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Parasita e Triângulo da Tristeza expõe desigualdade social com riso ácido e crueldade

Por Fhagner Soares, ContilNet

Comparar Parasita (2019) e Triângulo da Tristeza (2022) é observar como a desigualdade social pode ser retratada de maneiras radicalmente diferentes e, ainda assim, igualmente incômodas. Ambos usam o humor como porta de entrada, mas logo deixam claro que o riso é apenas o primeiro passo antes do desconforto se instalar de vez.

Parasita (2019)/ Foto: Reprodução

No filme de Bong Joon-ho, a crítica social é construída como um mecanismo de precisão. Cada movimento dos personagens é calculado, cada virada de tom é cuidadosamente preparada. A família Kim se infiltra no cotidiano dos Park como quem ocupa um espaço que sempre lhes foi negado, e o choque entre classes acontece de forma quase silenciosa, até explodir em violência. O riso aqui é nervoso, contido, sempre à beira do abismo.

Triângulo da Tristeza, dirigido por Ruben Östlund, escolhe o caminho oposto. A sátira é escancarada, barulhenta e deliberadamente excessiva. O diretor não tem pudor em transformar milionários, influenciadores e elites em caricaturas grotescas, expondo a fragilidade de um sistema que se sustenta apenas enquanto dinheiro e hierarquia permanecem intactos. Quando isso cai, tudo vira caos.

Triângulo da Tristeza (2022)/Foto: Reprodução

Enquanto Parasita observa a desigualdade como uma estrutura invisível, porém sólida, Triângulo da Tristeza prefere desmontar essa mesma estrutura em público, peça por peça, até que reste apenas o constrangimento. Um é um thriller social disfarçado; o outro, uma farsa cruel que ri da própria arrogância ocidental.

Há também uma diferença fundamental no olhar sobre os personagens. Em Parasita, ninguém é completamente inocente ou vilão. Todos são vítimas de um sistema que empurra escolhas questionáveis. Já em Triângulo da Tristeza, Östlund parece menos interessado em empatia e mais em exposição. Seus personagens são alvos, não espelhos.

Em Parasita, ninguém é completamente inocente ou vilão/Foto: Reprodução

Os dois filmes concordam em um ponto essencial: a ideia de mérito é uma ilusão confortável. Quando as condições mudam, o poder troca de mãos com rapidez brutal. A diferença está na forma como cada diretor escolhe mostrar isso — Bong com elegância cirúrgica, Östlund com prazer provocativo.

Já em Triângulo da Tristeza, Östlund parece menos interessado em empatia e mais em exposição/ Foto: Reprodução

No fim, Parasita deixa um gosto amargo, quase melancólico, ao sugerir que a desigualdade é profunda demais para ser resolvida individualmente. Triângulo da Tristeza prefere gargalhar diante do colapso, como quem diz que talvez o sistema mereça mesmo afundar. Dois filmes, duas linguagens, a mesma constatação incômoda: a distância entre classes não é apenas econômica, é moral e rir dela não a torna menor.

Fhagner Soares — o cinema sob outro olhar.

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