Durante muito tempo, o Carnaval foi sinônimo de multidão, barulho e agenda cheia. Mas, nos últimos anos, algo vem mudando silenciosamente no jeito como as pessoas escolhem viver esse feriado. Cada vez mais brasileiros têm usado os dias de folga para desacelerar, descansar de verdade e buscar experiências que façam sentido.
Não é uma rejeição à festa, mas uma mudança de olhar. As viagens de Carnaval passaram a refletir um desejo coletivo por mais bem-estar, mais conexão com a natureza e menos pressa. Viajar, para muita gente, deixou de ser apenas sair da cidade. Tornou-se uma escolha consciente sobre como viver o tempo.
Menos pressa, mais sentido: o novo jeito de viajar
O turismo vive um momento de transição. Se antes a lógica era acumular destinos, hoje cresce o interesse por experiências mais profundas. Viagens focadas em silêncio, natureza, saúde mental e reconexão pessoal ganham espaço nas escolhas dos viajantes.
Tendências como quiet travel, turismo de bem-estar e viagens regenerativas mostram que viajar não é mais apenas deslocamento. É vivência. Caminhar sem pressa, respeitar o ritmo do lugar, ouvir histórias locais e permitir que o corpo e a mente descansem de verdade.
Esse novo jeito de viajar não exige luxo excessivo, mas presença. Não pede grandes estruturas, mas atenção ao território e às pessoas. E dialoga diretamente com realidades onde a natureza ainda é protagonista.
Viajar com propósito também é uma escolha de quem vive no Acre
Para quem vive no Acre, viajar nunca foi algo automático. Sair do estado sempre exigiu planejamento, intenção e escolhas bem pensadas. Talvez por isso o conceito de viajar com propósito não seja novidade para o acreano.
Quando a distância faz parte da realidade, a viagem ganha outro peso. Cada saída é pensada, cada roteiro é escolhido com cuidado e cada experiência é vivida com intensidade. Isso forma um viajante atento, que valoriza o caminho tanto quanto o destino.
Nesse sentido, o Acre se conecta de forma muito natural com as tendências atuais do turismo. Um turismo mais consciente, mais humano e menos acelerado. Um turismo que respeita o tempo do corpo, da floresta e das culturas locais.
Quando viajar era voltar para a floresta
Muito antes dessas tendências ganharem nomes modernos, eu já vivia algo parecido sem saber que aquilo também era uma forma de viajar com propósito. Quando eu era criança, muitos dos nossos feriados em família aconteciam durante o Carnaval ou na Semana Santa. Mas não eram viagens para cidades ou hotéis. Eram viagens para o seringal.
No Acre, quando falamos em seringal, falamos também de comunidades ribeirinhas distantes, onde a floresta dita o ritmo da vida. Para chegar até lá, a própria viagem já era uma experiência. Saíamos de Sena Madureira, subíamos pelo Rio Iaco, entrávamos pelo Rio Macauã e seguíamos rio acima por três dias.
O caminho era feito de água, mata fechada e silêncio. Passávamos os dias entre a floresta, o rio, a rede armada no “batelão”, o banho de rio e conversas sem pressa. Não havia roteiro turístico, mas havia conexão. Um tipo de quietude que hoje muitos viajantes atravessam o mundo tentando encontrar.
Essas viagens sempre foram uma forma de reconectar com as nossas origens. Revigoravam o corpo e organizavam os pensamentos de um jeito simples e profundo. Talvez tenha sido ali, ainda criança, que eu comecei a entender que viajar nem sempre significa ir para longe. Às vezes significa voltar para aquilo que nos lembra quem somos.
Viajar no Carnaval como gesto de cuidado
Viajar com propósito não é sobre ir mais longe, mas sobre ir com mais presença. É escolher caminhos que respeitam o tempo, as pessoas e o território. No Carnaval ou em qualquer época do ano, viajar pode ser um gesto de cuidado consigo e com o mundo.
Para quem vive no Acre, essa escolha nunca foi simples. Sempre exigiu intenção. Talvez por isso estejamos tão alinhados com esse novo jeito de viajar que o mundo começa a valorizar.
Menos pressa. Mais sentido.
Sempre existe uma rota possível.
Sobre quem escreve
Sou Marisol Pinheiro Pontes, criada entre rios, estrada e floresta. Viajar me ensinou que conhecer o mundo não nos afasta das nossas raízes, pelo contrário, nos ajuda a reconhecê-las. Viajo como missionária há 17 anos e acredito no encontro entre culturas como caminho de consciência e transformação.
Atualmente, sou voluntária na ATINI – Voz pela Vida, atuo como consultora em seguro viagem e, nesta coluna, compartilho rotas possíveis, destinos pouco conhecidos e histórias que começam de onde estamos.
Instagram: @marisolpinheiro / @na.rota.do.ceu
