Quando o streaming se consolidou como principal forma de consumo audiovisual, a narrativa dominante era otimista: mais acesso, mais diversidade, mais liberdade para o espectador. E, de fato, nunca foi tão fácil encontrar filmes de diferentes países, épocas e estilos. Mas, junto com essa democratização, veio uma pergunta incômoda que cresce a cada ano: assistir filmes ainda é uma experiência ou virou apenas mais um hábito automático?
Plataformas de Streaming/ Foto: Reprodução
O conforto venceu. Assistir a um filme hoje significa pausar, voltar, adiantar, checar o celular, responder mensagens, dividir a atenção com notificações. O ritual da sala escura, do silêncio coletivo e da entrega total foi substituído por um consumo fragmentado, muitas vezes distraído. O filme continua lá, mas o espectador já não está inteiro.
O streaming não matou o cinema, mas mudou profundamente sua lógica. Plataformas passaram a tratar filmes como “conteúdo”, organizados por categorias, tempo de retenção e potencial de engajamento. A pergunta deixou de ser “o que esse filme provoca?” e passou a ser “quanto tempo ele segura o espectador antes do próximo clique?”. A experiência dá lugar à performance.
Catálogos de filmes/ Foto: Reprodução
Isso afeta também a forma como os filmes são feitos. Narrativas mais diretas, aberturas chamativas, conflitos antecipados, tudo para evitar que o espectador abandone a obra nos primeiros minutos. Não é necessariamente um empobrecimento criativo, mas é uma adaptação clara a um novo tipo de consumo, menos paciente e mais ansioso.
Por outro lado, culpar apenas o streaming seria simplista. Ele também salvou filmes que jamais chegariam ao circuito comercial tradicional, deu espaço a cinematografias marginalizadas e permitiu que obras menores encontrassem público. O problema não é a ferramenta, mas a relação que construímos com ela.
As inúmeras opções existentes/ Foto: Reprodução
Assistir a um filme exige disponibilidade emocional e atenção, duas coisas cada vez mais raras em um cotidiano acelerado. Quando tudo compete pelo nosso tempo, o cinema perde sua força justamente porque pede o oposto: pausa. Talvez o esvaziamento da experiência não esteja na tela, mas na nossa dificuldade crescente de permanecer.
O streaming não acabou com o cinema nem o salvou sozinho. Ele apenas revelou algo desconfortável: não basta ter acesso ilimitado a filmes se já não sabemos mais como assistir a eles. No fim, a experiência cinematográfica sobrevive menos do formato e mais da disposição do espectador em se entregar algo que nenhuma plataforma pode garantir.
Fhagner Soares — o cinema sob outro olhar.
