ApĂłs 20 anos, roubo de obras de Monet, Picasso e DalĂ­ prescreve no Rio

Por AgĂȘncia Brasil 21/02/2026 Ă s 17:42


Logo AgĂȘncia Brasil

Sexta-feira de Carnaval, 24 de fevereiro de 2006. Enquanto as ladeiras sinuosas de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, são tomadas por sons de marchinhas e sambas tradicionais, um grupo de homens carrega nos braços quadros de Claude Monet, Salvador Dalí, Pablo Picasso e Henri Matisse.Após 20 anos, roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí prescreve no RioApós 20 anos, roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí prescreve no Rio

Era dia de apresentação do Bloco das Carmelitas, mas a cena nĂŁo fazia parte da festa. Ali, em meio Ă  uma multidĂŁo de foliĂ”es, acontecia aquele que Ă© considerado um dos maiores roubos de obras de arte do Brasil e um dos dez maiores do mundo, segundo o FBI – principal departamento de investigação dos Estados Unidos.

NotĂ­cias relacionadas:

Eu estava lĂĄ no dia. Os policiais tentavam passar pelo bloco e nĂŁo conseguiam, porque a gente jogava latinha neles. NinguĂ©m tinha ideia do que estava acontecendo. A gente pensava que era algo acontecendo dentro do prĂłprio Carmelitas, como furto ou outra confusĂŁo”, lembra o produtor Daniel Furiati.

Os criminosos pularam os muros do Museu da Chåcara do Céu e sumiram pelas ruas do bairro com cinco peças. Juntas, elas valiam mais de US$ 10 milhÔes na época (R$ 52 milhÔes, na conversão atual). As obras e os assaltantes jamais foram encontrados.

Passados 20 anos, o crime prescreve oficialmente nesta semana e os responsĂĄveis pelo roubo nĂŁo poderĂŁo mais ser punidos.

Suspeitos

Nesse tempo todo, trĂȘs nomes figuraram na lista de suspeitos principais do crime. A primeira linha de investigação envolveu Paulo GessĂ©, dono de uma kombi branca, em que pelo menos uma das obras de arte teria sido transportada. A polĂ­cia suspeitava que ele fosse cĂșmplice de outros quatro assaltantes.

A delegada responsåvel pelo caso grampeou o celular do motorista, mas não conseguiu que as ligaçÔes fossem gravadas no banco de dados da corporação. Ela decidiu, então, registrar tudo manualmente.

GessĂ© chegou a ter a residĂȘncia vasculhada e a ser preso por alguns dias. A Justiça, porĂ©m, entendeu que nĂŁo havia nada de concreto para tornĂĄ-lo rĂ©u e determinou que ele fosse solto.

DenĂșncias anĂŽnimas adicionaram mais dois homens Ă  lista. Michel Cohen, negociador francĂȘs de pinturas, acusado nos Estados Unidos de obter US$ 50 milhĂ”es em operaçÔes fraudulentas.

Em maio de 2003, portanto antes do crime, Cohen chegou foi preso pela Interpol no Rio de Janeiro, mas conseguiu fugir em dezembro do mesmo ano. A suspeita é de que ele também estivesse envolvido no caso da Chåcara do Céu em 2006.

O francĂȘs permaneceu com paradeiro desconhecido por dezesseis anos e sĂł foi reaparecer publicamente quando aceitou fazer parte do documentĂĄrio O Golpe de Arte de 50 MilhĂ”es de DĂłlares, exibido em 2019 pela BBC. As Ășltimas informaçÔes disponĂ­veis dĂŁo conta de que continue escondido da Interpol.

Outro francĂȘs, o artesĂŁo radicado no Brasil Patrice Rouge tambĂ©m foi incluĂ­do como suspeito. Dois endereços atribuĂ­dos a ele no Rio de Janeiro foram alvo de diligĂȘncias policiais. As residĂȘncias, no entanto, estavam vazias e os agentes nunca mais voltaram.
 


Rio de Janeiro - FoliĂ”es desfilam no Bloco das Carmelitas, que percorre o bairro turĂ­stico de Santa Teresa (Fernando FrazĂŁo/AgĂȘncia Brasil)

Bloco das Carmelitas, que percorre o bairro turĂ­stico de Santa Teresa. Os assaltantes carregaram as obras roubadas em meio ao bloco carnavalesco, em 2006 – Fernando FrazĂŁo/AgĂȘncia Brasil

Entrevista exclusiva

Ele nunca prestou depoimento Ă  PolĂ­cia Federal, tampouco se manifestou publicamente sobre a denĂșncia, atĂ© hoje.

