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Streaming da Semana: O Último Azul prova que a ficção científica brasileira pode ser íntima, poética e profundamente humana

Por Fhagner Soares, ContilNet

O Último Azul chegou à Netflix como uma das surpresas mais interessantes do cinema nacional recente: uma obra que utiliza elementos clássicos de ficção científica para aprofundar questões muito humanas, sem abrir mão da sensibilidade estética e da imaginação. Estrelado por Denise Weinberg e com participação de Rodrigo Santoro, o filme constrói um universo próximo o suficiente para nos inquietar e distante o bastante para nos fazer pensar nas escolhas que fazemos ao longo da vida e nas que deixamos de fazer.

O Ultimo Azul/ Foto: Reprodução

Ambientado em um Brasil distópico disposto a exilar seus idosos em colônias “de bem‑estar”, O Último Azul usa essa premissa como metáfora para discutir autonomia, envelhecimento e dignidade. Tereza, a protagonista de 77 anos, não é apenas uma figura que desafia uma lei absurda, ela personifica a resistência contra a invisibilidade social que muitos associam à velhice.

O filme não entrega respostas fáceis. A jornada de Tereza, que se aventura pelos rios da Amazônia em busca de seu último desejo, encontra personagens que parecem saídos tanto de uma fábula quanto de realidades que nós mesmos vivemos ou conhecemos. Essa ambiguidade entre o real e o fantástico é um dos principais trunfos do roteiro. Gabriel Mascaro constrói um ambiente no qual a fantasia e a metáfora caminham lado a lado: a narrativa pode ser lida como uma fábula de amadurecimento, mas também como um comentário agudo sobre o modo como tratamos as pessoas mais velhas na sociedade contemporânea.

Ambientado em um Brasil distópico disposto a exilar seus idosos em colônias “de bem‑estar”/ Foto: Reprodução

Visualmente, o filme encontra força em sua ambientação. A Amazônia e seus ambientes naturais não são apenas cenários: tornam‑se personagens silenciosos que influenciam a jornada de Tereza e, por extensão, a nossa leitura emocional. A escolha de continuar a narrativa basicamente a partir do olhar da protagonista cria uma intimidade rara em filmes de gênero aqui, a ficção científica não está nos efeitos, mas na forma como respeita o tempo, a memória e o desejo de alguém que ainda tem muito para viver.

No centro de tudo está Denise Weinberg, cuja performance equilibra humor, melancolia e firmeza. Seu retrato de Tereza reflete mais do que resistência física contra um sistema opressor: ela encarna a força interior de alguém que recusa ser definida por um rótulo seja de idade, de papel social ou de limitação.

No centro de tudo está Denise Weinberg, cuja performance equilibra humor, melancolia e firmeza/ Foto: Reprodução

O Último Azul dialoga com filmes que exploram o deslocamento e a liberdade como metáfora existencial, mas o faz com um olhar muito próprio: não busca espetacularizar o futuro, e sim usar esse futuro para questionar como vivemos o presente. A distopia que vemos ali uma política estatal que decide sobre os corpos e destinos alheios não está tão distante da realidade que muitos preferem ignorar.

O Último Azul dialoga com filmes que exploram o deslocamento e a liberdade como metáfora existencial, mas o faz com um olhar muito próprio/ Foto: Reprodução

Mais do que uma ficção científica brilhante ou uma obra premiada, este é um filme que convida o espectador a revisitar seus próprios limites, seus desejos e sua própria maneira de ver o mundo. E faz isso com sensibilidade, poesia e força narrativa, mostrando que o cinema brasileiro tem espaço e voz no diálogo global sobre quem somos e o que ainda podemos ser.

Fhagner Soares — o cinema sob outro olhar.

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