Há filmes que chegam ao streaming quase em silêncio e, quando se percebe, já estão ocupando a conversa Anatomia de uma Queda é exatamente esse caso. À primeira vista, o longa dirigido por Justine Triet se apresenta como um thriller judicial clássico: uma morte suspeita, uma mulher acusada, um tribunal tentando reconstruir os fatos. Mas a força do filme está em como ele se recusa a entregar respostas fáceis.

Anatomia de uma Queda/ Foto: Reprodução
O julgamento funciona menos como um espaço de justiça e mais como um palco onde uma relação inteira é desmontada em público. Cada depoimento, cada gravação e cada detalhe doméstico apresentado em tribunal não serve apenas para determinar culpa ou inocência, mas para expor camadas de um casamento marcado por frustrações, disputas de poder e ressentimentos mal resolvidos. O crime, em si, nunca é o verdadeiro centro.
Justine Triet constrói a narrativa de forma fria e precisa, evitando qualquer trilha sonora manipuladora ou soluções dramáticas evidentes. A câmera observa, muitas vezes à distância, como se também estivesse julgando não os fatos, mas as pessoas. Essa escolha reforça a ambiguidade moral do filme e coloca o espectador numa posição desconfortável: a de ter que formar uma opinião sabendo que nunca terá acesso à verdade completa.

Justine Triet constrói a narrativa de forma fria e precisa, evitando qualquer trilha sonora manipuladora ou soluções dramáticas evidentes./ Foto: Reprodução
A atuação de Sandra Hüller é o eixo que sustenta essa tensão. Sua personagem nunca se oferece totalmente ao público, nem tenta conquistar empatia fácil. Há dureza, ironia, cansaço e contradição em cada gesto, tornando impossível classificá-la de forma simples. O filme entende que pessoas reais não se comportam como personagens exemplares — e aposta nisso até o fim.

O julgamento funciona menos como um espaço de justiça e mais como um palco onde uma relação inteira é desmontada em público/Foto: Reprodução
Outro elemento decisivo é a presença do filho do casal, que transforma o julgamento num espaço ainda mais delicado. O olhar infantil, limitado e ao mesmo tempo profundamente afetado pelas decisões dos adultos, adiciona uma camada ética poderosa ao filme. Não se trata apenas de descobrir o que aconteceu, mas de entender o impacto das narrativas que escolhemos acreditar.

Sandra Hüller / Foto: Reprodução
Anatomia de uma Queda se destaca justamente por não entregar catarse. Ele termina como começou: cercado de dúvidas, silêncios e interpretações possíveis. É esse desconforto que o torna tão potente tão adequado para aquele sábado em que o play aperta, o filme acaba, mas a discussão continua muito depois dos créditos.
Fhagner Soares — o cinema sob outro olhar.
