Poucos filmes são tão estudados, reverenciados e, ao mesmo tempo, tão mal compreendidos quanto Psicose (1960). A obra de Alfred Hitchcock não se tornou um clássico apenas por sua famosa cena do chuveiro, mas pela maneira como subverte expectativas, manipula o olhar do espectador e redefine o que o cinema de suspense poderia ser. Justamente por isso, toda tentativa de revisitar esse universo diz menos sobre o filme original e mais sobre a época que tenta reinterpretá-lo.
Psicose original/ Foto: Reprodução
O remake de Psicose lançado em 1998, dirigido por Gus Van Sant, é talvez o experimento mais radical e controverso dessa relação com o clássico. Ao optar por refilmar o longa praticamente plano a plano, Van Sant parece propor uma experiência conceitual: o que acontece quando se copia a forma sem compreender o espírito? O resultado é um filme tecnicamente correto, mas emocionalmente vazio. A tensão, que em Hitchcock nascia do não-dito, aqui se dilui na previsibilidade. O remake prova que linguagem não é apenas enquadramento ou montagem, mas contexto, intenção e tempo histórico.
Se o filme de 1998 fracassa ao tentar reproduzir Psicose, a série Bates Motel acerta justamente por não tentar imitá-lo. Em vez de refazer a história, a série expande o universo ao transformar Norman Bates em protagonista absoluto, deslocando o foco do choque para a construção psicológica. O terror deixa de ser surpresa e passa a ser convivência: o espectador acompanha, episódio após episódio, a formação de uma mente instável.
Psicose 1998/ Foto: Reprodução
Essa mudança revela muito sobre o público contemporâneo. Enquanto Hitchcock trabalhava o suspense a partir da sugestão e da repressão, Bates Motel aposta na exposição emocional, no trauma, nas relações familiares disfuncionais e na tentativa constante de humanizar o monstro. Norman não surge pronto — ele é moldado diante dos nossos olhos. O medo não vem do desconhecido, mas da inevitabilidade.
As atuações também refletem essa diferença de abordagem. No remake de 1998, mesmo com bons intérpretes, os personagens parecem presos a uma encenação já determinada pelo original. Falta espaço para reinvenção. Já em Bates Motel, Freddie Highmore constrói um Norman Bates inquietante justamente por sua ambiguidade: frágil, afetuoso e perturbador. Vera Farmiga, como Norma, transforma a relação materna em eixo emocional da série, criando uma dinâmica tão intensa quanto desconfortável.
Bates Motel/ Foto: Reprodução
Comparar Psicose, seu remake e Bates Motel não é um exercício de escolher “qual é melhor”, mas de entender como o cinema e a televisão lidam com o legado. O filme de Hitchcock permanece intocável porque nasceu de uma ruptura. O remake de 1998 evidencia os limites da reverência excessiva. Já a série mostra que revisitar um clássico pode ser produtivo quando se aceita a transformação.
No fim, Psicose continua sendo o centro gravitacional dessa constelação. Não porque precise ser atualizado, mas porque cada nova tentativa de retorno revela algo essencial: o medo nunca é o mesmo, ele sempre reflete o tempo em que é contado.
Fhagner Soares — o cinema sob outro olhar.
