Semanas antes da operação que resultou na captura de Nicolás Maduro, o governo dos Estados Unidos já discutia quem poderia assumir o comando da Venezuela em um cenário de transição. O nome que passou a ganhar força nos bastidores da Casa Branca foi o da vice-presidente Delcy Rodríguez, uma das figuras mais influentes do chavismo e aliada histórica do antigo presidente.
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Intermediários envolvidos nas negociações relataram que Delcy foi apresentada como uma opção capaz de garantir estabilidade mínima ao país, principalmente por sua atuação à frente da política econômica e da indústria do petróleo. A avaliação era de que ela poderia proteger contratos existentes e abrir espaço para futuros investimentos americanos no setor energético.
A relação entre Nicolás Maduro e o governo Trump se deteriorou ainda mais nas semanas que antecederam sua captura. Assessores do presidente americano interpretaram atitudes públicas de Maduro como provocação, incluindo aparições em que ele ironizou ameaças dos Estados Unidos e minimizou ataques atribuídos ao país.
Segundo fontes próximas às negociações, essa postura contribuiu para a decisão de Washington de abandonar qualquer tentativa diplomática e seguir adiante com a ação militar. A recusa de Maduro em aceitar uma proposta de exílio também pesou na avaliação final.
Por que a oposição ficou de fora
A aposta em Delcy Rodríguez também significou um afastamento da principal líder da oposição, María Corina Machado. Apesar de sua vitória eleitoral em 2024 e do reconhecimento internacional, incluindo um Prêmio Nobel da Paz, Trump demonstrou pouca simpatia pela opositora.
Em declarações públicas, o presidente americano afirmou que não a considerava preparada para liderar o país e que preferia lidar com alguém que, em sua avaliação, teria mais controle sobre as estruturas de poder existentes.
Pressão mantida e sanções em vigor
Mesmo com a posse interina de Delcy, os Estados Unidos deixaram claro que a relação será pautada por condições. As sanções ao setor petrolífero venezuelano permanecem em vigor, e autoridades americanas afirmam que qualquer flexibilização dependerá das decisões tomadas pela nova liderança.
O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que Washington observará atentamente os próximos passos do governo venezuelano e que novas medidas poderão ser adotadas caso os interesses americanos não sejam respeitados.
Do lado venezuelano, o início do novo cenário político é marcado por contradições. Em pronunciamento na televisão estatal, Delcy Rodríguez acusou os Estados Unidos de invasão ilegal e reafirmou que Nicolás Maduro continua sendo o presidente legítimo do país.
Aliados avaliam que o discurso atende a uma estratégia de contenção interna, voltada a acalmar apoiadores do chavismo, setores das Forças Armadas e grupos paramilitares, ainda impactados pela ofensiva americana.
Quem é Delcy Rodríguez
Aos 56 anos, Delcy chega ao centro do poder com o perfil de uma gestora firme e experiente. Filha de um ex-guerrilheiro marxista, formada em direito e com trajetória política iniciada ainda no governo de Hugo Chávez, ela ganhou protagonismo ao assumir o controle da política econômica.
Durante os últimos anos, conduziu uma abertura gradual da economia, aproximou-se de empresários e investidores estrangeiros e conseguiu ampliar, de forma lenta, a produção de petróleo mesmo sob sanções internacionais — fator que lhe rendeu respeito, inclusive fora da Venezuela.
Apesar da imagem de tecnocrata e negociadora, Delcy nunca rompeu publicamente com práticas autoritárias do chavismo nem condenou a repressão política do governo anterior. Analistas apontam que sua capacidade de diálogo pode ajudar a reduzir tensões, mas alertam que o futuro da Venezuela segue indefinido.
Com chavistas ainda no poder, a oposição enfraquecida e os Estados Unidos exercendo forte influência, o país entra em uma nova fase marcada por incertezas, disputas internas e interesses geopolíticos em jogo.
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