Vinte anos depois, Patrice Rouge decidiu falar pela primeira vez. Em entrevista exclusiva Ă  AgĂȘncia Brasil, negou qualquer participação no roubo. Ele atendeu a reportagem por telefone, direto de sua residĂȘncia atual em Avignon, cidade histĂłrica da regiĂŁo da Provence, no Sudeste da França.

“Essa histĂłria toda Ă© completamente absurda. Uma pessoa faz uma denĂșncia anĂŽnima e o meu nome Ă© jogado no meio de tudo isso”, reclama Rouge.

“Eu estava na França quando ouvi falar desse roubo pela primeira vez. O meu advogado me ligou e disse que eu estava sendo acusado. Imagina a minha cara? Eu perdi o chão. Isso me prejudicou muito”, relata.

Rouge conta que veio parar no Brasil em 1974, durante um passeio de volta ao mundo com amigos. Conheceu um homem que o apresentou ao mercado de joias antigas.

Ele, então, decidiu ficar no país, para decepção dos amigos, que seguiram viagem. Depois, chegou a trabalhar com restauração de peças de antiguidade.

Nesse período, era proprietårio de uma casa em Santa Tereza, bem próxima ao Museu da Chåcara do Céu. Esse fato, na época das investigaçÔes, aumentaram as suspeitas. Ele, no entanto, garante que nunca sequer entrou no museu.

Rouge conta que voltou, definitivamente, para a França no ano de 2005, mas que retornou com frequĂȘncia ao Brasil, nesses Ășltimos 20 anos, para visitar a filha e o neto, que vivem no Rio de Janeiro. Ele estĂĄ prestes a completar 77 anos.

“Se eu fosse uma pessoa culpada, por que faria isso? Se uma pessoa tivesse culpa no cartĂłrio, como se diz no Brasil, faria tudo para se esconder. A Ășltima vez que estive no Rio foi em 2025. Fui na PolĂ­cia Federal, no aeroporto do GaleĂŁo. Pedi uma lista das minhas entradas no Brasil para ter esse documento comigo”, diz Rouge.

“Quando um criminoso Ă© procurado pela Interpol, ele vai ser caçado em qualquer lugar do mundo. Eu nunca tive problemas com a Justiça, seja na França, seja no Brasil”, complementa.

Arte do descaso

Em 2011, a jornalista Cristina Tardåguila decidiu investigar o caso. As informaçÔes que reuniu viraram livro: A Arte do Descaso, publicado em 2015.

O tĂ­tulo resume a principal conclusĂŁo da autora: de que houve um desinteresse institucional generalizado em solucionar o crime.

“Houve descaso da diretoria do museu Ă  Ă©poca, descaso do governo federal, do MinistĂ©rio da Cultura, da polĂ­cia e da mĂ­dia que se esqueceu de acompanhar o assunto”, critica a jornalista.

“Nesse perĂ­odo todo de pesquisa para o livro, nĂŁo encontrei ninguĂ©m efetivamente engajado. É uma falĂȘncia da proteção dos bens culturais do Brasil.”

No livro, a jornalista descreve uma sequĂȘncia de erros e negligĂȘncias. Ela conta que a primeira patrulha da PolĂ­cia Militar sĂł conseguiu chegar ao museu meia hora depois do roubo, tempo de reação trĂȘs vezes superior Ă  mĂ©dia registrada na Europa.

Quando a PF chegou ao local, pelo menos trinta pessoas haviam circulado pelo museu, sem o cuidado de preservar eventuais provas.

A PF emitiu um comunicado para as equipes localizadas nos principais portos e aeroportos do Rio de Janeiro e de São Paulo. O fax, no entanto, não tinha fotografia das obras, não descrevia as dimensÔes, as cores ou o tipo de moldura, nem listava a totalidade das peças. Duas sequer foram citadas no comunicado.

No momento do roubo, nove pessoas, entre guardas e visitantes, foram feitas refĂ©ns. TrĂȘs delas nunca foram ouvidas pela polĂ­cia durante as investigaçÔes.

Cristina Tardåguila também critica a estrutura da PF, à época, concentrava em um mesmo departamento dois tipos de crimes completamente diferentes: a Delegacia de Repressão ao Crime contra o Meio Ambiente e o PatrimÎnio Histórico (Delemaph).

Na época, também não havia um banco de dados sobre as obras de arte roubadas no país. O Cadastro Nacional de Bens Musealizados Desaparecidos (CBMD) só seria criado anos depois, em 2013, por meio do decreto Decreto 8.124.

