O nĂvel do Rio Acre na capital acreana deu sinais de trĂ©gua nesta quarta-feira (14), mantendo total estabilidade na marca de 13,32 metros desde as 9h da manhĂŁ. Embora o monitoramento da Defesa Civil Municipal tenha registrado uma leve tendĂŞncia de vazante no inĂcio do dia, as leituras das 12h e 15h confirmaram que o volume de água estacionou. O manancial está a apenas 18 centĂmetros da cota de alerta (13,50m) e a 68 centĂmetros da cota de transbordo (14,00m).
Apesar do alento momentâneo, o coordenador da Defesa Civil, Coronel Cláudio FalcĂŁo, alerta que o cenário para as prĂłximas 48 a 50 horas Ă© de preocupação. Segundo ele, uma grande massa de água proveniente de Brasileia — que subiu 3,5 metros recentemente — alĂ©m das cheias em Xapuri e Capixaba, deve chegar Ă capital atĂ© sexta-feira, o que pode elevar drasticamente o nĂvel do rio.
“A previsão é de que ele continue enchendo, e eu vou lhe dizer quais motivos que nos levam a essa expectativa. É porque nós tivemos uma quantidade muito grande de água lá em Brasileia. Brasileia encheu 3 metros e meio, está em vazante agora, mas encheu bastante. E aà nós temos enchente também em Xapuri e Capixaba. Então o rio está estável aqui em Rio Branco, mas nas próximas 48 horas, nas próximas 50 horas, aproximadamente, ou seja, até sexta-feira, essa água deve chegar aqui, e com isso é a elevação maior do rio Acre”, explicou o coronel.
A dinâmica de transbordamento dependerá de uma possĂvel vazante antes da chegada das águas do interior. FalcĂŁo ressalta que, se o rio permanecer estável como está agora, o transbordo será inevitável assim que o volume de Brasileia atingir Rio Branco.
“Isso vai depender exclusivamente se a gente, por exemplo, hoje, que Ă© quarta-feira ainda, se a gente começar a ter uma vazante. O rio nĂŁo está em vazante, vocĂŞ viu que está estável. Ele tem uma vazante mĂnima na madrugada de 4 centĂmetros e aĂ ele se mantĂ©m estável de 6 horas, 9 horas, meio-dia, 15 horas. EntĂŁo, se ele permanecer dessa maneira, quando chegar a água lá de Brasileia, ele vai transbordar”, destacou.
O coronel ainda pondera sobre cenários mais raros: “Agora, se por acaso a gente tiver uma modificação no cenário, que o rio comece a esvaziar um pouquinho, digamos que ele tenha uma vazante atĂ© sexta-feira, que Ă© muito raro isso acontecer, de 1 metro. É raro, mas nĂŁo Ă© impossĂvel. E quando a água de Brasileia chegar, de Xapuri e tudo mais, a gente tem calha. E como ele nĂŁo está na cota de alerta ainda, está faltando 18 centĂmetros, e para a cota de transbordamento ser 68 cm, se ele tiver vazante, nĂłs temos a possibilidade de ele nĂŁo transbordar. Mas se por acaso ele nĂŁo tiver vazante, aĂ praticamente teremos esse transbordamento”.
Preparo da rede de abrigos e previsĂŁo de chuvas
Diante da iminĂŞncia de uma cheia, a prefeitura já estruturou a logĂstica de acolhimento. O Parque de Exposições está limpo e conta com 74 abrigos prontos, capazes de ser ativados em cerca de 12 horas. O coronel garante que a estrutura atual Ă© suficiente para atender desabrigados atĂ© que o rio atinja a marca de 15,50 metros.
“Eles já estĂŁo construĂdos. NĂłs temos 74 abrigos prontos, construĂdos, o parque de Exposições está limpo, ele está todo estruturado. Na questĂŁo do parque, para ele ser ativado, a gente consegue ativar ele em torno de 12 horas. Vou te colocar um dia. Eu quero ativar ele, amanhĂŁ eu consigo ativar. Eu levo as secretarias que faltam para dentro, a gente faz de novo uma limpeza rápida, deixa tudo pronto”, detalhou FalcĂŁo.
