Vídeo de Serginho Groisman volta a repercutir após polêmica sobre projeto contra cotas em Santa Catarina

Trecho de entrevista em que apresentador questiona estudante sobre presença de alunos negros volta a circular nas redes sociais

Um vídeo antigo do apresentador Serginho Groisman voltou a circular com força nas redes sociais nos últimos dias, em meio à polêmica envolvendo um projeto apresentado em Santa Catarina que propõe proibir vagas de cotas raciais para pessoas negras nas universidades estaduais.

Trecho de entrevista em que apresentador questiona estudante sobre presença de alunos negros volta a circular nas redes sociais/Foto: Reprodução

Nas imagens, Groisman entrevista um estudante que se declara contrário às cotas para negros. Durante a conversa, o apresentador conduz uma reflexão ao questionar quantos alunos negros há na sala de aula do jovem. O estudante responde que apenas dois colegas são negros, o que leva o apresentador a aprofundar o debate sobre desigualdade racial e acesso ao ensino superior.

O trecho tem sido amplamente compartilhado como forma de contextualizar e rebater argumentos contrários às políticas de ações afirmativas, reacendendo discussões sobre representatividade, equidade e racismo estrutural no Brasil.

A repercussão do vídeo ganhou novo fôlego após a proposta em Santa Catarina gerar críticas de especialistas, movimentos sociais e parlamentares, que apontam retrocesso nas políticas públicas voltadas à inclusão e à reparação histórica no acesso à educação.

Nas redes sociais, internautas têm resgatado o conteúdo como exemplo de como o debate sobre cotas exige análise da realidade social e dos dados de desigualdade, indo além de opiniões individuais.

Entenda

A Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc) aprovou o projeto de lei em dezembro de 2025, que foi sancionado pelo governador do estado, Jorginho Mello, na forma da Lei nº 19.722/2026, e publicado no Diário Oficial do estado nesta sexta-feira.

De acordo com a lei, universidades públicas estaduais e outras instituições de ensino superior que recebem recursos do governo do estado ficam proibidas de adotarem políticas de reserva de vagas ou qualquer forma de cota ou ação afirmativa, como vagas suplementares e medidas congêneres. A proibição vale para o ingresso de estudantes e de funcionários nos quadros, incluindo professores.

Brasília-DF – 04.07.2023 – O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, durante entrevista coletiva, após reunião com parlamentares para tratar da reforma tributária, no B Hotel em Brasília . Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, sancionou a lei que proíbe cotas raciais em universidades do estado – Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A lei admite exceções, como a reserva de vaga por critérios exclusivamente econômicos, para pessoas com deficiência e estudantes vindos da rede pública estadual.

As punições previstas para quem descumprir a nova legislação são multa de R$ 100 mil por edital e corte de repasses públicos.

Uma das instituições afetadas pelo texto é a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), que tem cerca de 14 mil alunos distribuídos em mais de 60 cursos de graduação e em mais de 50 mestrados e doutorados. A proibição de cotas não vale para instituições federais, como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O autor do projeto, o deputado Alex Brasil (PL), afirma que a adoção de cotas fundadas em outros critérios, que não o estritamente econômico ou de origem estudantil em escolas públicas, “suscita controvérsias jurídicas e pode colidir com os princípios da isonomia e da impessoalidade, ao criar distinções que não necessariamente refletem situações de desvantagem”.

Repercussão

A Lei de Cotas vigora no âmbito federal desde 2012 (Lei nº 12.711/2012) e prevê 50% das vagas em universidades e institutos federais para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas, incluindo critérios de renda, raça (pretos, pardos, indígenas e quilombolas) e pessoas com deficiência.

Em alguns estados, como no Rio de Janeiro, há leis específicas para universidades estaduais.

Em julgamento no ano de 2012, o STF decidiu pela constitucionalidade da política de cotas para negros e indígenas nas universidades. Os ministros julgaram o caso da Universidade de Brasília (UnB), que foi a primeira instituição federal a implementar políticas de ação afirmativa para estudantes negros e indígenas.

“A regra tem o objetivo de superar distorções sociais históricas, com base no direito à igualdade material e no princípio da proporcionalidade”, define o resultado do julgamento.

A dirigente do Movimento Negro Unificado em Santa Catarina, Vanda Pinedo, lembrou que, antes da política de cotas, o número de estudantes negros na universidade era quase insignificante.

“Essa ausência não se dava tão somente por uma falta de qualificação, como eles [contrários às cotas] costumam falar, por uma falta de preparo da juventude negra, ela se dá pela questão do acesso. E ao suspender a política de cotas, nós voltamos para esse quadro de não ter mais uma equiparação da política de equidade”, disse, em entrevista ao jornal Repórter Brasil, da TV Brasil.

Para o professor de direito constitucional da Universidade Federal Fluminense Gustavo Sampaio, o tema ainda é controverso. Segundo ele, os juristas federalistas defendem que, o fato de o STF ter declarado a constitucionalidade não impede que os estados vedem a possibilidade de cotas.

Por outro lado, juristas mais vinculados à base dos direitos fundamentais, entendem que, uma vez que a Suprema Corte fixou esse entendimento favorável às cotas, que qualquer ação em sentido contrário viola o princípio da proibição do retrocesso.

“Porque a jurisprudência já teria evoluído no sentido de garantir a acessibilidade às cotas raciais, fazendo, portanto, equidade histórica diante das desigualdades historicamente confirmadas no trajeto evolutivo do Brasil desde a colônia”, explicou Sampaio, também em entrevista à TV Brasil.

Agência Brasil

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