A jornalista conta que um dos momentos mais emblemĂĄticos de “descaso” ocorreu em uma visita que fez ao MinistĂ©rio PĂșblico Federal (MPF) em junho de 2014. O procurador ligou para a PF para saber como estava o andamento das investigaçÔes e foi informado que o inquĂ©rito policial havia desaparecido.

O inquérito policial IPL 2006.51015138422 só seria encontrado novamente no fim de 2015, entre pilhas de papel que chegavam diariamente à Polícia Federal.

A AgĂȘncia Brasil entrou em contato com o MPF para saber se o inquĂ©rito teve alguma movimentação nova depois de 2015.

A resposta foi que “devido à falta de autoria definida, o processo criminal principal permaneceu em fase de investigação e foi arquivado provisoriamente”.

Em outras palavras, ficou suspenso Ă  espera de novidades. A data deste arquivamento nĂŁo consta no sistema do MPF.

A Polícia Federal não respondeu aos pedidos de informação sobre o inquérito.


Rio de Janeiro (RJ), 21/02/2026 - Museu Chåcara do Céu. Foto: Museu Chåcara do Céu/Divulgação

Museu ChĂĄcara do CĂ©u, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro – Museu ChĂĄcara do CĂ©u/Divulgação

Reforço na segurança

A reportagem da AgĂȘncia Brasil esteve no Museu ChĂĄcara do CĂ©u na vĂ©spera do desfile do Carmelitas para observar se houve mudanças no sistema de segurança. NĂŁo foi possĂ­vel fazer a visita no dia exato do bloco.

Desde 2007, o museu fecha nos dias da folia e sempre que hĂĄ desfiles de outros blocos em Santa Tereza.

Em 2006, na tarde do roubo, apenas trĂȘs seguranças estavam de plantĂŁo. Havia cĂąmeras de vigilĂąncia, mas as imagens ficavam gravadas exclusivamente em fitas cassete, sem monitoramento remoto. Todas as fitas foram levadas pelos criminosos.

Na visita da reportagem em 2026, eram pelo menos cinco seguranças, dois na guarita e trĂȘs no interior do prĂ©dio principal. Todos os corredores e as salas com obras de arte tĂȘm monitoramento por cĂąmeras, assim como os arredores do prĂ©dio principal, portaria e estacionamento.

Segundo a diretora do museu Vivian Horta, que estå no cargo desde 2024, a segurança tornou-se uma das prioridades.

“Nosso sistema de cĂąmeras Ă© bem moderno. Foi todo atualizado hĂĄ cerca de dois anos. Tem monitoramento 24 horas, sete dias por semana, com gravação tambĂ©m. Toda a equipe de vigilĂąncia Ă© treinada e o roubo Ă© citado como referĂȘncia.”

“A equipe administrativa tem procedimentos padronizados para controlar a circulação de visitantes e pesquisadores no museu, a entrada de carros. E temos um contato bem estreito com a polícia e a Guarda Municipal. Eles são sempre chamados quando vemos alguma movimentação suspeita”, complementa.

As obras


Rio de Janeiro (RJ), 21/02/2026 - Roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí no Rio prescreve após 20 anos. Foto: CBMD/Divulgação

Marine, de Claude Monet – CBMD/Divulgação

O Museu da ChĂĄcara do CĂ©u existe desde 1972. Antes disso, o prĂ©dio serviu de residĂȘncia para o empresĂĄrio e colecionador Raymundo Ottoni de Castro Maya atĂ© sua morte. Desde 1983, a instituição Ă© administrada pelo MinistĂ©rio da Cultura.

As cinco obras roubadas em 2006 estavam entre as mais valiosas do acervo. A primeira era a pintura em óleo sobre tela de Claude Monet, com o título Marine (Marinha).  Em tons pastel, retratava um litoral montanhoso e inabitado.

A segunda peça era Le Jardin du Luxembourg (O jardim de Luxemburgo), óleo pintado por Henri Matisse que retratava um parque arborizado e colorido. Trazia årvores altas, de copas amareladas, e um caminho de terra ou areia entre elas. Ao centro, um pedestal (imagem em destaque).


Rio de Janeiro (RJ), 21/02/2026 - Roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí no Rio prescreve após 20 anos. Foto: CBMD/Divulgação

La Danse, de Pablo Picasso Divulgação – CBMD/Divulgação

A terceira era La Danse (A dança), óleo sobre tela pintado por Pablo Picasso. O quadro trazia quatro silhuetas de crianças dançando ao som de um trompete tocado por um adulto. Todos estão ao ar livre, em uma floresta de årvores grandes.