O coordenador explicou ainda a flexibilidade do sistema: “EntĂŁo, em questĂŁo de horas, ele vai estar pronto para receber pessoas, o parque de exposição. AtĂ© o rio chegar em 15 metros e meio, digamos assim, esses 74 abrigos que nĂłs temos lá Ă© suficiente para as pessoas desabrigadas pelo rio Acre. Agora, se simultaneamente ao rio tiver enxurrada, aĂ nĂłs nĂŁo temos abrigos suficientes. Mas isso Ă© algum problema? No, nĂŁo Ă© problema. Porque em tempo rápido, a gente consegue construir mais 50, mais 100. EntĂŁo, nĂłs estamos bem preparados para isso”.
O cenário meteorológico também não é favorável. A previsão indica chuvas diárias para Rio Branco, o que agrava o estado de encharcamento do solo, que já atinge 90%.
“Todos os dias, Ă©. NĂłs temos previsĂŁo de todos os dias de chuva. Inclusive hoje, que já choveu em alguns locais. Deve chover mais ainda agora atĂ© o final da tarde em alguns locais. Mas nĂŁo estou falando daquela chuva que vai chover em todos os pontos do municĂpio. Mas nĂłs temos previsĂŁo de chuva para todos os dias. O que eu nĂŁo posso precisar agora Ă© o volume. Mas que tem possibilidade de chuva, sim. Mesmo que nĂŁo seja no territĂłrio total, como aconteceu segunda-feira. Mas tem previsĂŁo de chuva para todo dia”, afirmou.
Risco de repetição do fenômeno de 2025
A Defesa Civil nĂŁo descarta que o fenĂ´meno raro registrado em dezembro de 2025 se repita nos primeiros meses de 2026. Com chuvas já acima da mĂ©dia para o perĂodo, o coronel prevĂŞ um trimestre de alta tensĂŁo, com o risco de o Rio Acre transbordar mĂşltiplas vezes no mesmo perĂodo.
“Totalmente possĂvel. Totalmente. NĂłs já temos mais chuva do que o esperamos para todo mĂŞs. É uma diferença de 2 a 3 milĂmetros a mais. Mas hoje Ă© dia 14. EntĂŁo, o que significa? Tudo está se encaminhando para se repetir o que aconteceu em dezembro. E tambĂ©m tudo está se encaminhando para repetir em fevereiro o que acontece em janeiro. Tudo está se encaminhando para acontecer em março o que acontece em fevereiro. EntĂŁo, o que nĂłs trabalhamos agora Ă© que todo mĂŞs a gente vai ter chuvas acima da mĂ©dia. EntĂŁo, com isso fica bem complicado”, alertou.
FalcĂŁo finaliza explicando que a população pode enfrentar um ciclo de “sobe e desce” das águas:
“NĂłs temos 90% de encharcamento e umidade do solo, que Ă© outro fator que agrava. EntĂŁo, por isso, a gente vai passar 3 meses de muita tensĂŁo, digamos assim. EntĂŁo, sĂŁo 3 meses tambĂ©m de risco iminente de alagação. Incluindo a possibilidade de ter uma inundação, voltar, sair da inundação e voltar de novo para a inundação. Isso pode acontecer. EntĂŁo, nesses 3 meses pode acontecer de sair e voltar de alagação pelo menos 3 vezes. Eu nĂŁo diria 3 vezes, mas mais de uma vez”.
O coronel concluiu reforçando a imprevisibilidade do mĂŞs de janeiro: “Porque assim, olha sĂł, nĂłs estamos beirando aĂ um transbordamento. Eu te falei que se nada acontecer de diferente, Ă© possĂvel que essa semana, no final de semana, inĂcio da semana, transborde. SĂł que nĂłs estamos no mĂŞs de janeiro. NĂŁo existe assim um transbordamento, pelo menos nĂŁo está registrado em nenhum lugar, de o rio ficar alagado 3 meses. EntĂŁo, o que pode acontecer? Agora, janeiro, ele transborda, ele fica 5, 6, 10 dias transbordado, acima da cota de transbordamento. Ele vai sair dessa cota, ele vai voltar para uma outra cota de 10 metros, de 9 e tal. SĂł que nĂłs temos fevereiro, março pela frente. EntĂŁo, aĂ o que acontece? Começa a chuva e ele transborda outra vez. EntĂŁo, agora eu nĂŁo posso dizer para vocĂŞ. Pode nĂŁo acontecer nada disso? Pode tambĂ©m, nĂ©? Mas sĂŁo previsões que a gente tem. Agora, pode ser que ele transborde a segunda vez? Sim. Mas assim, nada que a gente consiga afirmar”.






