de uma indicação ou de uma tradição familiar.
Essa realidade não é exclusiva de uma área. Ela se repete com quem é o primeiro a cursar uma universidade, a empreender, a mudar o padrão financeiro da família ou a ocupar espaços historicamente distantes. Em qualquer setor, ser o primeiro carrega uma responsabilidade silenciosa: abrir caminho enquanto ainda se aprende a caminhar.
Ao mesmo tempo, essa trajetória constrói algo valioso. Quem começa do zero desenvolve autonomia, aprende a se orientar sozinho e cria uma relação mais consciente com o próprio trabalho. A credibilidade, nesse caso, não vem por herança, mas por constância. Não nasce de atalhos, mas de coerência.
Ser a primeira é difícil porque exige coragem antes do reconhecimento. É seguir sem garantias, confiando mais no próprio compromisso do que na validação imediata. Mas é também assim que novos caminhos se formam. E, muitas vezes, é desse esforço invisível que surgem trajetórias sólidas — capazes de se tornar referência para quem vem depois.