A quarta obra Ă© o Ăłleo sobre madeira que Salvador DalĂ­ chamou de Homme d’une Complexion Malsaine Écoutant le Bruit de la Mer sur les Deux Balcons (Homem de aparĂȘncia doentia escutando o barulho do mar sobre duas varandas). A obra mostrava dois edifĂ­cios paralelos com dois homens olhando pela janela, um em cada prĂ©dio.

A quinta peça era o livro de gravuras Toros (Touros), com quinze pranchas soltas de ilustraçÔes feitas por Picasso.

PatrimĂŽnio pĂșblico

Especialista em artes visuais e perito em reconhecimento de obras de arte para a Receita Federal, Helder Oliveira entende que o roubo representou uma perda cultural nĂŁo apenas para o museu, mas para toda a sociedade.

“Temos outras coleçÔes particulares que nunca se tornaram pĂșblicas. Essas obras estavam disponĂ­veis para todas as pessoas contemplarem e estudarem. Eram inĂșmeras possibilidades de educação e de pesquisa”, diz Helder.

“É preciso reforçar que essas pinturas eram Ășnicas. NĂŁo vamos ter outras iguais. NinguĂ©m vai poder ver aquele Matisse, Picasso, DalĂ­ e Monet especĂ­ficos. O que se roubou foi um patrimĂŽnio do paĂ­s”, completa.

Helder Oliveira destaca que casos como o da Chåcara do Céu apontam para a necessidade de mudanças estruturais no país.

“Precisamos de polĂ­ticas pĂșblicas que valorizem mais nosso patrimĂŽnio cultural. Muitas vezes, o roubo tem a ver com falta de manutenção e de segurança, porque nĂŁo hĂĄ verba. TambĂ©m precisamos investir em uma polĂ­cia dedicada exclusivamente ao tema, o que, infelizmente nĂŁo existe ainda”, diz o especialista.

Para a jornalista Cristina Tardåguila, também é preciso que as autoridades mudem a forma como hierarquizam os crimes. Ela diz que policiais e políticos tratam com desdém roubos de arte porque não costumam ter homicídios, porque entendem a arte como supérflua e porque as vítimas são vistas como membros da elite.

“AlĂ©m do valor cultural pĂșblico, artes roubadas tambĂ©m costumam alimentar outros tipos de crime. Obras podem servir de moedas de troca. Um quadro do Picasso pode comprar rifles; um Monet, determinadas quantidades de cocaĂ­na, por exemplo. NĂŁo Ă© normal que essas obras roubadas sejam vendidas diretamente no mercado aos olhos de todos”, explica.
 


Rio de Janeiro (RJ), 21/02/2026 - Roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí no Rio prescreve após 20 anos. Foto: CBMD/Divulgação

Obra Homme d’une Complexion Malsaine Écoutant le Bruit de la Mer sur les Deux Balcons, de Salvador DalĂ­ – CBMD/Divulgação

O crime nas telonas

O interesse pĂșblico pelo tema deve ganhar novo fĂŽlego por causa do cinema. A Caribe ProduçÔes estĂĄ Ă  frente do projeto de um longa-metragem ficcional baseado no livro A Arte do Descaso.

O roteiro contou com apoio da Warner Bros e estå em fase de captação de financiamento. A expectativa é de que comece a ser produzido ainda este ano.

Um dos envolvidos Ă© o produtor Daniel Furiati, que no inĂ­cio desta reportagem falou sobre a experiĂȘncia de estar no bloco Carmelitas em 2006, no dia do crime.

“Um dos nossos compromissos Ă© nĂŁo glamourizar o roubo de arte, sabendo que ele se articula com uma sĂ©rie de outros crimes. Acho que o filme pode trazer uma nova luz sobre o caso. O fato de estar perto da prescrição diz muito sobre o nosso paĂ­s”, reflete Daniel.

Para o Museu Chåcara do Céu, o histórico infrutífero das investigaçÔes e a prescrição do crime não representam o capítulo final do mistério de vinte anos.

“É Ăłbvio que a ausĂȘncia dessas obras nĂŁo deixa de ser sentida. PorĂ©m, a gente reconhece que a nossa missĂŁo institucional nĂŁo sofre prejuĂ­zo. Essas obras continuam fazendo parte da histĂłria e do legado de Castro Maya”, diz a diretora do museu.

“A prescrição tambĂ©m nĂŁo Ă© um Ăłbice para que essas obras sejam encontradas. A gente tem a expectativa de que elas voltem para o museu. A gente nĂŁo perde essa esperança”, diz a diretora da ChĂĄcara do CĂ©u.

 

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.